GASTRONOMIA: Um Sábado temperado com Alecrim às Flores

Num sábado solarengo, depois de uma sexta-feira chuvosa e fria, apetece sair da toca. O roteiro para depois de almoço começou na Feira da Ladra. Investigámos, contornámos as várias bancadas, tocámos e experimentámos, mas viemos de mãos a abanar. O nosso hobby é mesmo ver e ouvir por gosto. Ver as caras de quem por ali passa, ouvir as histórias de quem as quer partilhar, imaginar as vidas de todos aqueles objectos que ali deitados, imploram por um novo dono.

Depois da vistoria pela Feira da Ladra, fomos muito decididos ao Chiado. “Tenho muitas coisas a resolver, ir à Fnac, farmácia, multibanco, trocar as luvas….” – dizia eu aflitiva enquanto o João me acalmava a ânsia com gestos doces. Depois dos afazeres obrigatórios fomos à Santini degustar um gelado de uma bola com dois sabores. Eu bem queria duas, mas contive-me, afinal estávamos perto da hora do jantar. Baunilha e caramelo para mim, caramelo e maça canela para ele.


Passámos os olhos no que comprámos na Fnac, descansámos as pernas e começámos a pensar: “onde vamos jantar?”. E que tal no La Hora Española? Já lá tínhamos entrado para jantar, estava tudo preparado para uma noite de espectáculo com direito a tango ao vivo e tudo, mas o restaurante estava lotado. Como saímos de lá um bocado frustrados, decidimos voltar lá. Devíamos ter visto a ementa antes, porque o La Hora Española era o sítio ideal para não irmos jantar…a ementa é recheada (como muito bem poderíamos ter previsto) por tapas, enchidos à base de porco, queijos e saladas. Como eu não como porco a nossa escolha ficou definitivamente muito redutora. Acabámos por desistir de jantar no refúgio das tapas e sem querer surgiu-me na memória o restaurante Alecrim às Flores, ao qual o João reclamou “mas acabámos de vir do Chiado?!”, “anda lá! Já ouvi dizer bem!”.

Para quem conhece bem as ruas de Lisboa, o nome do restaurante está muito bem aplicado e dá-nos logo as suas coordenadas: entre a Rua do Alecrim e a das Flores, fica a Travessa do Alecrim onde repousa então o “Alecrim às flores”.

 

 

O espaço foi reconstruído mas valoriza os vestígios do passado. Num ambiente acolhedor e familiar fomos muito bem recebidos e na mesa esperavam por nós couverts com azeitonas e pão, extremamente guloso, diga-se.

O momento da escolha num restaurante que não se conhece é sempre um misto de entusiasmo temperado com receio “será que vou gostar?”.

Percorremos com os olhos a ementa e cada prato nos seduzia mais do que o anterior. Para nós, amantes de risotto como somos, havia de espargos verdes envolto em courgettes, de lima com amêijoas à Bulhão Pato, do bosque com vieiras braseadas e cogumelos porcini. Entre os outros pratos tinham Magret de Pato com geleia de figo, presa de porco preto marinada em mostarda de Dijon, coentros e mel, bacalhau assado à Alecrim às flores e lombo de robalo sobre migas de batata. O João arriscou e escolheu o risotto do bosque com vieiras braseadas e cogumelos porcini (eu tive medo que viessem apenas duas vieiras ou que viesse um risotto “al dente demais igual a cru” ) e eu optei pelo lombo de robalo. Acompanhámos com um vinho tinto, fim-de-semana já permite devaneios e noites prolongadas.

Especialistas em risottos, este era mesmo bom (e não, não vinha cru): o contraste entre os grãos cremosos deste arroz especial italiano, a textura rija e esponjosa dos cogumelos e as vieiras suculentas renderam-nos por completo.

O meu lombo de robalo também estava de bradar aos deuses; acompanhado por umas migas de batata com pimentos e salsa que faziam lembrar um soufflé muito bem condimentado.

Terminados os pratos chegava a hora de adoçar a boca, porque a alma essa já estava completamente derretida em mel.

Sorvete de Limão com licor de hortelã? Creme brulée? Tarte folhada de maçã com gelado de baunilha? Ficámos curiosos com o Sorvete com licor de hortelã e foi o que escolhemos. Refrescante para o espírito, doce para a boca.

Uma experiência a repetir, sem sombra de dúvida. Foi um culminar de um dia mais que perfeito temperado com “alecrim às flores”.

Alecrim às Flores
Morada: Travessa do Alecrim, nº 4, Lisboa
Tel.: 21 322 53 68
Site: Alecrim às Flores

 

Santini
Morada: R. do Carmo, 9, Lisboa
Site: Santini

 

La Hora Española
Morada: Calçada Marquês de Abrantes, 58/60, Lisboa
Tel.:213 971 290
Site: La Hora Española

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Comentário de Pedro Castanheira em 26 Fevereiro 2011 às 19:22

Que eu fiquei com inveja fiquei, embora tenha estado a desfrutar do sol numa esplanada em Cascais. É que o meu almoço não foi fantástico, soube-me a pouco.

Amanhã compenso

Comentário de João Miguel de Carvalho Jorge em 23 Fevereiro 2011 às 17:04
Orgulhosamente babado por ser uma personagem deste belo texto

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