PASSEIOS (cá dentro): Com menos de 200 euros e menos de 200 KM, até onde se pode ir?


Acrescentemos à adivinha: somos duas pessoas. Em Portugal, e num fim-de-semana, durante cerca de 48h, da tarde de 6F até à manhã de domingo. Com mais uma dica, saída do distrito de lisboa e passagem à margem esquerda do Tejo para regresso ao ponto de partida.
Ora com o andar da carruagem vai-se completando o “puzzle” da resposta!
Sexta-feira, portanto dia de partida de um ponto que se identificará a final pois é necessariamente o mesmo da chegada. Fica na margem direita do Tejo, e faz parte da rota do Espírito Santo. Terra também de monges e de guerreiros. Terra de rotas de vinho. Terra ainda da rota de Fátima, da rota de Santiago de Compostela e ainda da rota dos Templários. Já está adivinhado? Senão, mais umas últimas pistas: nesta Vila concentraram-se tropas de D. Sebastião antes da partida para Marrocos, e há quem a associe ao milagre das rosas de Sta. Isabel. E mais Além, não se diz.
Então saímos do tal local misterioso, depois do meio-dia, em velocidade de cruzeiro cruzamos o Tejo, pela velha ponte metálica Marechal Carmona, em direcção Porto Alto e aí, direitos a sul, à Companhia das Lezírias na estrada recta que conduz ao Montijo. Chegámos bem a tempo de almoço na Coudelaria o restaurante das Lezírias. Mestre Samora, “Chef” tinha dia de “buffet self-service”.

Foi sentar numa mesa para o duo, e escolher na variedade das entradas na primeira ronda, a que se seguiu uma segunda de quentes, e a finalizar na terceira de sobremesas. O “K.O”. final estava no café, com aguardente de bagaço caseiro, apesar de apenas num dedal.
Que dizer? Tudo acolhedor, activante e despretensioso. Desde as sombras que receberam debaixo das ramadas do arvoredo a viatura, até ao bar de entrada em sala com lareira (ainda sem tempo para mostra as suas labaredas) e balcão de madeira. Luz de sol, a jorros de janelas amplas, com vistas desafogadas sobre o picadeiro, e a circulação gulosa dos clientes sabidos, ao longo das mesas de “buffet”.

Foi seguir o exemplo. Nada de sopas porque faltava uma friagem outonal para acompanhamento, e por isso fomos aos gostos. Entre outros, queijo fresco de cabra, cogumelos salteados em alhada, salgadinhos, enchidos e a rainha coroada de um pedaço de alheira de caça. Genuína. Vinho para ela, de jarro da casa, Senhora de Alcamé, e para mim, iconoclasta, uma “coke” zero. Tudo excelente.
Segunda ronda, de quentes com escolha múltipla. O bife de carne da lezíria estava de estalo, com batatas fritas as rodelas saborosas. Fui-me a elas, mas optei pelo polvo excelente de tenro. Tempo para conversas distendidas sobre a possibilidade de após almoço, seguirmos para a Loja de Vinhos da Companhia, junto à Adega. Arrematado até com um telefonema de apoio confirmativo para um amigo que em outro local, estava em plena adiafa (a tal refeição campestre de final de vindimas).
A finalizar a ronda dos doces, para mim substituídos por queijo pequeno fatiado e uma rodela de kiwi, e para Ela, tudo quanto uma não diabética gulosamente enfrenta com entusiasmo. Nota positiva de valoração, e menos de duas euro-notas azulinhas de pagamento. Preço justo.

Retoma da viatura e regresso pela curta picada de areia para estrada nacional, até que pouco depois do lado direito, bem assinalada na berma da estrada, se vê a Adega Catapereiro (denominação regional). E lá se foram na troca uma passagem electrónica de multibanco, para ganhar direito a trazer umas garrafas de tinto reserva e branco de mesa, além de arroz agulha de produção local.

Para saber mais?
http://www.pequenacompanhia.pt
http://www.cl.pt/htmls/pt/home.shtml
Retomado o curso da viagem, foi seguir indicações até Palmela, evitando as portagens das auto-estradas, e aqui obliquamos para Setúbal, circulamos em volta para ocidente, ate apanhar a marginal da foz do Sado para rever paisagens das praias da Figueirinha, de Outão e de Galápos, ignorando a agressividade da fábrica de cimento da SECIL. Do alto de uma curva alta lá estava, ao fundo, a serenidade do Portinho da Arrábida, cercado por um mar de cor verde-esmeralda e por vezes lápis lazúli, num “mix” de memórias da “corniche da Côte d´Azur” e das cotas da Sardenha.
A paragem agendada foi no Parque do Alambre nas instalações do Serviço Nacional de Parques, agora gerido pela YMCA/ACM de Setúbal, associação sem fins lucrativos de matriz americana. Aqui há bungalows de madeira equipados, um restaurante simpático, pinhal envolvendo com mais vegetação protegida do Parque Natural da Arrábida.
Fomos os primeiros a chegar do nosso grupo, com que se tinha acertado o encontro de fim-de-semana, em tempo portanto, de beber mais um café nas esplanadas, em degraus, em que o restaurante desce até nos receber. Depois outros forma chegando, a conversa generalizou-se, entre os casais, quase sempre sobre viagens…a Marrocos, à Escócia, à Sardenha, e em breve, estavam já os suficientes para se organizar o jantar, no interior do restaurante porque o tempo ia esfriando com a noite.

