Todos os anos a festa repete-se: missa, procissão, sopas, convívio e muita algazarra. São as festas em honra do Divino Espírito Santo que, entre Maio e Agosto, dão um toque especial aos Açores.


É nestes dias, que tenho mais saudades da minha ilha. Aquele cheiro característico das “sopas“, aquele convívio fora da porta da “casa de Espírito Santo” - que acaba por prolongar-se depois de a barriga estar cheia - a distribuição das “sopeiras” pelos que já não podem ir ao império, a “oferta” das sopas a todas as pessoas que por lá passam. O ritual e ritmo destas festividades fazem parte da minha alma e da de qualquer açoriano. Deixe-se também envolver por esta tradição.


Tradição


 

Embora cada ilha tenha as suas próprias e diferentes características a essência desta festa, em homenagem à terceira pessoa da Santíssima Trindade, é a mesma. A crença nos seus milagres quando catástrofes naturais e temporais afligiam o arquipélago fizeram com que este culto permanecesse mais enraízado nos Açores e fizesse parte, até aos nossos dias, da cultura açoriana.

 
Todos os anos após a Páscoa a igreja de cada paróquia coroa um Imperador que vai organizar as festas do Espírito Santo que se realizam no Domingo de Pentecostes. Por vezes, estes jantares são também dados por pessoas que fizeram “promessas” em momentos de aflição , ou pelas Juntas de freguesia, é por esta razão existe mais do que um jantar por ano em cada Paróquia. O fulcro da cerimónia é a chamada “Casa do Espírito Santo” ou "Império" utilizada para estas festas onde durante todo o jantar a coroa do Espírito Santo encontra-se em exposição no altar que é enfeitado a preceito para a ocasião.


Momentos especiais (Freguesia da Fazenda das Lajes, Flores)

 

Fonte: nova-acropole.pt


A carne é, normalmente, oferecida e dividida em duas fracções: Uma parte é para o jantar, a outra é distribuída na manhã de sábado, que antecede ao jantar, pelas casas da paróquia - que pagam um valor simbólico por ela. As crianças da freguesia ajudam na distribuição, junto com alguns adultos que levam a coroa para abençoar as casas. No momento de entrega da carne a criança aguarda por uma “gorjeta” (dinheiro, pastilhas ou rebuçados).


Também eu já fiz esta distribuição de carne e aguardava esperançosa para entregar a carne em casa dos meus avós e tios onde a “gorjeta” era sempre maior. Ainda hoje quando oiço o sino a tocar de forma rítmica lembro-me quando esses dias terminavam e a minha avó comentava: “O Espírito Santo já voltou à igreja!”

 

                                     Fonte: wikipedia.og


No Domingo a festa continua. A tradição manda que antes do jantar se vá à missa. Contudo, essa tradição já não é tão cumprida como a da espera pelo jantar fora da Casa de Espírito Santo. Ali fala-se de tudo, das novidades, dos mexericos, das roupas de uns e de outros. Depois das “sopas” volta-se à conversa, nesse momento o tema muda, centra-se agora no sabor das sopas, se estava mau, bom ou óptimo, se estava melhor ou pior que o ano anterior. Fala-se essencialmente dos cozinheiros.

 

                                  Fonte: Forum Ilha das Flores


O menu

 

 

                                    Fonte: alfredorosa6456.wordpress.com


O sabor das sopas é mais uma das características (desta tradição) que muda de ilha para ilha. Os temperos e mesmo os acompanhamentos podem ser muito diferentes. Na minha freguesia (Fazenda) a “ementa” é:


Carne cozida de vaca com sopas de pão (pão caseiro com molho da carne e hortelã);
Carne assada com massa sovada/ pão adubado (parecido com folar);
Por vezes arroz doce… sempre vinho e sumo a acompanhar o jantar;

 

                                     
Em várias ilhas existe também legumes e hortaliças a acompanhar a carne.

 

                                                            Fonte: Forum ilha das Flores


A devoção ao Divino Espírito Santo espalhou-se por todas as áreas colonizadas por açorianos, como América, Canadá, diversas partes do Brasil, Nova Inglaterra, etc. Os nossos emigrantes levaram para os países de acolhimento as festas em honra do Espírito Santo como forma de diminuir a distância geográfica, diminuir o sentimento de distância da família e amigos, diminuir a saudade.

Estas festas são símbolo de união, não há diferenças entre ricos e pobres, não há diferenças em ser-se ou não da paróquia, é a altura do ano que mais emigrantes retornam à sua terra natal. No fundo é uma partilha, de conversas, de comida, de experiências, de tradições.


Segunda-feira é também feriado nos Açores, não por ser Dia de Santo António mas por este ano ser “Segunda-feira de Espírito Santo”. Aproveite esta altura para visitar os Açores, pois mesmo que não goste de sopas, mesmo que não seja católico, mesmo que não seja açoriano, está convidado para esta festa onde o mais importante é o convívio que esta tradição gera.

 

 

 

 

Fotografia nº 1 - cafeportugal.net

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Comentário de Maria Claudia Rocha Ferreira em 14 Junho 2011 às 19:42
Ai meu deus, que ainda perco a cabeça este Verão e gasto o que não posso numa viagem até aos Açores...:p
Comentário de Rui Correia Sampaio em 14 Junho 2011 às 6:47
Açores = Lindo/Mágico/Delicioso/Gente pura. Adorei os Açores, e quero lá voltar. Recomendo a quem não conhece.
Comentário de Mariana Oliveira Nunes em 13 Junho 2011 às 12:38

Ontem à noite até que calhava bem! :))

 

Comentário de Mª Conceição Nunes em 12 Junho 2011 às 23:59

Para o próximo ano vens cá para actualizares as fotos e matares as saudades

 

 

Comentário de Ana Brum em 12 Junho 2011 às 19:40
Que saudades:) Fiquei com àgua na boca, ia bem umas sopinhas do Espírito Santo agora:)
Comentário de Natacha Costa em 12 Junho 2011 às 19:38

Obrigada! Também comia bem em vez de umas sardinhas umas belas sopinhas da Fazenda! O pão adubado com a carne assada regada com aquele molho maravilhoso! Hum que saudades!

Comentário de Maria Francisca Azevedo Nunes em 12 Junho 2011 às 19:06

 Natacha!

Esta peça é notável. Alguns açorianos _ florentinos em especial_ que se encontram longe ,ficarão com lágimas nos olhos.

 O culto ao Espírito Santo, remonta aos tempos da Rainha Santa Isabel e perde-se nos tempos até passara ser a crença maior de todos os açorianos, que ao Divino Espírito Santo, pedem e agradecem milagres em momentos de aflição pessoal ou comunitária.

Para os continentais , esta peça é interessante como informação simples ou ponto de partida para uma ida aos Açores nestes dias. 

Confesso que comia bem umas sopas a acompanhar a carne assada do"José Maria".

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