CULTURA: Ser ou não? Uma questão de hologramas

Há uma revolução em curso na indústria do entretenimento que a Europa conservadora e arcaica ainda não foi capaz de compreender. Quando Dr. Dre e Snoop Dogg ressuscitaram Tupac em Coachella através de um holograma, não se limitaram a oferecer o momento mais alto da edição deste ano do festival; deliberadamente, ambos abriram um precedente na história da música popular que recupera a mãe de todas as questões filosóficas: ser ou não?

O recurso a hologramas não é exactamente novo. A empresa responsável pela representação de Tupac Shakur, morto em 1996 durante o tiroteio gangsta rap que marcou a segunda metade da década, já havia desenvolvido a encarnação de palco dos Gorillaz, no tempo em que estes ainda actuavam atrás do palco. E em 2007, Celine Dion contracenava em palco com Elvis Presley no programa American Idol. Mas nunca ninguém tinha resolvido o problema desta forma.

Os efeitos foram imediatos: Warren G desafiou Diddy (ex-Puff Daddy) a investir no holograma do arqui-rival de Tupac, Notorious B.I.G., também ele uma vítima da luta de gangues. A família de Michael Jackson colocou a hipótese de reabilitar o Rei da Pop na digressão vindoura dos Jackson 5. E até os Queen, pela voz de Brian May, se manifestaram favoráveis à hipótese de um holograma Freddie Mercury. Os primeiros a avançar foram, porém, os representantes de Elvis Presley que assinaram um acordo para que o Rei do Rock volte ao trono supremo: o palco.

Talvez seja este o futuro da indústria do entretenimento. De massas. Com a dispersão provocada pela Internet e a consequente fragmentação, perderam-se referências com dimensão global e transversal. Artistas como Madonna ou os U2 são sobreviventes de uma era que eclodiu no tempo do digital. E hoje, alguns dos maiores nomes dos anos zero como Beyoncé, Coldplay ou Lady Gaga têm mais dificuldade em tocar diferentes camadas sociais e musicais.

Não se trata de pura nostalgia já que há uma rectaguarda tecnológica que legitima este futuro ancorado no passado. Colocam-se questões pertinentes como perceber se as vozes e os gestos serão importados de arquivo ou criados de raiz a partir do material disponível. Como sempre, há uma facção conservadora e defensora de um hipótetico purismo a verberar o fenómeno mas se extrapolarmos no universo da arte, quando observamos um Picasso ou um Rembrandt estamos a ver o original ou uma reprodução? 

Por todo o simbolismo, que não apenas o vazio de símbolos, o holograma de 2Pac é um dos mais importantes acontecimentos da música popular desde que a web 2.0 passou a ser o sistema operativo. E a história ainda agora (re)começou.

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Tags: cultura, espectáculos

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Comentário de Marina Soares em 12 Junho 2012 às 14:37

Já achava que a ideia tinha algum potencial quando os Gorilazz fizeram a primeira experiência com os bonecos.

Agora é aguardar pelo "meu" holograma: Jeff Buckley! :)

Comentário de Francisco Mendes Alvim em 12 Junho 2012 às 10:22

Muito bom Davide!

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