PASSEIOS (cá dentro): Tertúlias Sagradas: descubra um roteiro diferente pelo Chiado!

Conhecer as Igrejas do Chiado é percorrer  itinerários  de Fé, História , Cultura e Arte, onde a tradição e a modernidade convivem em abraços apertados. É desbravar caminho para lá do bulício cosmopolita que ilustra o cartão-postal. 

O Chiado transpira vida boémia. Mas não só. Visitar a“capital” de Lisboa , este centro nevrálgico, é também esquecer o profano e  conhecer as tertúlias sagradas, as Igrejas do Chiado.Erguem-se imponentes nestas artérias onde o sangue corre rápido e sem nunca parar. Senhoras orgulhosas do seu bairro, guardam a tradição, os valores, as conversas silenciosas com Deus e servem de abrigo a todos: novos ou velhos, pobres ou ricos,  estudantes, vendedores ou professores, que as queiram visitar. Fazem parte da História e constroem-na todos os dias com a sabedoria, a experiência, de quem sabe que veio para ficar.  Mais do que religião,  O Chiado fala-nos com alma, com a espiritualidade  que vive dentro e fora destas paredes, que nos surpreende nas abóbadas, que construiu pilares, que se esconde nos púlpitos, nas gentes, nos olhares.

 

D. Eva da Encarnação

Com vontade peregrina entro na Igreja da Nossa Senhora da Encarnação, em pleno coração do mítico e requintado Largo do Chiado. Juntamente com a Igreja do Loreto, que se encontra no lado oposto, a Igreja da Encarnação fazia parte das nobres casas da cidade,  com as missas mais ilustres da capital. Disputam, ainda hoje, o 1º lugar no exercício da fé de lisboetas, emigrantes e turistas .  

Após a destruição provocada pelo terramoto de 1755  ressurge, já no final do século XIX pela mão do arquitecto Manuel Caetano de Sousa, mantendo os tons rosado e pastel, a decoração e formas suaves que acentuam a luz ténue de Novembro. Silêncio. Uma dezena de pessoas dispersa pelos bancos de madeira reza, ou simplesmente foge do dia lá fora.

D.Eva parece uma governanta à moda antiga que gere com austeridade a Igreja da Encarnação. Carrega um molho de chaves qual S. Pedro e limpa a igreja faz mais de duas décadas. Pele morena, brincos de filigrana, saia comprida e casaco de malha, serpenteia por todos os recantos , mantendo olhos controladores sobre quem entra e quem sai. Aproximo-me. Apesar de alguma reserva inicial,  Eva quer conversar e fala de si e da sua Igreja. Parece que está sempre de saída, em pé, encostada a um dos bancos da igreja segurando o pano do pó. É de Viseu mas veio para Lisboa aos 24 anos e aqui está há quase 50 anos, na Rua das Gáveas, coração do Bairro Alto. Queixa-se do barulho, do cheiro, da algazarra que assiste todas as noites da sua janela transformando-se na sua insónia diária. Conta-me da grande responsabilidade que é abrir todas as manhãs a Igreja e estar só enquanto aguarda a chegada do Sr. Manuel , o sacristão. E fala, transtornada, do dia em roubaram a cruz de prata do Santo António. Por momentos, interrompe-nos uma senhora que quer informações sobre o confessionário  a quem Eva responde prontamente “ “Vá ao Loreto, abre às 16h.”Continua,  sussurrando “sabe, menina, já percebi que existem 2 coisas que os padres não gostam de fazer: funerais e confissões! O Sr. Prior há tempos resmungava à saída do confessionário ” Estou farto de ouvir disparates!”. Demos boas gargalhadas, esquecendo os fieis em oração. Eva fala sem parar e o seu sorriso tímido parece agradecer a minha companhia. Pergunto-lhe sobre os turistas que circulam pelo Chiado. “ Esses?…esses vêm sempre pela manhã e depois do almoço…parece que têm hora marcada para fazer a digestão aqui na Igreja. Saem sempre às mesmas horas do Bairro Alto Hotel e do Borges  direitinhos para aqui.” Quanto mais gente, mais trabalho  para Eva. Agora é voluntária e o voluntariado tem limites: “Já viu este chão? Tem dias que o lavo duas e três vezes”, salientando a tarefa dantesca. De repente, Eva muda de expressão, suspende e nossa tertúlia e diz num tom solene “ Chegou o Sr. Prior”. Percebo que o nosso tempo acabou ali. Agradeço, dou mais uma volta, aproveitando para ver a exposição sobre o Sudário ( que tem atraído muitos curiosos à Encarnação) e saio em busca do cheiro da cidade.

