PASSEIOS (cá dentro): Uma Viagem ao Faial, Açores

Existirão muito poucos locais em Portugal ou até mais longe que nos transmitam a sensação de arquipélago do que o Faial. Daqui, podemos ver São Jorge, a Ilha Castanha, e a Graciosa lá mais ao longe. E claro, o Pico, para onde quer que nos viremos. É a Montanha do Pico, uma das 7 Maravilhas de Portugal, que domina toda a paisagem de quem visita o Faial e as Ilhas do Canal.

Este braço de mar que serviu de cenário à obra maior de Vitorino Nemésio, Mau Tempo no Canal, parece ligar mais do que separar. Vemos as lanchas a cruzar os mares e apercebemo-nos de que ir para outra Ilha é aqui um acto quotidiano e algo normal na vivência dos faialenses. Parecendo a alguém de fora que o facto de viver numa Ilha poderia parecer limitador, acabamos por sentir alguma inveja dos faialenses, que podem com a maior das facilidades trocar de ilha como um lisboeta vai até à Arrábida.

A cidade da Horta, respira uma aura de “dignidade” antiga, ganha ao longo dos séculos. A história desta cidade conheceu sempre as suas alturas de maior apogeu devido aos visitantes estrangeiros. Primeiro com os povoadores da Flandres, liderados por Joss van Hurtere (que se diz ter dado nome à cidade), depois com a Família Dabney, mercadores de Boston que se instalaram na Horta para negociar e exportar o Verdelho do Pico, laranjas, óleo de baleia e para reabastecer os grandes barcos que cruzavam o Atlântico.

Mais tarde, a partir de 1893 e durante quase um século, com a chegada das companhias britânicas, norte-americanas e alemãs de cabos telegráficos submarinos, a Horta conhecia uma época de “renascimento” cultural, social e económico que viria a marcar a cidade e os seus habitantes até hoje. A Colónia Alemã é um dos vestígios dessa época, assim como o Café Restaurante Internacional Faial, um edifício de inspiração art déco que merece uma visita demorada ao seu interior.

A nossa casa por estes dias é o Hotel do Canal. Se a Horta é apelidada de “anfiteatro para o Mar, o Hotel do Canal é o camarote para os convidados especiais. Decorado com motivos náuticos, o nosso quarto tem vista para o Pico e todos os dias a diretora, Arlene Nazaré, sugere-nos um local diferente para conhecer na Horta, começando na Fábrica da Baleia de Porto PimHerman Melville escreveu que para os americanos, os melhores baleei..., sem ninguém saber exactamente porquê, mas que era assim. Aqui aprendemos mais sobre a arte da baleação e ficamos impressionados com a coragem exibida quase diariamente pelos Faialenses nesta luta com os cachalotes.

Essa superioridade a caçar baleias deu lugar à observação e nisso os açorianos continuam a ser extremamente proficientes. Mais tarde no dia, na Marina da Horta, fomos numa excursão com uma empresa local de Whale Watching e garantimos que vale a pena encarar estes mamíferos gigantes com a Montanha do Pico sempre à vista. Ao final do dia, e ainda por recomendação da Diretora do Hotel do Canal, saímos com destino já traçado: o Peter’s Café Sport, que foi eleito em 1986 como um dos melhores cafés do Mundo pela revista americana Newsweek. Apesar de a nossa estadia aqui durar só 3 dias, já ouvimos várias vezes dizer que é imperdoável não irmos lá. E assim é. O gin tónico, que é agora uma das modas do momento, aqui é uma tradição de dezenas e dezenas de anos e isso nota-se no sabor. Fazem-no simples e dizem que é suposto saber a gin tónico, que para sabor de frutos vermelhos existe o vinho, a ginja e muitas outras coisas. Não podíamos concordar mais. O gin tónico do Peter’s está de facto uns patamares acima da restante concorrência. Voltamos para a nossa casa temporária sem nunca perder a vista do Canal, que dá nome ao Hotel, jogamos uma partida de bilhar e vamos dormir, que o dia seguinte tem de ser aproveitado.

Novo dia. O quarto é o mesmo, a janela é a mesma, mas a Montanha do Pico parece diferente.

Na recepção do Hotel disseram-nos que já trabalham aqui há anos e há sempre uma nova “face” do Pico que ainda não conheciam, que todos os dias a montanha gigante aparece sempre com uma cara nova. Partimos para o Aquário de Porto Pim, para ver as várias centenas de espécies que aqui se encontram. Alguns destes exemplares são capturados em mar alto e enviados por avião para aquários de todo o mundo, pela Flying Sharks, uma empresa criada por investigadores do Departamento de Oceanografia e Pescas da Universidade dos Açores. Vale a pena a visita.

De seguida, vamos no carro alugado ao Hotel e dirigimo-nos para a Caldeira, o edifício vulcânico que fica no centro da Ilha do Faial, e que ainda possui a vegetação que existia na Ilha antes dos primeiros povoadores. Somos as únicas pessoas no miradouro e ficamos com a sensação de sermos os maiores sortudos. Não é todos os dias que estamos a sós com um vulcão.

Voltamos a descer à Horta para o almoço no Restaurante Clipper (peçam o tornedó à Hotel do Canal) e voltamos a subir em direcção ao Vulcão dos Capelinhos, que entre 1957 e 58 colocou o Faial novamente no mapa mundo. Com o advento da televisão, o Faial e o seu vulcão eram as estrelas maiores do pequeno ecrã em todo o mundo, o que levou o então senador John F Kennedy a propôr uma lei especial para que os Estados Unidos recebessem os Faialenses que queriam fugir daquele cataclismo. Hoje em dia está lá apenas o palco da erupção, que parece uma superfície lunar, e um antigo farol que escapou à força telúrica. Mas o melhor está debaixo das cinzas. O Centro de Interpretação do Vulcão dos Capelinhos é uma obra de arquitectura e de engenharia que merece a nossa visita. A nossa “viagem ao centro da Terra” acaba com um documentário sobre a erupção e é hora de voltar.

Já estamos no fim da tarde e faz sol, por isso procuramos um local para aproveitar as últimas horas no Faial. Recomendam-nos no Hotel do Canal a Taberna de Porto Pim. Há ali uma esplanada com vista para a praia com o mesmo nome de um lado, e um portão fortificado de outro, que nos lembra dos corsários que ainda há não muito tempo, tentavam saquear a Horta. Decidimos jantar ali um arroz de polvo, temperado com a vista para a enseada.

Voltamos para o Hotel do Canal de alma cheia e com vontade de voltar à Horta mais vezes, à Taberna Pim, ao gin do Peter’s, ao tornedó do Restaurante Clipper, ao Pico e ao Hotel do Canal também. E por isso a história não acaba aqui. Obrigada Faial.

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