CULTURA: Tunas do Marão: A Malta já não tem Paixão por Nada!

Pouca atenção tem sido dada ao fenómeno das tunas por parte dos estudos etnográficos-musicais em Portugal. Nas gravações e nos escritos de Armando Leça não encontramos referências a tunas, o mesmo se podendo dizer das obras de Artur Santos, de Vergílio Pereira, de Michel Giacometti e de Fernando Lopes Graça. É assim que José Alberto Sardinha, autor deste terceiro capítulo do projeto Sons da Tradição (sob coordenação de José Moças, «Tunas do Marão», resume, logo de entrada, os motivos que o levaram à sua construção. O resultado pode ser visto e apreciado, em mais um excelente editorial que, para além dos textos e imagens, se complementa com quatro CDs dando a descobrir muito do espólio de que se fala nas mais de 350 páginas em causa.
Após uma introdução esclarecida e esclarecedora, ficando-se, por exemplo, a saber que as tunas e seus repertórios são um garante do enriquecimento e mutabilidade da chamada música tradicional, ou que o fenómeno das tunas nasceu na segunda metade do século XX, o livro desenvolve-se abrindo caminhos sobre as Tunas e o seu repertório, apontamentos sobre as orquestras populares e as origens históricas das tunas.
Num quinto capítulo, entra-se na particularização do estudo sobre as Tunas do Marão, dando a conhecer a sua génese, funções, repertório e mestres, características comuns e até os seus instrumentos. Por fim, ensaia-se resumir a história das várias tunas com que os autores estabeleceram contacto desde que começaram as pesquisas, nos anos 80. Finalizando, os autores desenvolveram ainda um capítulo explicando as histórias por detrás das gravações áudio que se apresentam e também as razões pelas quais algumas delas não se encontrarão nas melhores condições de gravação.
Isso aconteceu, como dizem, por via de situações «limite», às vezes mediante contato com os últimos portadores dessas tradições. Como vincam, «estamos quase sempre a referir-nos a intérpretes populares na casa dos setenta, por vezes oitenta, até noventa anos.»
Ainda assim, surgem registos das Tunas de Carvalhais, Anisães, Gondar, Folhadela, Mosteirô, Gestaçô, Vinhós, Bisalhães, Pomarelhos, Águas Santas, Ermelo, Soutelo, Panadela do Monte, Viariz, Campeã, Gontães e S. Faustino de Fridão. Polcas, valsas, mazurcas, corridinhos, marchas, rumbas, são alguns dos estilos e géneros que se podem ouvir e seguir, já que, e bem, o livro também comtempla a publicação das letras das canções. Um curioso exemplo, da Tuna de Pomarelhos, Vila Real, chama-se «Tirana»: Eu bem vi estar a Tirana,/ a mijar numa cabeça./ Diacho da porcalhona,/ que até no mijar tem graça./ Eu bem vi estar a Tirana,/ a mijar num assobio./ Diacho da porcalhona,/ que até no mijar tem brio

A origem das Tunas

Segundo se escreve, a origem das tunas rurais deverá remontar à segunda metade do séc. XX, altura em que a Península Ibérica fermenta em movimentos. Procurando mais no tempo José Alberto Sardinha afirma, porém, que o fenómeno das tunas escolares e estudantis fundar-se-á mais antigo e remoto, também comum a toda a Europa, a goliardia. Goliardos eram os clérigos que, tendo abandonado a vida religiosa, se entregavam aos prazeres da vida mundana, da mesa, do vinho, da boémia, do amor. Eram, na sua maioria, possuidores de excecionais dotes poéticos e musicais que cultivavam pelos ambientes tabernários que frequentavam, cantando e tocando instrumentos musicais. E nesse plano, qualquer semelhança com tempos mais contemporâneos não será mera coincidência…
Em Portugal, foi grande e duradouro o entusiasmo por este tipo de agrupamentos. O gosto dobrou o século XIX e adentrou-se pelo XX, gerando entusiasmo não só nas cidades, como também nas mais remotas vilas e aldeias. «Até meados do século XX assistiu-se ao auge desse entusiasmo, com a formação de tunas por todos os cantos e recantos, às mais do que uma na mesma localidade. O intenso movimento de produção de pautas musicais, a frenética atividade das casas editoras, a grande venda dos folhetos com solfas, a vasta publicidade dessas edições nos jornais regionais, a própria atividade das tunas reportada nesses periódicos, são disso prova cabal.»
Um dos aspetos mais interessantes referidos é o do prazer imenso que os membros das tunas sentiam em delas fazer parte, falando-se mesmo numa «fúria» de tocar!
Para terminar, perguntar-se-á o leitor, e bem, como é ou se caracteriza o atual panorama das tunas rurais em Portugal. E a resposta não é nada animadora: «Nos dias de hoje a situação é completamente diferente. A partir dos anos 60, sobretudo dos 70, as tunas rurais do Marão começaram a declinar vertiginosamente». Nas cidades, as tunas foram desaparecendo e mesmo no campo, depois da emigração, primeiro para o Brasil e depois para a Europa, o quadro ainda ficou mais sombrio com o quase desaparecimento das tunas rurais.
É por isso que, a importância extrema de trabalhos e estudos como este, o profundo estudo etno-musical sobre as tunas rurais, em concreto aquelas do Marão, se revelam fundamentais para a História da cultura popular lusitana.
O.L.

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