CULTURA: Reentrar a rockar

No último fim-de-semana, as manchetes jornalísticas foram largamente ocupadas pela já tradicional rentrée política, sem que nada de relevante tivesse sido dito. A ausência de um plano para o futuro é evidente mas esse vazio no horizonte não obriga a uma vida preenchida pela depressão.

Não é por acaso que os festivais se tornaram manifestações públicas de felicidade, comparáveis às grandes competições desportivas, só que sem o elemento competitivo. Diversos colunistas políticos teriam a tentação de classificar festivais e concertos de ópio do povo, como se a cultura não fosse também uma forma de cidadania. A demagogia de quem não entende que o divórcio entre políticos e cidadãos vem de cima, isto é dos quem deve dar o exemplo, os primeiros, está aí para ser combatida e o primeiro acto é já no dia 31 no Coliseu dos Recreios.

É não só o primeiro concerto da rentrée como igualmente o regresso do velhinho rock que, um pouco como a política, está moribundo, sem ideias e sem capacidade de criar ruptura. Incrível, sobretudo num momento histórico do mundo como é o actual mas uma prova da institucionalização sofrida pelo rock. Parte dessa apatia vem da presença esmagadora de uma classe média alta burguesa nas bandas de rock (Portugal é um bom exemplo). A outra na perda de influência de música de guitarras junto dos "putos", que, por razões práticas e económicas, vêem no software um aliado. 

Nos últimos anos, poucos discos de rock valeram realmente a pena e quando o paradigma do rock são os Black Keys algo tem que estar muito mal. Isso não significa que toda a edição mereça desprezo. Blunderbuss, de Jack White, é também ele um regresso. Neste caso, de Jack White ao viço controlado, depois de um derradeiro álbum balofo com os White Stripes, um disco falhado com os Raconteurs, o segundo, e a pobreza de ideias que sempre afectou os Dead Weather. Naquele que é o seu primeiro título em nome próprio, reencontra um espaço sem virtuosismos exagerados, entre a identidade de guitar hero escritor de canções e o som de Nashville, onde Blunderbuss foi gravado.

Sendo os discos objectos artísticos em risco de extinção e pouco consumidos face à profusão de conteúdos, Blunderbuss é sobretudo um pretexto para os palcos e, ao vivo, costumam acompanhá-lo duas bandas numerosas. Os saudosistas podem ficar descansados: o alinhamento é um pot-pourri da obra de Jack White. E como vai ser bom voltar sentir o Coliseu a estremecer com guitarras.

Vídeo de Love Interruption

  • Anabela

    Finalmente um concerto fora dos recintos das feiras populares