Depois do almoço lauto para nós, Ela e eu optamos decididamente pelo peixe, no caso, Dourada do Mar grelhada, que aliás teve maioritariamente sufrágio electivo. Vinho da casa em jarro e para outros enlatados com e sem gás, uns com açúcar outros sem, a gosto. Entradas de queijos, parentes afastados dos de Azeitão, não foram enjeitados, nem as azeitonas, nem as mini manteigas, nem o pão, nem os patês de sardinha. Sobremesa a escolher, interrompeu momentaneamente a algaraviada, que nem por um momento se entristeceu com as notícias abracadabrantes do Orçamento para 2011. Era outro campeonato. Aqui, cada casal, ficou por menos de uma azulinha e de uma rosinha, em euros.
O tempo foi passando a ajustar horas automaticamente para o recolher. Dia seguinte as 10h tínhamos agendado um passeio pedestre com guia oficial, credenciado pelo SNP, para um percurso dito de dificuldade média pelo Parque Natural da Arrábida! E cada um recolheu a seu sítio para o sono da Noite.

Sábado chegou enevoado. Nuvens baixas de neblina namoravam de perto a paisagem terrestre, e abraçavam-se às árvores. Das janelas de cortinados corridos da mesa de pequeno-almoço íamos espreitando a aberta desejada. Chegou, chegando, a pouco e pouco com o sol do oriente a espraiar-se até nós, cada vez com mais intensidade, até que de repente rompeu a timidez e descobriu-se em Astro Rei. Foi o tiro de partida para todos acorrerem ao exterior, e para mais um expresso na esplanada do restaurante, e mais umas mãos cheias de conversas, até que chegou o momento. Estávamos todos, mesmo os que optaram para ficar no local.

O Guia, que se reclamou humilde do tratamento de Zé, (José Cunha) as 10h prefixas deu ordem de partida e lá fomos mais de uma dúzia, alguns artilhados com um bastão de caminheiro, quase todos de chapéu, e de botas estilosas, óculos escuros, garrafa de água, ou peça de fruta, e, ao caminho! Seguiram-se provavelmente cerca de 7km ao longo de 3 horas, por montes e vales, ravinas e cursos de água, estradões e picadas, e caminhos de pé posto.
O Moleskine de viagem e a esferográfica de serviço foram-se completando, e entrançando os apontamentos. Começamos por um estradão ascendente, para ocidente, directos à Aldeia da Portela, com pausa no chafariz para anotar o débito de informações. Em tempos por ali andaram paleolíticos, neolíticos, homens do bronze e todos quantos e lhe seguiram, os romanos, os árabes, os medievos. Era a romana zona de “Aqua Bona”, a caminho de Mértola e de passagem de Lisboa e mais alto da Lusitânia, com espinha navegável desde o Tejo, pela Ribeira de Coina e até pelo curso do Alambre, até ao porto de Cambas.

Depois foi a Aldeia da Piedade com o seu enorme poço comunitário central, e a seguir a Aldeia de S. Pedro, também com poço central, no largo, e com indicações de ser terra de romanos e de castelo mouro arrasado. Pausa depois no adro da Igreja de portas fechadas mas bem conservada e ajardinada. Tempo de meter água, e morder um pêro bravo esmofo. O tempo aquecia.
Seguimos pelas veredas ao longo da Ribeira do Alambre e passada a ponte, cruzada a estrada nacional no ponto da sinalização para o a entrada no Parque Natural, a meio caminho de Santana e Nogueira de Azeitão, quase ao lado de Aldeia de Irmãos, foi subir e descer entre vegetação para lições sucessivas de botânica.

Isto que parece uma oliveira, não é. Estamos perante um Zambujeiro, e as não azeitonas chamam-se zambujos…mas atenção, delas se extrai belíssimo azeite! Aquelas bagas, são da Aroeira, e Quercus mordidos de bichos apresentam bugalhos vermelhos. A Salsaparrilha com bagos negros, o Tomilho aromático e para chás, a Madressilva airosa de flores olorosas, o Medronho com frutos, e os vários Cistus rasteiros, foram-nos apresentados.
Descida uma ravina com espectros queimados dos fogos devastadores do ano 2003, foi cruzar o Alambre quase sem água, e regressar ao Parque, onde entretanto já estava o presidente da YMCA/ACM para presidir a uma singela inauguração coma presença dos que chegaram entretanto. Fotos da praxe, discursos curtos mas expressivos, sobre o que estava à vista de todos, e que impunha pela simplicidade da eficácia e utilidade da obra. Palmas convictas no final. Agradecimentos, e bons sucessos e sortes mútuas.