 

Olhar de Camões

O quiosque da Praça Luis de Camões é um verdadeiro palco para ver desfilar os protagonistas do Chiado e descansar os olhos nas cores que pintam esta cidade, também ela cada vez mais  multicultural.

A estátua do nosso poeta está no centro da Praça mas são os pombos que se sentem donos dela. Muitas histórias  estes degraus têm para contar: confissões de adolescentes, risadas de boémios, lágrimas de indigentes. Ponto de encontro das tribos da urbe, eclético, democrático, tolerante. Vemos o turista com a sua máquina fotográfica, o casal gay num abraço carinhoso, o executivo que desce para o parque com pressa para a próxima reunião, as mulheres que se atropelam na Almeida Garrett  à procura das novidades da estação. Ao fundo, os Armazéns do Chiado. Quem diria que este centro comercial ( que já guarda poucos traços originais de carácter),  também foi berço de conversas sacras  num antigo Convento, uma irmandade de mercadores ricos de origem judaica?

 

“Ao Largo” na Igreja do Loreto

São 16h  e abrem-se as portas da Igreja do Loreto. Ainda tenho tempo para comprar um cartuxo de castanhas assadas e deliciar-me com este prazer tão nosso, tão  lisboeta sob o sol que insiste em mostrar-nos o verão de São Martinho.

 Finalmente deixo para trás o som do passo lento dos eléctricos, imagem de marca da nossa cidade, e subo a escadaria para o Loreto, também chamada a Igreja dos Italianos, em homenagem aos seus fundadores, comerciantes de Génova e Veneza. É impossível não ficarmos esmagados pela imponência das 12 capelas laterais revestidas de mármore e ornamentadas com as estátuas dos apóstolos. Junto à sacristia, vejo em cima da mesa,  alguns  exemplares da última edição do “Ao Largo”, o Boletim mensal das Paróquias da Baixa Chiado. Desde a divulgação de actividades regulares ou acontecimentos especiais passando pelas  obras de restauro, contribuições ou voluntariado, tudo passa “Ao Largo” ,bem próximo da comunidade. O diálogo é permanente. Vejo referências várias à Igreja e Museu de S. Roque e à intensa programação cultural. São inúmeros os espectáculos de música e dança agendados e decido a minha próxima visita.

Oásis de S.Roque

Subo a Rua da Misericórdia e apetece parar a cada instante, cada porta é uma história. As galerias, os antiquários, as livrarias antigas…o Teatro Trindade. À esquerda as várias travessas estreitas e pouco iluminadas parecem ganhar fôlego para mais uma noite louca no Bairro Alto. Continuo a subida até ao Largo Trindade Coelho quando avisto uma freira, uma mulher de meia-idade, pequena e franzina, que se dirige a mim como quem vai pedir alguma orientação. Penso para os meus botões: “Fantástico, agora sei onde são todas as igrejas, e vou poder ajudá-la!”. Aborda-me, com voz baixa, mas firme. “Pode dizer-me onde é a Bershka?”. Por momentos, fiquei estupefacta, olhei para o mapa com as igrejas assinaladas…sorri. “Sim, desce até ao Camões e corta à esquerda para a Garrett. A Bershka está no lado esquerdo da rua, de quem olha para os Armazéns”. O sagrado no Chiado é assim: terreno, palpável, cheio de vida dentro.  

