VIAGENS (lá fora): Ver sem ser visto

O louco é subvalorizado. É entristecido quando, na verdade, é feliz. É dito lunático quando caminha com os olhos postos em todos os pormenores da Terra. É chamado de solitário quando tem um amigo em cada pedra da calçada, em cada cão vadio, em cada pessoa de sorriso apagado. É desacreditado e, no entanto, não há no que não acredite.

O louco é metade pessoa, metade Universo. Não tem regras, não tem limites, tem imaginação.

Em Roma, vesti a pele de um: viajei com o veículo-bicho chamado curiosidade e com ele conheci os segredos das vielas, ruas e avenidas, despida de preconceitos e desatenta aos relógios. Em Roma, dei por mim a esquecer que os outros podiam ver-me, só para os ver a eles, seres de interesse, de mil e uma verdades por contar. 

Hoje, quase três meses se passaram desde que o avião rumou a terras lusas e cá me condenou a ficar por uns tempos. Quase três meses e um pedaço de mim permanece lá, partido em vários, espalhado pela cidade – no Colosseo, no rio, em Trastevere, nos assadores de castanhas, nos caffè al Ginseng... 

A verdade é que, na cidade eterna, percorri caminhos sem fim com nada que não a vontade imensa de tudo ver e uns trocos para um cappuccino no bolso e agora, na Invicta, não consigo não gritar que dava tudo para o voltar a fazer. Dava tudo para sair de casa e apanhar o 492 em direcção à Via del Tritone, via dos mil ofícios e do “como é tão bonita esta avenida”. Dava tudo para, a cada fermata, ouvir, ao abrir das portas, o burburinho da manhã romana, a língua cantada a ecoar pela calçada. 

Saudade, acho que é a palavra. Uma saudade imensa. Saudade tão nossa e saudade tão dura. Saudade que aprisiona a Alma em travessas alheias e o corpo em terras onde a Alma não quer estar. Saudade que me faz dizer “basta”.

Também na Invicta tem de existir vontade. É tudo o que quero - voltar a vestir o manto de um louco - e, já dizia o velho, “tudo é uma coisa só. E quando alguém quer alguma coisa, todo o Universo conspira para que se realize esse seu desejo”.