TENDÊNCIAS: Hortas urbanas, directamente da terra para a mesa

Cada vez mais, os conceitos como horta urbana e agricultura biológica entram na nossa casa sem estranheza. Isto porque é uma tendência que ganhou força nos últimos anos e já se mostra em projectos desenvolvidos um pouco por todo o país.


De norte a sul, existem espaços públicos onde se “alugam” talhões de terra, surgem alternativas para quem queira ter uma pequena horta na varanda ou no quintal, aposta-se na formação de adultos e na interacção com crianças para que conheçam a origem dos produtos que lhes chegam à mesa. Uma medida que veio, também, em sequência da crise económica que se vive, mas que pode ser um ponto a favor de todos nós.


Se quer iniciar-se nestas lides e saber por onde pode começar, arregace as mangas, pegue nas luvas e junte-se a nós nesta “exploração agrícola” (literalmente).

 

Terrenos dão frutos (e legumes) na cidade

Lisboa:

O Parque Botânico do Monteiro-Mor, que faz parte do Museu Nacional do Traje, promove a agricultura na cidade através da promoção do cultivo de talhões por particulares, aproveitando o espaço que tem. A ideia surgiu em 2008, depois dos funcionários do museu e do parque que tratavam o núcleo de hortas se terem reformado. Foi a solução que se arranjou para que o espaço não ficasse parado e a terra desaproveitada e, até agora, tem corrido muito bem.

São ainda promovidos vários workshops ou cursos para que os “proprietários” dos talhões do parque tenham a formação necessária para uma boa utilização dos mesmos. Por exemplo, no próximo dia 1 de Outubro existe uma sessão intitulada “A Recolha, Selecção, Limpeza e Conservação de Sementes” que fecha mais um ciclo de formação: “A Horta em modo de produção biológica”.

Museu Nacional do Traje
Largo Júlio de Castilho
Telefone: 217 567 620

Já a AVAL, Associação para a Valorização da Alta de Lisboa, escolhe um nicho mais pequeno para implementar o seu projecto de promoção da agricultura em espaço urbano. Com duas vertentes distintas tem, por um lado, as hortas comunitárias para residentes, a desenvolver no Parque Agrícola da Alta de Lisboa e, por outro, um programa de hortas portáteis para ter em casa, na varanda, quintal ou coberturas. Qualquer que seja a opção, deve assentar na formação dos residentes que se queiram integrar. Outra vertente, a salientar este aspecto da formação, são as hortas escolares, desenvolvidas nas escolas dos dois Agrupamentos de Escolas da Alta de Lisboa com o intuito de serem desenvolvidas entre os mais velhos, desempregados e/ou reformados, já com experiência na área e crianças e jovens em idade escolar, na idade certa para aprenderem e ganharem esta consciência.
Este projecto da AVAL tem o nome de “Altas Hortas” e é um dos sete escolhidos para integrar o Programa “Entre Gerações”, promovido e financiado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Mas não só para promover uma melhor alimentação, cuidado ambiental ou aumento de (in)formação e interacção com o meio agrícola servem estas hortas. Elas também podem contribuir para causas sociais.

Associação para a Valorização Ambiental da Alta de Lisboa
Rua Luís Piçarra

A Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa trabalha com a população sem-abrigo da capital com o objectivo de os reintegrar na sociedade e os encaminhar na criação de um plano de vida.
Em sequência disso reabilitou, com a ajuda da SIC Esperança, um terreno de 600 metros quadrados que já tinha funcionado como horta mas que se encontrava degradado. Com a renovação e reaproveitamento do espaço, espera-se que a construção das hortas ajude a diminuir as tensões sociais que se criam entre este meio e os encaminhe para um recomeço.

Associação dos Albergues Nocturnos de Lisboa
Rua da Cruz dos Poiais

Cascais:

O Programa “Hortas de Cascais” é uma iniciativa promovida pela Câmara Municipal de Cascais e a Agenda Cascais 21 e funciona com a vertente “hortas comunitárias” e “hortas em casa”. As primeiras são locais de convivência entre munícipes, abertos a todas as idades, e visam a promoção da prática da agricultura. Estão também integrados na filosofia ecológica e encontram-se em parques e espaços verdes, em terrenos da autarquia, trazendo um novo conceito de utilização dos espaços públicos.
As “hortas em casa” são destinadas aos munícipes que dispõem de jardim ou de um quintal privado, não precisando de recorrer aos terrenos municipais, mas que querem fazer parte integrante deste projecto. Neste caso, então, aposta-se ainda mais na formação dos participantes, para que estes possam aprender a trabalhar a terra, desde as técnicas básicas às mais especializadas, percebendo as mais-valias que a agricultura biológica traz, não só no âmbito da saúde e do equilíbrio ecológico, mas também no dia-a-dia, para uma alimentação mais segura e saudável.