Entro finalmente na Igreja de S. Roque cuja fachada é simples e austera  não deixando antever o luxo do seu interior . Foi um dos raros sobreviventes ao Terramoto e ostenta  com garbo inúmeras riquezas: desde a talha dourada aos mármores sem esquecer os azulejos, as pinturas e esculturas à boa maneira barroca. O ex-líbris é a Capela de São João Baptista mas cada recanto é digno de observação demorada. O tecto , exemplar raro que resta dos grande tectos pintados do período maneirista  deixa-me boquiaberta por alguns minutos. Com entrada contígua, o Museu de S. Roque guarda em exposição múltiplas relíquias e é um importante roteiro na compreensão dos percursos da arte sacra. No final desta visita descobri um oásis escondido, um refúgio que mais parece um jardim do Éden. A cafetaria S. Roque é o lugar ideal para deixar voar pensamentos, um pátio interior intimista  onde árvores de bambu contornam uma pequena fonte que homenageia o mítico padre António Vieira. Saboreio com prazer os scones com compota enquanto deixo arrefecer o chá que  é servido num bule..que podia ser uma peça do museu.

Do Carmo ao Sacramento

Saio já no lusco-fusco.Como é lindo o Chiado com apenas uma réstia de dia a pedir a noite.  As luzes dos lampiões acendem, iluminando a calçada irregular. Sou atraída ao Carmo pelo som envolvente das vozes cabo-verdianas que, junto ao chafariz do Largo, embalam os turistas nas esplanadas. É o Novembro de Lisboa, acolhedor, descontraído. As mornas que orientam os seus movimentos suaves fazem esquecer o palco de outrora, de grandes revoluções.

As ruínas do Convento do Carmo erguem-se sobranceiras ao Rossio e vigiam os telhados do casario da baixa. As badaladas do quartel fazem-se ouvir. Atravesso as ruínas até ao elevador de Santa Justa porque esta vista é um presente. As ogivas góticas do Convento rivalizam com o Castelo de S. Jorge iluminado na colina em frente. Os turistas disparam flashes em todas as direcções. Encho a alma de orgulho e rumo à Calçada do Sacramento. A Igreja do Santíssimo Sacramento está fechada mas prometo voltar repousando o olhar sobre a sua fachada. Os 3 janelões  adivinham luz e um convite ao recolhimento e adoração.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Mártires no coração

“O dever de um cidadão é subir e descer duas e três vezes o Chiado”, já dizia Eça de Queiroz. Com esta ordem em mente regresso pela Almeida Garret e escolho o meu último refúgio, a Basílica dos Mártires onde está a decorrer a missa das 18h. A igreja está cheia. Casais, famílias inteiras, mulheres e homens que escolhem não estar sós. Com uma História milenar, íntima  do nascimento da pátria, com a conquista de Lisboa aos mouros, a Basílica dos Mártires está no coração do Chiado e leva o Chiado no coração, honrando os que morreram em seu nome.

Quando atravesso portas, desperto de novo para a confusão das ruas, para o frenesim de pessoas, de carros, de luzes. As Igrejas do Chiado são parte desta tertúlia urbana, partilham o dia e noite com a vida profana, de corpo e alma. 

 

 

 

 

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Comentário de Rita Silvério em 16 Junho 2011 às 22:05
aqui tao ao pé :) so tu para nos mostrares isto :)
Comentário de Carlos Gilberto Menezes Cabral em 31 Maio 2011 às 20:59
Da próxima vez que for a Lisboa vou fazer esse passeio! :-)
Comentário de Sonia Cabral em 19 Maio 2011 às 14:37
Excelente texto! Fiquei com vontade de ir passear ao Chiado hoje ao final da tarde!
Comentário de Marina Soares em 13 Abril 2011 às 10:52

Não fazia ideia que S. Roque tinha uma cafetaria! Que bom aspecto...

Um bom artigo (como sempre), Milene! :)

Comentário de isabella torres em 12 Abril 2011 às 22:28
conheci tanto a parte arquitetonica qto a historica de todas as igrejas apresentadas aqui....recomendo !sao belas demais
Comentário de Erica Duarte em 10 Fevereiro 2011 às 12:27
Também gostei muito Milene ;)
Comentário de Milene Cabral em 10 Fevereiro 2011 às 12:12
Obrigada:) Foi uma "reportagem" muito interessante de fazer e a D. Eva uma personagem, sem dúvida, muito interessante. Acredito que, tanto nos passeios cá dentro como nas viagens lá fora, as pessoas com que nos cruzamos dão um sabor especial à experiência que temos tornando-a única e especial!
Comentário de MyGuide em 10 Fevereiro 2011 às 11:58
Gostámos muito, em especial do episódio com a D. Eva.

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