VIAGENS (lá fora): Crónicas da Gâmbia - The smiling coast

2012.05.20 - Gâmbia – Kololi

Ontem após a final da liga dos campeões europeus, com a vitória do Chelsea frente ao Bayern de Munique, os festejos eram muitos nas ruas. Alguns gambianos apoiam o Chelsea, quase todos os clubes ingleses. Os hello my friend, how are you? eram mais que muitos e mais insinuantes ao aproximar-nos da movimentada The Strip, na chamada Senegâmbia em Kololi. Estavam eufóricos. Às várias ofertas de táxi respondíamos com o costumeiro no thanks, we are ok! Fomos espreitar o Gaya Art Café. Temos de ir lá jantar.

Eis que no regresso, e de entre tantos, surge um moço alto, de t-shirt encarnada e malcheiroso, que de imediato tira o boné para se mostrar bem e pergunta se não o reconhecemos. Diz ser do hotel, da recepção percebi eu. Mas poderia ter sido da entrada, onde se posicionam alguns táxis. Diz também que somos um casal muito simpático. Que isso é referido por todos os empregados do hotel. Embaraçados por não o reconhecermos de imediato e em necessidade de resposta a tão grande elogio, respondi que é fácil sermos simpáticos para com um povo também tão simpático. Chamam à Gâmbia the smiling coast. E continuou dizendo que os restantes brancos não se dignavam sequer a responder a um hello! E de imediato, lamentou não nos ter visto no dia anterior. Casei-me ontem! Exclamou ele com alegria. E logo se abraçou a mim quando lhe respondi: a sério? Como que a antecipar a minha reacção. De seguida abraçou a Bébes, quando lhe traduzi o que ele dissera e ela reagiu com alegria. Tinha sido uma pena não nos ter visto, repetia ele. Pois ter-nos-ia convidado para a festa. Ontem tinham estado muitos hóspedes do hotel, na festa, ali mesmo em frente! E apontava para o outro lado da rua.

Foi tudo tão rápido que não houvera ainda qualquer conversa, ou olhar, entre mim e a Bébes, para além da breve tradução de que se havia casado. Creio que se o tivéssemos feito, logo em uníssono teríamos achados estranho haver um empregado com ar de Bob Marley no melhor hotel da Gâmbia onde todos andam imaculadamente de cabelo rapado e barba feita. Mas, poderia ser da entrada… ou da praia… Estranha era também a referência aos muitos hóspedes do hotel que haviam estado na festa. Aquela gente de classe alta e alguns com ar snob a darem-se ao trabalho de participar na cerimónia de casamento de um empregado de hotel?

E apressadamente continuou: venham conhecer a minha mulher! Está já ali! Venham conhecê-la! Amanhã partiam em lua-de-mel para o Senegal, para Dakar. E dizia: não se esqueçam que na nossa língua olá se diz salam maleikum! E repetia e queria ouvir-nos dizer, reagindo com alegria quando lá dissemos algo parecido. Atravessámos a rua. Havia carros estacionados, barracas e bancas de venda e táxis, muitos táxis verdes e amarelos, os de serviço menos nobre. Havia também fumo, sempre fumo de pequenas queimadas por todo o lado. E cheiro a gasóleo de carros muito velhos e poluentes. A zona era escura e caminhávamos sobre terra batida, solta. O breve percurso dava para começar a cair em mim. Sentia também a mão da Bébes pesada na minha, como que a atrasar-me, obrigando-me a pensar. Perguntei-lhe se faltava muito. Não, está já ali. Disse-lhe que não queríamos ir a casa dele. Não queríamos incomodar.

Pensei mesmo que nos achava tão simpáticos que, recém-casado e sem que nos encontrasse na véspera para o convite para a festa, queria muito partilhar connosco este momento especial. Era simpático apresentar-nos a mulher. Eu queria-me ficar, mas não podia.

Tínhamos chegado. Era ali! E apontava para o interior de uma loja. Dizia que ali estaria a mulher. Seguimo-lo com receio. Entramos numa loja pequeníssima, velha, imunda. Havia apenas um balcão com um gradeamento até ao tecto. E uma senhora gorda e velha com uma criança ao colo. Perguntei-lhe pela mulher. Pôs-se em bicos de pés e mostrou-me que a mulher estava deitada no chão, do lado de dentro do balcão. Estava cansada e já dormia, disse. Mal se via. Estava entretanto também já na loja um amigo. Não cabia mais ninguém. A Bébes puxava-me para fora. Tento atabalhoadamente terminar a peregrinação, quando me diz que por serem muçulmanos não poderia aceitar dinheiro, mas que deveríamos fazer como manda a tradição e comprar leite em pó para oferecer aos noivos, para dar sorte. Estava determinado em vir embora rapidamente. O leite em pó não poderia ser muito caro. Queria pagar. Dar o dinheiro aos noivos, desejar-lhes boa sorte e pôr-nos a andar. A loja não parecia ter leite em pó. Aliás não consegui perceber o que teria. Disse-me que custava duzentos e noventa dalasis. Já lá estava há mais de uma semana e fazia a conversão rapidamente. Eram cerca de sete euros e meio. Caríssimo! Pedi para ver o leite em pó, como que querendo ver a etiqueta. Apontava não sei para onde e insistia nos duzentos e noventa dalasis. Eu estava a ficar irritadíssimo e pensei: tenho várias notas pequenas na carteira dentro da mochila, vou saindo e tirando, encho-lhe a mão de notas e digo-lhes que não tenho mais. Vão-se dar por satisfeitos. E assim fiz. Ia correr bem. Dei-lhe algum dinheiro. Mas eram dois. E ele dizia que eu tinha notas de cem. Tinha-as visto. Faltava o resto. Tinha que lhe dar aquele valor, dizia. Disse-lhe precisar do dinheiro para o táxi de volta ao hotel. Respondeu-me já ter falado com o taxista. Que o táxi seria por conta dele. Que taxista? Eu tenho taxista, dizia eu. Sim, já tinha falado com ele, respondia ele. Furioso, perguntei-lhe o nome do nosso taxista. Insistia que já tinha falado com ele.

Finalmente não tinha dúvidas. Estávamos a ser vítimas de um esquema. Afastámo-nos rapidamente, sem dar mais dinheiro e sem receio. Atravessámos a rua. Estávamos a salvo.

A polícia turística era curiosamente a cerca de cem metros dali. Do outro lado do cruzamento. Quis voltar atrás. Dizia à Bébes que queria perguntar-lhe qual o nosso hotel. Mostrar-lhe que tínhamos percebido ter sido enganados e que se não nos devolvesse o dinheiro iríamos à polícia. A Bébes puxava-me. Não me deixou fazê-lo. Discutimos. Não fui simpático para com ela no meio da rua. Queria o meu dinheiro de volta. A Bébes lembrou-me que ali éramos estranhos e vulneráveis. Quanto nos tinham roubado? Seria muito pouco. Cerca de quatro euros e meio, respondi. Lembrou-me que no Senegal nos tinham roubado vinte euros, num esquema idêntico e que não me tinha importado tanto. A vida continua, dizia. E continuou...

Acalmei, aparentemente e prosseguimos. Tínhamos planeado ir beber café ao JoJo’s. Um restaurante com nome familiar. E assim fizemos. A banda era má. A música irritou-me. Finalmente acabou. Falámos menos do que o habitual. Mais um pouco, umas melgas a chatearem e fomos embora.

Estava a ser bom demais…

 Paulo Almeida

 

  

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