VIAGENS (lá fora): Seattle: chuva, café e rock'n'roll

Seattle, a terra da chuva, do Bill Gates, dos Nirvana, do Jimi Hendrix, do Bruce Lee, do "Grey's Anatomy", do "Frasier" e do Starbucks. (E da saga Twilight, ali tão perto, na pequena cidade de Forks.)
Não voei directamente para lá, porque o meu passeio a Seattle foi um mero desvio do meu destino principal que era o Canadá.
Quando soube que Seattle era já ali ao lado de Vancouver (3h de autocarro ou comboio), não resisti à ideia de lá dar um pulo. De Vancouver segui com o Amtrak Cascades (um comboio icónico) para Seattle, onde iria ficar durante 3 dias. A viagem foi extremamente agradável. A paisagem é soberba, com a linha de comboio a correr ao longo da costa do Pacífico e das Cascades [cadeia montanhosa que se estende do Canadá à Califórnia e que inclui o famoso vulcão Saint Helens a sul de Seattle]. O comboio, que é publicitado como sendo "european-style" consegue ser melhor que os nossos intercidades. Todos os lugares têm tomadas eléctricas para as electronicidades a que vivemos agarrados e há wi-fi gratuito no comboio. Experimentei partilhar a minha viagem em directo no Facebook e receber o feedback imediato do amigos, o que foi divertido, mas seria um desperdício se o fizesse a viagem toda. Após ter experimentado a gracinha, desliguei o computador e desfrutei da paisagem.
A minha viagem a terras do tio Sam estava a deixar-me um pouco nervosa. Era a minha primeira vez nos EUA, tinha-me informado bem sobre a necessidade ou não de visto e tinha comigo uma declaração que supostamente me deixaria entrar sem grandes dificuldades, mas ouvira tantas estórias de turistas impedidos de entrar nos EUA, que deixei alguma paranóia instalar-se.
Após uma hora de viagem, anunciaram pelos altifalantes de que estávamos a 15 minutos da fronteira e que se precisássemos de ir à casa de banho ou ao bar, seria melhor despacharmo-nos, porque uma vez que os agentes da alfândega entrassem no comboio, era melhor não nos levantarmos ou fazermos qualquer movimento brusco. Diziam eles que os agentes não gostavam muito disso. O tom do aviso não me inspirou muita serenidade. Quanto mais nos aproximávamos da hora, mais me parecia que teria mesmo de ir à casa de banho, devido ao nervoso miudinho. Até àquele momento, todos os americanos no comboio e especialmente o staff da Amtrak, tinham demonstrado ser nada menos que pessoas adoráveis e super afáveis, mas o meu pobre imaginário carregado de séries e filmes de Hollywood e clips sensacionalistas do Youtube, fez-me imaginar agentes musculados de óculos escuros, arma automática na mão, tasers prontos a disparar e cães de dentes arreganhados. Em vez disso, surgiram um rapaz e uma rapariga de ar doce, que inspecionaram o meu passaporte, sorriram-me e desejaram-me boa estadia. Haaaah... Só isso? Parece que afinal a paranóica ali era só eu.
Cerca de duas horas e meia mais tarde chegava a Seattle. O sol brilhava, o que é uma sorte para aquelas bandas e a cidade estava particularmente animada e colorida. Correspondia mais à ideia que faço da Califórnia (onde nunca estive) do que o que esperaria de Seattle.
Seattle não tem um verdadeiro metro, apenas um tram que circula num pequeno percurso subterrâneo, mas tem um sistema excelente de autocarros grátis, entre as 7h e as 19h, que percorre todo o centro da cidade e pelo menos uma linha que é grátis em qualquer dia e hora. Apesar disso, decidi começar a minha abordagem a Seattle caminhando até ao hostel onde ficaria instalada.