Tempo de almoço para os que quiseram sentar-se a mesa comum e as escolhas repartiram-se até por assados de Sardinhas, de Bacalhau com todos, de Douradas marítimas, e bifes. E repetiu-se a dose das entradas, dos vinhos, dos refrigerantes, do pão (melhor do que vésperas) etc. Tudo ligeiramente menos que ao jantar, duas euro-notas por casal, uma cinzentíssima a cavalo numa clássica azulinha.

O tempo seguinte foi de trabalho, cerca de três horas, nada mais do que duas assembleias-gerais associativas, com direito a acta logo ali feita e comunicado final, uma do MIDAP e outra do CAB. Para saber do que se trata, e que ajuda a pista final para decifrar esta crónica, sempre se adianta que esta tudo na “net”: o MIDAP em www.midap.blogpsot.com e o CAB em www.cab-circulo.blogspot.com . Pois talvez e afinal, ainda nada se adiante sem se consultar os dois “sites”.
Mas depois seguiu-se uma discussão e debate mais alargado e no final obtidos consensos e acordos, foi aprovado por unanimidade um comunicado conjunto CAB/MIDAP sobre o tema do seminário que girou a volta do Turismo Itinerante. Já sabem agora os leitores do que se trata? Pois ainda não? Então sugere-se que os mais impacientes vejam o comunicado no blog:
www.campismo-caravanismo-e-autocaravanismo.blogspsot.com
O objectivo principal estava conseguido: Encontro de amigos, refeições em conjunto, passeio ecológico, assembleias-gerais, seminário bem sucedido. Faltava apenas mais um resto de tarde de convívio, e de trocas de impressões sobre questões técnicas, planeamento de viagens, dicas sobre gastronomia, etc. Tudo se encerrou num jantar bem simpático, com ampla participação e com o preço já pago e desembolsado da vintena azul, por pessoa que cobriu os gastos do seguro do passeio pedestre, do aluguer da sala de reunião, e da refeição.

Todos os que entretanto não partiram para penates, e outras obrigações, regressaram aos seus aposentos no local, com o sentimento do dever cumprido, da obra feita, do resultado positivo. No Céu, meia-lua em fundo negro sem nuvens, autorizava milhares de estrelas a exibirem-se.
Domingo, novamente amanheceu imerso em forte neblina, que favoreceu um acordar suave pelas 8.30h. Depois, a pouco e pouco foram-se dissipando os vapores madrugadores, as nuvens sobreviventes esfarrapando-se, descobriam o azul vassalo do Sol. Os sobreviventes foram-se juntando nas esplanadas para um último café expresso conjunto e partilharem uma torta de Azeitão. E depois os adeuses, os até à próxima, quando nos encontramos outra vez? Vamo-nos vendo por aí, mas vão dando noticiais!
Nós, Ela e eu, pelas 10.30h saímos pelo portão do Parque, para antes de chegara casa ainda passarmos pela Feira mensal de Coina (todos os terceiros domingos de cada mês). Parados na berma da estrada ao lado de centenas de carros percorremos aquele “souk” herdado de tradições berberes e de épocas medievas. Só comprámos pão, umas bugigangas por trocos, mas os olhos ficaram-me pelos vendedores de pés de legumes de hortas tão abundantes e frescos a prometerem colheitas úberes. Para além claro está, dos vendedores de flores, e de árvores de fruto.
E agora quem não sabe do que se tratou?

Pois, menos de 200Km entre Alenquer, a partir do Alenquer Camping, em www.dosdin.pt/camping em autocaravana, pelo percurso descrito, e portanto com pernoita de duas noites no parque vedado e guardado do Alambre, por ocasião do I Encontro conjunto MIDAP/CAB, entidades integrantes do Movimento dos Autocaravanistas. Claro que as dormidas foram nas autocaravanas que aliás e deslocaram de cada um dos participantes, cerca de 20 pessoas no total.
O Orçamento, para cerca d e 20 litros de gasóleo, e para duas pessoas um almoço na Coudelaria, duas refeições no restaurante do Alambre, e duas inscrições para o seminário, incluindo o passeio pedestre e o jantar de encerramento, mal chegou aos 160 euros (sem compras de vinhos).
Em fim, de autocaravana sempre se combate o clima de desânimo e de crise que abafa os portugueses, e permite em termos contidos, alguma qualidade de vida essencial à preservação da sanidade mental. Com menos de 200 euros, e em menos de 200Km aqui fica a sugestão de um fim-de-semana na grande Lisboa!
LNC, 18/10/2010

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Comentário de Filipa Pinto Coelho em 22 Outubro 2010 às 14:32
Excelente! gostei das dicas. Se há coisa que hei-de fazer em breve é um passeio de auto-caravana. quem sabe não seja este mesmo, para começar?...

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