Câmara Municipal de Cascais
Estrada de Manique
Telefone: 214 815 793

Porto (área metropolitana):

Tal como acontece noutras regiões, no Porto (e área metropolitana) o projecto, que se iniciou em 2003, surgiu da necessidade de promover as hortas (mesmo na cidade) e a agricultura biológica. Com o nome de “Horta à Porta”consiste na disponibilização de talhões, com o mínimo de 25 metros quadrados, onde os “agricultores” além de espaço para as suas plantações, têm também formação.
A iniciativa tem corrido bem e tem resultado no sentido de criar a consciência social da importância da promoção da agricultura, sobretudo na forma biológica, como uma boa prática de saúde, ambiental e social. É o caso da iniciativa “2 Hortas em 2 Dias!” que visa, como o nome indica, construir duas hortas em dois dias, no centro histórico da cidade do Porto.
A ideia é as pessoas voluntariarem-se para ajudar, tendo o apelo sido feito através de um evento criado no Facebook. Dia 29 de Setembro trabalha-se na construção da horta do Barredo Jardim da Lada/Barredo, e no dia 30 de Setembro, é a vez da horta São Bento da Vitória, na Rua de S. Miguel.

Guimarães:

A Horta Pedagógica e Social de Guimarães promove, mais do que a agricultura, o verdadeiro contacto com o ambiente e os produtos agrícolas que utilizamos na nossa alimentação. Para tal, tem várias actividades de educação ambiental, entre eles, um espaço dedicado à compostagem, isto é, um conjunto de técnicas que controlam a decomposição de materiais orgânicos.
Disponibiliza também muita informação sobre boas práticas agrícolas, melhores épocas de cultivo, como cultivar e fichas informativas sobre vários produtos, tudo disponível na página da horta pedagógica no site da Câmara Municipal de Guimarães.

Coimbra:

Aqui, o nome do projecto é Hortas Sociais de Ingote. São 25 talhões de 150 metros quadrados e o objectivo principal é combinar a reestruturação do espaço agrícola que existe no Bairro do Ingote com a adopção de um modo de agricultura sustentável, e apenas biológico, fazendo simultaneamente a integração social e o aumento da qualidade de vida dos habitantes. O projecto é uma parceria da Câmara Municipal de Coimbra e da Escola Superior Agrária de Coimbra (ESAC).
A cidade tem ainda as Hortas Sociais do Bispo, um projecto que resulta também de uma parceria da ESAC, mas, neste caso, com a freguesia de S. Martinho do Bispo. Estas hortas estão instaladas no campus da ESAC e proporcionaram talhões de 75 metros quadrados a algumas famílias do concelho. Mais uma vez, é a reabilitação de uma área degradada de forma útil para os utilizadores.

Escola Superior Agrária de Coimbra
Bencanta, Coimbra
Telefone: 239 802 940

Portimão:

A Quinta Pedagógica de Portimão recria o espaço de uma quinta rural, sendo rico em espaços exteriores que proporcionam o contacto directo com a natureza, com zonas distintas de cultivo, mas também zona de abrigo de animais, uma área de lago e zonas verdes e de lazer.
Promove ainda ateliers e workshops, entre outras actividades. A zona da horta tem legumes, ervas aromáticas e árvores de fruta como a laranjeira, a romanzeira e o marmeleiro.
Além disso, desenvolve o projecto Horta Social, que cede gratuitamente um espaço de sementeira a três instituições particulares de solidariedade social do concelho - Lar do Bom Samaritano, a CRACEP (Cooperativa Reeducação e Apoio à Criança Excepcional de Portimão) e o Centro Comunitário Cruz da Parteira -, para que estes possam cultivar os seus produtos hortofrutícolas.

