PASSEIOS (cá dentro): Os Cromeleques de Almendre ...


-“Então? Que achas? Gostas?” – Pergunta a Mãe à criança.

-“ … Ah!!! São apenas um monte de pedras grandes espalhadas por todo o lado.” – Responde o menor que não deve ter mais que onze ou doze anos.

-“Mas são velhas, puto! São muito velhas!” – Responde o Pai que remata com um – “Agora, prá'li com a tua Mãe , junto daquela com os olhos desenhados para pudermos tirar uma foto.”- Conclui o chefe de família, para que a deslocação não acabasse por ser em vão e a família conseguisse levar uma prova acerca da sua presença em Almendre no regresso a casa.

Não faço a mínima ideia de onde tinha esta família viajado para ver o conjunto de Menires conhecido como os Cromeleques de Almendres. Mesmo às portas de Évora. A cerca de 13km da cidade. Reconheço que, pessoalmente, tivessem eles viajado milhares de quilómetros ou apenas alguns escassos metros, dificilmente compreendo a deslocação.

Admito que a paisagem não é idílica nem tão pouco merecedora de um daqueles postais turísticos onde o contraste entre as cores roça o obsceno. Que mesmo assim, olhando para o postal, pouco mais se veria do que um conjunto de grandes pedras de granito aparentemente deixadas ao acaso, espalhadas um pouco por toda a parte. Em fundo, rodeadas por oliveiras e sobreiros.

Tristemente para muitos são  mesmo apenas um monte de pedras espalhadas meio que por acaso. Digo-o tristemente porque ouvi-o da boca de alguns visitantes. Apenas um monte de pedras que mesmo assim acabam por ser merecedoras de umas quantas fotografias de família. Como que em jeito de justificar a viagem.

Para mim, e não foi a primeira vez que tive a oportunidade de visitar o conjunto de Menires localizado na freguesia de Guadalupe, em Évora, o conjunto é um pouco mais do que isso. Não que seja crente em qualquer outra dimensão extra-sensorial ou busque constantemente uma romântica perspectiva subjacente a um qualquer “deixado” de um passado longínquo e que hoje olhamos com relativo interesse e alguma admiração. Ou pelo menos alguns de nós já que para muitos, locais como o dos Cromeleques de Almendre são apenas sítios, sem merecer outra classificação, onde se matam tardes, servindo tão só como justificáveis cenários para desinteressantes “momentos Kodak”.

Depois de ouvir a criança e as perturbadoras justificações dos pais quanto àquilo que lhes estava diante dos olhos, confesso que tive de me afastar. Afastei-me dividido entre o rir compulsivamente e o chorar de desespero. 

Sou capaz de reconhecer, como já o afirmei antes, que o cenário não será o mais apelativo mas verdade seja dita … será tudo menos desinteressante. Afinal é só o maior local de culto do Neolítico da Península Ibéria e um dos maiores da Europa. Senão mesmo o maior. E isto apenas para não lhe dar a devida importância qualitativa porque para alguns ouvidos, que me perdoem a presunção e o aparente pedantismo, seria como pregar aos peixes. E eu não sou santo. Como o António. O de Pádua ou de Lisboa, conforme a perspectiva e a nacionalidade do interlocutor com quem se tem essa discussão. Mas isso são outros quinhentos, como diz o povo.

Para aqueles com sensibilidade o suficiente e um pouco mais do que o simples objectivo de encher cartões de memória nas suas digitais e caríssimas máquinas fotográfica, os Cromeleques de Almendre, tal como outros locais da mesma natureza, são locais de peregrinação. Locais de culto para o Homem do Neolítico. Locais onde se homenageia as entidades que “gerem” o Mundo. Entidades responsáveis pelo equilíbrio de tudo o que rodeia o Homem do Neolítico.

Este, em particular, é o maior conjunto de Menires estruturados da Península Ibérica e só o mais antigo da Europa. Datando entre o século V e os finais do século IV a.C. Mais antigo que Stonehenge, no País de Gales, Grã-Bretanha, o expoente máximo deste tipo de estrutura.