O meu hostel ficava no cruzamento entre a Pike Street e a 1st Ave, numa zona altamente turística, frente ao Pike Place Market, talvez a zona mais frenética da cidade. Pike Place é uma espécie de coração pulsante. Vagueei por ali repetidas vezes, porque a oferta de coisas interessantes e exóticas era grande e merecia atenção. Gostei particularmente duma loja de livros usados na cave do Pike Place Market. O dono da loja recebeu-me com um "Where have you been all my life!???". Primeiro julguei que estaria no gozo, depois acreditei que era sincero quando começou a ler-me poesia, até que por fim percebi que aquela era mais ou menos a maneira como ele recebia todas as miúdas que lá entravam. Tinha uma colecção de livros fabulosos e fiquei especialmente impressionada com a colecção gigantesca de sci-fi que enchia uns 2 corredores do chão ao tecto. Tinha acabado de chegar a Seattle e já começava a questionar-me sobre como iria levar para casa a montanha de livros que eu iria sem dúvida comprar.
Nesse dia almocei nesse mercado, num pequeno restaurante chinês de ar modesto, onde comi o melhor prato de tofu com algas e cogumelos da minha vida, carregado de pimenta preta, que me deixou a chorar baba e ranho durante meia hora. Para um cafézinho, procurei pelo famoso primeiro Starbucks do mundo, que supostamente ficaria ali em Pike Place, mas não o encontrei. Não estava indicado no mapa turístico que eu trazia e ninguém me dizia com rigor exactamente onde era - em cada esquina há um Starbucks, como distinguir qual deles é o mais histórico? Às tantas desisti, afinal não sou assim tão fã de café que não possa viver sem ter ido à sua meca. Claro que agora me arrependo de não ter continuado à procura. É como ir a Roma e não ver o Papa! Seattle orgulha-se da sua febre por cafeína e tem um enorme negócio de merchandising em torno dessa amada droga. Os beberrões cafeínicos inveterados carregam consigo copos de cerâmica e tampa de silicone que aviam continuamente ao longo do dia no café da esquina mais próximo. O sangue deles deve ser castanho.

No primeiro fim de tarde em Seattle acabei por ir para o hostel dormir com o sol ainda alto. Estava exausta e ainda a sofrer dos efeitos do jet lag, pelo que dormi umas 12 horas.
No dia seguinte o sol deixou de aparecer e a chuva caía intermitentemente, pelo que optei por ir fazer compras em vez de sightseeing. Tinha visto uma reportagem na net sobre Capitol Hill e a sua cultura alternativa, lojas vintage e gente gira e estava convencida de que iria lá encontrar algo com que me ocupar até o sol reaparecer. Passei por uma série de locais que tinha visto anteriormente em filme e sorri para mim mesma.
Tropecei numa famosa estátua de Jimi Hendrix e enquanto lhe tirava fotos, um universitário a caminho do "Community College" mesmo em frente, meteu-se comigo "Queres que te tire uma foto ao lado da estátua?". Primeiro disse-lhe que não, mas ele insistiu, garantiu que toda a gente quer, apesar de se fazerem rogados e eu acabei por aceitar a oferta embora não estivesse de facto a pensar no assunto. Ele perguntou-me de onde eu era e quando respondi Portugal ele fez uma cara que eu veria em muitas outras pessoas nos dias seguintes: cara de "Ohhhh, estou a ver! [Onde raio fica isso???]". Perguntou-me se eu sabia quem era o tipo da estátua, provavelmente na esperança que eu dissesse que não e ele pudesse dar-me uma liçãozinha e sair dali a sentir-se esperto. Respondi-lhe que era o Jimi Hendrix, com cara de "não é óbvio?" e ele pareceu perder todo o interesse em continuar a conversa.
Ao longo dos dias seguintes iria ouvir comentários deliciosos como "Ah, és de Portugal? E vens nalguma excursão da América do Sul?" ou "Gosto sempre de saber como é que as pessoas que vivem em países obscuros como o teu têm acesso à informação." ou "Oh, peço desculpa, já deveria saber falar espanhol melhor, mas ainda estou a aprender!". Uma australiana confessou-me que mais grave era terem-lhe perguntado se ela tinha vindo da Austrália de comboio.... Os americanos são uns doces, mas o cliché da sua burrice em termos de geografia e história do mundo, é bastante sólido, apesar das honrosas excepções à regra.
De tarde fui convencida a fazer o tour guiado aos subterrâneos da cidade e como o sol teimava em não aparecer, túneis bolorentos e canos ferrugentos, parecia-me tão bom ou melhor do que estar à superfície à chuva. Confesso que tenho um fascínio especial por andar debaixo do chão, tal como tenho por subir aos pontos mais altos das cidades, mas achei que valeu a pena a visita, mais não fosse pelas fascinantes histórias que o guia contou sobre Seattle: a corrida dos colonos aos novos territórios, rivalidades na aquisição de terras, trapaças e negociatas sujas e menos sujas, puritanos versus libertinos, madeireiros e prospectores de ouro, o grande incêndio de Seattle, a origem do termo "skid row" e a rocambolesca reconstrução da cidade que deu origem aos subterrâneos (está tudo na Wikipédia). Foi quase como regressar no tempo ao Wild Wild West.