Quinta Pedagógica de Portimão
Aldeia Nova da Boavista

Funchal:

E esta nova tendência não se fica pelo continente. O Funchal também já tem um projecto de horta urbana. As Hortas Urbanas Municipais tiveram início em 2005 e funcionam no Jardim Público da Ajuda. Actualmente, a área total de hortas municipais no Funchal supera os 20 800 metros quadrados, chegando a cerca de 302 famílias de munícipes. Com esta iniciativa, acabaram por surgir outras. Surgiram várias áreas, normalmente por cedências urbanísticas, que têm sido aproveitadas como hortas urbanas. 

Tendência ganha força noutras áreas

À ideia das hortas cultivadas na cidade, por vezes até em casa, juntou-se a nova ideologia de agricultura biológica, sem adubos ou químicos, e ganhou força sendo hoje uma oferta também noutras áreas, não se ficando apenas pelos projectos das hortas em terrenos reabilitados. 

E uma das maiores apostas é a formação na área, principalmente workshops organizados para todo o tipo de público. Além da oferta que existe, até como condição para ter um espaço nas várias hortas urbanas que já referimos, também outro tipo de associações e até empresas têm promovido a causa.
“Verde Movimento” é um dos exemplos que encontramos. É uma associação cuja principal preocupação é tornar o mundo mais consciente e, deste modo, mais limpo e sustentável. Para tal, promove workshops, por exemplo, de hortas urbanas e de como plantar ervas aromáticas. Os desafios são lançados sobretudo online, no site e também no Facebook.
Outro dos locais que promove o contacto directo com a natureza a partir do cultivo da terra, é o Convento do Espinheiro Hotel & Spa. De uma maneira inovadora, coloca nas actividades oferecidas aos hóspedes workshops que os envolvem no trabalho do campo, nos terrenos que pertencem ao hotel.
Por exemplo, para dia 8 de Outubro, está marcada uma actividade chamada “As nossas deliciosas compotas” que consiste na colheita de frutas e bagas silvestres e posterior confecção de compotas que depois farão parte dos pequenos-almoços e lanches aí servidos. Outra actividade, agendada para Novembro, é a apanha da azeitona. Os hóspedes são convidados a participar nesta tradição que envolve oliveiras com séculos de vida, que marcam a história do Convento do Espinheiro.

Convento do Espinheiro, Évora
Telefone: 266 788 200
Site 

Da teoria à prática

Luís Pape tem 54 anos e mudou-se recentemente para a zona do Cadaval, para uma casa onde tem um terreno que aproveitou para fazer uma horta.
Não estando muito longe da cidade acabou por ter uma vida mais rural que, segundo o próprio, lhe trouxe qualidade de vida pois diz não sentir o stress que sentia quando vivia em Lisboa. Continua a ter obrigações, responsabilidades que uma horta acarreta, mas com organização tudo se resolve. Por exemplo, a hora da rega pode ser logo de manhã ou ao final da tarde, mas tem de ser feita todos os dias.
Quanto às bases necessárias para ser um bom “agricultor”, Luís diz que já vem de trás: “A minha cultura de hortas, se assim quiser chamar, vem desde a minha infância. Eu sempre acompanhei durante as minhas férias e fins-de-semana a vida do campo, na casa dos meus avós. Tive sempre uma convivência com o campo e os seus homens, o hortelão, os ranchos da apanha do figo, da azeitona, a vindima. Claro que também gosto de ler, nomeadamente o “Borda d’água”, mas o mais importante é o que se aprende com a convivência com quem trabalha na terra”.
No geral faz um balanço positivo da sua mudança, confessando que, para além de ser útil no que se poupa no orçamento familiar, também dá prazer ver crescer algo que se planta.

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Comentário de Luis Marques Cotonete em 19 Outubro 2011 às 9:23
Há coisas que nos passam totalmente ao lado e esta é uma delas. Acho a iniciativa fantástica e acima de tudo produtiva e benéfica em todos os sentidos; Saudável, rentável, ocupacional, terapêutica e pedagógica. Parabéns à iniciativa.
Comentário de Priscilla Rios Roda Razuk em 1 Outubro 2011 às 15:39
Adorei! Aqui em casa nosso consumo é quase todo orgânico, do açúcar (que consumimos bem pouco) até frutas, legumes e verduras. E acabo de plantar minha primeira fruta em casa, o maracujá... vamos ver o que rende na minha primeira safra!
Comentário de Joana Sá Pinto em 28 Setembro 2011 às 18:50
Será desta que vou colocar galochas e pegar na enxada? Gosto da ideia. Vou aprofundar o tema!

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