Daquilo que é conhecido, através das escavações arqueológicas feitas desde a sua descoberta em 1964 por Henrique Leonor Pina, durante a realização de um levantamento topográfico para a Carta Geográfica de Portugal, a construção do conjunto de Almendre divide-se em vários momentos que percorrem todo o período Neolítico.

A sua disposição está alinhada com os dois equinócios, o da Primavera e o do Outono. Fenómeno que este ano de 2011 pode ser visto primeiro, o Equinócio da Primavera, a 20 de Março. E o Equinócio de Outono, a 23 de Setembro. São os dois únicos dias do ano em que as noites e os dias são exactamente iguais. Ambos com 12 horas.

Diferença entre Solstício e Equinócio, enquanto que o primeiro marca o dia mais longo do ano ( em 2011, o solstício de Verão acontece a 21 de Junho ) e o dia mais curto do ano ( em 2011, o solstício de Inverno acontece a 22 de Dezembro ), já o segundo, o Equinócio marca os momentos, em que pela posição da Terra em relação ao Sol, os dias e as noites detêm exactamente a mesma duração. E estes são os momentos em função dos quais o conjunto de Menires de Almendre foi construído. 

A minha condição de comum mortal não me permite, por incapacidade e deficiência própria, assumo-o, tentar explicar isto à família que se dirigiu até ao “monte de pedras velhas” para tirar umas fotos. Quanto à criança, por razões lógicas, tal explicação não seria dada em tempo útil de acordo com o seu tempo médio de concentração. Já quanto aos pais … bem quanto aos pais o mais certo seria acontecer o mesmo e pelas mesmas razões. Correndo ainda o risco de ser visto e entendido como presunçoso e pedante. Enfim … valha-nos as fotos que tiraram junto das “velhas pedras”. Para mim, pessoalmente, por contar ficou a parte mais interessante da história. As razões pelas quais centenas de homens, há milhares de anos atrás, se preocuparam em levar estas enormidades com inúmeras toneladas para aquele sítio específico.

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Comentário de Superstitio Lda em 1 Março 2012 às 21:05

Dia 17 de Março - Templos do Equinócio (visita guiada)

Neste passeio visitaremos três cromeleques que se encontram muito próximos, Almendres, Portela de Mogos e Vale de Maria do Meio. Ao final do dia, quando começar a escurecer poderemos ainda ver as gravuras presentes nos menires de Almendres utilizando a técnica da luz tangente. Será feita uma apresentação sobre a história e possível utilização do cromeleque de Almendres.

O roteiro é o seguinte:

Cromeleque de Vale Maria do Meio – Simbologia dos Cromeleques, Ritos pré-históricos do Equinócio, Significado Primordial da Páscoa

Cromeleque de Portela de Mogos – Pré-História em Portugal, Povos pré-históricos de Évora, teorias de migração de povos.

Menir de Almendres – Significado dos Menires, Simbologia Onírica, Marcos Astronómicos

Cromeleque de Almendres – Simbologia religiosa de Almendres, Interpretação de alguns dos menires, demonstração dos símbolos ocultos pelo tempo.

Esta visita inclui documentação de apoio e é organizada pela Superstitio em conjunto com o curso Ciência das Religiões da Universidade Lusófona.

Para esta visita é necessário transporte próprio e alimentação porque vamos visitar locais ermos sem habitações.
Devem trazer roupa e calçado confortável mas não vamos andar muito a pé, os 4 locais a visitar são muito perto uns dos outros.

O preço da visita guiada é 10€, devem de enviar inscrição previamente por razões logísticas.

Quem quiser permanecer até ao anoitecer poderá visualizar algumas das inscrições que se encontram em alguns menires de Almendres, estas inscrições só são visíveis no período nocturno, por volta das 21H terminamos a visita.

