ONDE DORMIR: Amieira - Aconchego no monte

Sou uma fã de turismo rural e, por isso, sou uma fã ainda maior da Amieira. Já estive 5 vezes neste monte alentejano e sei que vou voltar mais 50 enquanto for recebida assim. Com uma reserva breve por mail ou telefone aviso a minha chegada. Sempre no verão ou  quando já é tempo dele …já que este conceito no nosso país é, felizmente…abrangente, com pouco respeito por datas de calendário. E ainda bem que é assim.

 

A Amieira reúne aquilo que mais adoro no Alentejo, a simplicidade. Quem procura cadeiras de design ou piscinas gigantes que terminam em relvados aparados cobertos de espreguiçadeiras em ambiente lounge ao som da música da moda, esqueça.  Hippie Chic, Trendy, Cosmopolita, roupas de vanguarda, louças desenhadas, quadros assinados, chefes “estrelados”…nada disso entra aqui.

Estrelado aqui é o ovo… e o céu.

 

Aqui, honra-se a madeira e os vimes, faz-se homenagem ao barro, guardam-se relíquias em baús, decora-se em ferro forjado e pinta-se com as cores da terra. O pequeno almoço é caseiro, pois claro. Numa mesa grande e  cheia de  sabores locais que é partilhada por todos os residentes. Todos os dias há um bolo, de courgette ou de mel ( já tenho as receitas!),há pão quente e ela coloca, orgulhosa, as mais recentes compotas…de tomate, de marmelo, de figo….uma delícia para os olhos…um pecado desejado todas as manhãs. Tudo é feito com carinho, por ela.

 

O caminho de terra até ao monte passa por entre silvas e silvas cheias de amoras. Não resistimos e apanhamos umas quantas. Um manjar. Mais um presente da estadia. Quando o sol se põe, as vacas passeiam-se ao largo indiferentes à passagem de todos, e compõem o cenário perfeito iluminadas pelo pôr do sol que torna o pasto dourado.

E o  céu ? Não há como o céu do Alentejo. Sim, porque  o monte parece ter reservado um pedaço só para ele. As estrelas parecem grãos de areias brilhantes nesta praia negra que nos abraça a cada noite. A paz, o silêncio, a confiança de estar em casa oferecem 10 horas de sono mesmo a qualquer mortal que trate  a insónia por tu.

 

Estamos a poucos kilometros da barragem de Santa Clara e de Odemira mas também a cerca de 15 km das praias fantásticas da Zambujeira a sul ou de Almograve a norte. Os aromas da terra confundem-se em poucos minutos com o cheiro forte da maresia quando o mar recua e oferece numa bandeja rochas cheias de mexilhões, lapas e percebes.

Mas a alma dos lugares é sempre construída pelas pessoas…e a Amieira seria apenas mais um monte alentejano perto do mar, se não existisse a D. Floripes.

A D. Floripes juntamente com o marido são os caseiros da Amieira. O marido cuida da terra, do gado. A D. Floripes cuida de tudo. Ela é governanta e governa-se a si própria e a todos os residentes. Cozinha e compra a comida, arranja as flores no jardim. Trata dos netos mas também trata de nós. Sempre com um sorriso franco e aberto à nossa chegada e já com saudades  na nossa partida. Nós também somos a sua companhia.

Cabeleira farta e encaracolada de forma desajeitada, de avental como farda obrigatória, fala pelos cotovelos com sotaque alentejano misturado com algarvio numa entoação, à primeira vista, de difícil compreensão. Confesso, na minha primeira estadia, eu sorria e incentivava o diálogo mas compreendia muito pouco. D. Floripes metralha expressões engraçadas e regionais tornando a nossa experiência mais genuína e autêntica. Os pequenos-almoços são demorados. D. Floripes fica no canto da mesa e vem mostrar-nos o neto mais novo, conta a história dos filhos, a nora, o genro, os vizinhos, do cão que sai para namorar e que vem doido. Com a última chávena de café a fumegar já consigo compreender cada palavra. A D. Floripes é o máximo.

Locais como este já não existem muitos,  que ainda nos recebem com o coração e que nos têm como amigos a quem estendem sempre a mão.

Estou a estacionar debaixo do alpendre improvisado e oiço-a a chegar à porta.

“Vem aí a minha Milene”, diz.

 

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Comentário de Sara Laranjeira em 17 Junho 2011 às 16:22
É que os bolos da D. Floripes são mesmo bons, só provando!
Comentário de Carlos M. A. de Menezes Cabral em 17 Junho 2011 às 16:17
Estas vacas (para quem não sabe) creio serem da raça Jersey, oriundas da Inglaterra da Ilha do mesmo nome. São óptimas leiteiras. 
Comentário de Carlos M. A. de Menezes Cabral em 17 Junho 2011 às 16:11
Esse pequeno almoço deve ser daqueleeeeeeeeeeeeeeeeeees!!! Nota-se pelo  humor  contagiante que a Milene emana logo de manhã cedo. 
Comentário de Carlos M. A. de Menezes Cabral em 17 Junho 2011 às 16:04

A D.Floripes pode contar com mais um ajudante. Pelo  facto de estar junto da senhora fico também mais perto desse verdadeiro  "paraiso".

Comentário de Carlos M. A. de Menezes Cabral em 17 Junho 2011 às 15:52
O reflexo do pôr do sol, oferece-nos a estrada indeterminável que nos leva até ao infinito....
Comentário de carlos moreira em 17 Junho 2011 às 15:51
A Milene , dá-te um apoio,  já deve saber como se faz...
Comentário de carlos moreira em 17 Junho 2011 às 15:48

Estás-me a roubar as tarefas, Sónia ? eu sou o da praia, música, comer e beber! Agora vacas ?

 

Comentário de Carla Pires em 17 Junho 2011 às 15:36
Que belo local para um fim de semana de paz e descanso!
Comentário de Sonia Cabral em 17 Junho 2011 às 15:20
eu vou para a praia e voces ajudam, boa?
Comentário de Sonia Cabral em 17 Junho 2011 às 15:20
acho melhor reorganizares a coisa, Carlos, senao ainda somos expulsos do monte!!!

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