Por vezes temos uma certa tendência a enfatizar certas coisas, ou pessoas, apenas pelo facto de a sociedade, ou a chamada opinião pública - que, muitas vezes, de pública não tem nada - pré-determinar que assim o deve ser. Lembramo-nos de figuras que marcaram a nossa história, mas nunca damos o devido valor às pessoas que estavam por trás dessas figuras, as personagens secundárias, os suportes mais importantes e menos reconhecidos.

"O Discurso do Rei" fala-nos da história de uma dessas personagens à qual não se deu, até à data, a devida importância e consideração.

Passado no final dos anos 30, à porta da II Grande Guerra, Rei George V da Inglaterra morre e deixa o trono ao filho mais velho, Rei Eduardo VIII. Mas Eduardo tinha um relacionamento amoroso, no qual via futuro, com uma mulher recentemente divorciada - um escândalo para a corte, até mesmo nos dias que correm. Assim, Eduardo abdicou do trono pouco tempo depois, passando-o ao seu irmão, Rei George VI, ou digamos antes Bertie.

Numa brilhante interpretação de Colin Firth, Bertie é um jovem nobre, com família constituída e leva o cargo da sua posição de duque à risca, seguindo o protocolo, como qualquer bom e tradicional britânico. Mas há uma sombra na vida deste jovem duque, um complexo que deteriora a confiança em si mesmo, o seu ego, o seu orgulho. Bertie é gago. Enfrentava problemas graves de dicção que nenhum médico da época conseguia curar. Não poder discursar, ou transmitir comunicados como representante da família real era para Bertie o seu maior desgosto.

 

É quando a sua esposa, Elizabeth (Helena Bonham Carter) encontra um Terapeuta da Fala excêntrico no qual deposita as últimas esperanças. Lionel Logue (Geoffrey Rush) aplica as suas melhores técnicas de terapia, canto e postura e conquista não só um importante paciente, mas um grande e inseparável amigo.

Em três pontos, são estes os motivos pelos quais, penso eu, que fazem desta produção cinematográfica um dos grandes concorrentes aos Óscars 2011.

E o primeiro aspecto a destacar é o argumento original. Baseado em factos históricos, mas com um cheirinho de criação, é importante não nos esquecermos que, apesar da acção se passar no século XX, não é uma história tão distante. Ou não fosse o nosso protagonista o pai da actual Rainha da Inglaterra.

A abordagem simplificada desta história complexa dá um contraste ao filme que só quem tiver a oportunidade de assistir saberá do que falo. Não é um filme de acção, aliás, isso é das coisas com que podem não contar ver se forem ao cinema ver esta obra. Mas é uma história de vida, que mostra como até os mais poderosos membros da sociedade podem ser afectados por problemas corriqueiros. É também a história de uma amizade construída com base em valores sociais de classes, onde se prova que o poder não é tudo, e que sozinhos não vamos muito longe.

 

 

Um segundo ponto que obviamente tenho de destacar é o brilhantismo com que Colin Firth e Geoffrey Rush desempenham os seus papéis nesta longa-metragem. Se nunca o tivesse visto em outros filmes, não me custaria acreditar que Firth tinha algum problema de dicção, tal é a naturalidade com que se expressa gago! Não só a gaguez, neste caso, mas também os gestos nervosos, as expressões faciais alteradas pela dificuldade em comunicar, a dificulta respiração, as pausas mal colocadas, todos sintomas típicos de quem sofre de problemas de fala e dicção.

Já para não falar na postura magistral e deliciosamente cínica de Ruch, que como cidadão comum está claramente a baixo de um Duque - que dirá de um Rei - mas que como mestre, terapeuta ou tutor está bem a cima do Homem que reinará a Inglaterra. A forma como dirige as suas sessões, bem como a forma como se dirige ao seu paciente, é irresistivelmente cómica e provocadora, dando um toque indispensável de graça a uma história que não é propriamente uma comédia.

 

 

Por fim, não poderia deixar de aplaudir a edição e fotografia deste grande candidato a 12 Óscars da Academia. Uma montagem sem dúvidas arrojada para o tipo de argumento, mas que funciona na perfeição se tivermos em conta os diálogos frenéticos e alucinantes entre as personagens de Firth e Rush. A fotografia é uma consequência muito agradável de uma genial edição de imagem.

 


Enfim, incluam na vossa lista esta película. Garanto que "O Discurso do Rei" vai surpreender-vos!

 

Exibições: 83

Adicione um comentário

Você tem de ser membro de MyGuide para adicionar comentários!

Entrar em MyGuide

Comentário de Inês Sousa Almeida em 16 Fevereiro 2011 às 22:29
O filme deve ser genial, vou ver amanhã
Comentário de Maria Claudia Rocha Ferreira em 11 Fevereiro 2011 às 22:10
Não te vais arrepender;) Confia!
Comentário de Natacha Costa em 11 Fevereiro 2011 às 21:39

Fiquei mesmo curiosa =) Já vou incluir na minha lista.

COMUNIDADE MYGUIDE

O Myguide.pt é uma comunidade de Viagens, Lazer e Cultura.

Regista-te e publica artigos, eventos, fotos, videos e muito mais.

Sabe tudo sobre o Myguide aqui

Editores em destaque

EM DESTAQUE

Eventos em Destaque

Abril 2024
DSTQQSS
123456
78910111213
14151617181920
21222324252627
282930
       

Notícias

Aulas regulares (e para todos) no Museu do Oriente

Criado por MyGuide 5 Jan 2021 at 10:16. Actualizado pela última vez por MyGuide 5. Jan, 2021.

Pintar como os grandes

Criado por Agenda MyGuide 24 Nov 2020 at 18:30. Actualizado pela última vez por Agenda MyGuide 24. Nov, 2020.

É um restaurante?

Criado por Agenda MyGuide 9 Nov 2020 at 11:32. Actualizado pela última vez por Agenda MyGuide 9. Nov, 2020.

© 2024   Criado por MyGuide S.A. Livro de reclamações   Ativado por

Crachás  |  Relatar um incidente  |  Termos de serviço