Depois disso e no dia seguinte, caminhei pelas ruas sem rumo, entrei em cada loja mais exótica ou alternativa que encontrei, encontrei um lindo jardim comunitário em Chinatown onde as pessoas criaram um compostor a partir de paletes de madeira, na forma de um pagode chinês (só visto!), visitei a incrível biblioteca pública retorcida do mesmo arquitecto que a nossa Casa da Música, visitei o lindo Volunteer Park e as suas vistas sobre a baixa de Seattle, passei pelo Lake Union e subi ao Space Needle, a famosa torre panorâmica de Seattle.

Lá em cima, Frank Sinatra e Billie Holiday em música de fundo, famílias espreitando pelos telescópios, arranha-céus no horizonte... Começaram a surgir na minha mente inúmeras referências cinematográficas cruzadas, incluindo o "Sleepless in Seattle", um dos meus filmes favoritos, cujas cenas mais românticas curiosamente decorrem no Empire State Building, mas que começo a achar que fariam mais sentido se passadas no Space Needle.
Ali em baixo ficava o EMP (Experience Music Project), um museu com um nome apelativo mas que me disseram só valer a pena se eu fosse maluquinha por rock. Não sou, mas também havia um museu de sci-fi acoplado que me estava a atrair. No final, o preço da entrada e o cansaço que sentia acabaram por sair vencedores e não fui ver nenhum deles. No entanto só ver os edifícios por fora já é extremamente gratificante - metal dourado, azuis-celeste, curvas, escamas e tubagens, compõem uma arquitectura singular.

Um amigo mandou-me uma mensagem perguntando se eu iria visitar a campa do Kurt Cobain. Ao investigar onde isso ficava descobri que não existe uma campa, porque ele foi cremado e as suas cinzas espalhadas no Viretta Park. As pessoas fazem lá romaria para lhe prestar homenagem, mas eu sinceramente não fazia questão disso.
Mas ficaram tantas outras coisas por ver! Apenas abordei a superfície do que Seattle tem para oferecer e fiquei cheia de vontade de lá voltar.

Uma úlltima estória de Seattle: na cozinha do hostel, fui apanhada no meio de uma conversa entre uma rapariga japonesa e um rapaz americano, enquanto preparávamos cada um o seu jantar. Ela dizia que era estudante de artes e que estava ali a trabalhar num projecto qualquer para o seu mestrado e ele dizia que era advogado mas farto da vida que tinha estava ali para se tornar pescador e embarcar rumo ao Alasca. Rimo-nos com agrado da estória dele e a japonesa disse "Ah, então estás só de passagem, és um viajante." Ele respondeu "Claro, mas também tu e provavelmente todos os que aqui estão. Somos todos viajantes. Se não o fôssemos, porque raio estaríamos em Seattle?"

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Comentário de Irina Maia em 4 Outubro 2011 às 17:21
Vou com certeza escrever mais :) No meu curriculum já constam dezenas de viagens e tenho um diário detalhado sobre todas elas. Aguardem pelos próximos episódios! Obrigada pelo vosso incentivo. É bom saber que o que escrevemos não cai em saco roto :)
Comentário de Ricardo Candeias em 4 Outubro 2011 às 16:44

Gostei muito do artigo, e espero sinceramente que a Irina continue a escrever-nos pois tem imenso jeito para tal.

Em relaçao a cidade em si, devo dizer que fiquei com bastante vontade de a visitar, alem de que sempre ouvi falar de Seattle como uma das maiores e mais importantes cidades dos Estados Unidos, afinal esta situada no Estado de Washington, o mais poderoso dos Estados Unidos, e, porque nao do Mundo? E la que se situa a reserva federal, a casa branca...

Fiquei um pouco desagradado com a habitual ignorancia (a nivel historico-geografico) demonstrada pelos americanos em relaçao ao nosso Pais, esperava que com a aceleraçao da globalizaçao(muito devido ao avanço das tecnologias, redes sociais) situaçoes desse tipo nao acontecessem com tanta frequencia.

 

 

Comentário de Pedro Castanheira em 2 Outubro 2011 às 16:50
Não sei porquê, mas revejo-me nas palavras da Irina e a única coisa que tímhamos em comum era não conhecermos os E.U.Os temores de que alguma coisa não estivesse em ordem, ou qualquer confusão dái resultante, derivado da pesada herança de aculturação americana que nos invade diáriamente. Quanto ao resto penso que é gantástico e gostava também de um dia fazer essa viagem. Quem sabe se não será amnh~?
Comentário de Ana Rita Machado em 30 Setembro 2011 às 11:49

Parabéns Irina pelos artigos, adorei ler tudo ao pormenor.

 

Comentário de Irina Maia em 30 Setembro 2011 às 11:16
:) por blogs obscuros que ninguém lê!
Comentário de MyGuide em 30 Setembro 2011 às 10:42
Irina, "where have you been all our (short) life"? ;)

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