Qualquer dúvida estamos ao dispor.
info@superstitio.pt
936494123 (pode ser por sms)
http://www.facebook.com/superstitio

www.superstitio.pt


I - Introdução


Este local encontra-se classificado, existem já alguns artigos e teses sobre este local megalítico assim como numerosos artigos copiados em cadeia incessantemente não apenas na net mas também em livros, alguns transmitindo teorias e não factos palpáveis, que ao se encontrarem repetidos em várias obras induzem o leitor a conceitos errados sobre o local.

Quando se referem cromeleques recorre-se quase sempre a Stonehenge para exemplificar, mas não se deve de comparar ambos os locais; a primeira fase de construção de Almendres enquadra-se no Neolítico no VI milénio a.C. e a ultima fase de construção deu-se no IV milénio a.C., estamos perante um talhe de pedra complexo mas sem grandes alterações da estrutura original enquanto Stonehenge é muito posterior com a primeira fase de construção a pertencer ao III milénio a.C. e a ultima fase a meio do séc. II a.C., Stonehenge pertence assim já à idade do Bronze com enormes pedras talhadas, com esta grande diferença temporal não se pode comparar ambas as realidades sociais com ferramentas e mentalidades muito distintas.

Num dos maiores aglomerados de monumento megalíticos em Portugal, existindo outros no Oeste de França e na Irlanda (de notar que os maiores aglomerados estão junto ao mar o que sugere a migração de um povo vindo do Atlântico para a Europa), encontra-se Almendres no topo da Serra de Monfurado em Évora sendo o

Comentário de Miguel Sur em 8 Março 2011 às 20:00
Após ter lido este seu artigo no MyGuide não resisti a partilhar a minha experiência em Itália: Do Vaticano à pré-história da Sardenha
Comentário de Marina Soares em 18 Fevereiro 2011 às 12:30

Eu sou suspeita, gosto muito de pedras velhas. Amontoadas em forma de castelo, de villa romana, ou de cromeleque, esculpidas em forma de capitel, de berrão ou de menir. Gosto de lhes tocar e pensar em todas as mãos que fizeram o mesmo. Repito o que já disse aqui e, dentro da temática, aproveito para recomendar este livro que me ofereceram entretanto:

Não é nenhuma maravilha da literatura, irritou-me algumas vezes, revoltou-me outras, mas acabou por se revelar uma hipótese válida para o significado dos cromeleques. E sempre alimenta a curiosidade dos amantes das pedras velhas.

Comentário de Fernando Emmes em 11 Fevereiro 2011 às 18:12



Antes de mais o meu muito obrigado à Filipa Studer, à Violeta Maio e claro a vocês todos do My Guide.

Façamos votos que sim, que se tornem membros e rapidamente.

Sei que por vezes não sou uma pessoa fácil mas já não consigo esconder os arrepios que sinto em situações similares. Como aquele casal que no Museu Rainha Sofia, em Madrid, olhando para o Guernika de Picasso afirmava que qualquer criança consegui fazer “aquilo”.

Não é apenas a classificação do quadro como “aquilo” mas principalmente o mais completo desinteresse acerca do que a obra representa. A ausência de sentido critica. Inquiridor. O perguntar, como as crianças, porquê? Por que razão será que tanta gente acha que o Guernika é uma das mais importantes obras de arte do século XX. O não perguntar porquê,

Comentário de MyGuide em 11 Fevereiro 2011 às 15:23
Fernando, ficamos a torcer para que a família de que fala se torne membro do MyGuide e possa assim dar umas luzes à criança!
Comentário de Violeta Maio em 11 Fevereiro 2011 às 15:03

Adorei o artigo Fernando!

Obrigada pela partilha. É sem dúvida um "Ex Libris" imperdível do nosso património.

Comentário de Filipa Studer em 10 Fevereiro 2011 às 17:03

Este é um daqueles sítios que ando para visitar há vários anos... em tantos fins-de-semana passados ai tão perto ainda não consegui arranjar um tempinho para uma visita e uma exploração aprofundada aos cromeleques como eles o merecem :)

Fiquei cheia de vontade de partir em peregrinação para homenagear o local ... deste ano não passa!

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