Através do Ecomuseu Municipal do Seixal, fizemos uma visita guiada à Fábrica da Pólvora.
Esta antiga unidade fabril constitui um dos mais importantes testemunhos da arqueologia industrial do concelho. Iniciou a sua laboração em 1898, numa zona de matas e campos agrícolas da actual freguesia de Corroios, com o objetivo de fabricar pólvora negra, um trabalho quase todo manufacturado, muito delicado e perigoso.
A fábrica dispõe de um conjunto de maquinismos do fim do séc. XIX e inícios do séc XX, da qual se destaca a a máquina a vapor “Joseph Farcot” de 125 cv de potência. Esta máquina produzia a partir da sua caldeira toda a energia mecânica necessária ao funcionamento do conjunto de máquinas, com ligação às oficinas envolvidas na produção de pólvora negra, recorrendo a uma múltipla conjugação de veios, volantes e cabos teledinâmicos aéreos.
Em 1921 foi comprada por Francisco Camello e Armando Luis Rodrigues, tendo este último vendido a sua cota ao primeiro, permitindo a criação da Sociedade Africana da Pólvora Lda., ainda hoje conhecida por SAP.
(Queima da madeira para fazer carvão)
A atração principal é a máquina a vapor que está a funcionar na perfeição, mas a restante estrutura de laboração também é digna de registo. O perímetro industrial da fábrica encontra-se em bom estado de conservação, as oficinas de trituração, de encasque, de prensagem, de granulação, de peneiração, de lustração, de secagem, de pesagem e de embalagem.
(máquina de trituração)
Construídas dentro das normas de segurança, próprias da atividade, todos estes edifícios encontram-se distanciados uns dos outros, com estrutura em cimento e alvenaria, mas com partes de paredes construídas em madeira para no caso de uma eventual explosão esta poder-se expraiar para fora do recinto. Situação elucidativa do risco desta atividade.
Não sei o que pensar desta fábrica, que sempre foi rentável e manteve o seus padrões de qualidade até ao seu encerramento, tendo criado, inclusive uma marca própria, SAP, de reconhecida qualidade e posteriormente vendida ao estrangeiro.
Esta fábrica que sempre trabalhou com uma tecnologia do tempo da “revolução industrial” sem renovação e evolução durante o seu tempo de existência, deve a sua laboração à dedicação e ao profissionalismo dos seus operários.
(máquinas de peneiração)
Penso que a sua máquina a vapor, fonte de toda a energia da fábrica, seja única na Europa e em bom estado de funcionamento.
Deduzo que a pressão urbanística e o alto valor imobiliário dos dias de hoje ditaram o seu encerramento. Felizmente ainda há pessoas que se preocupam com a nossa História e tudo fazem para que ela não desapareça
A SAP permaneceu em laboração até 2001, ano em que encerrou as suas portas e a Câmara do Seixal decidiu criar (e desde já os meus parabéns), uma extensão museológica com base no circuito da pólvora negra.
Curiosidades:
O Sr. Francisco antigo operário enquadrado na segunda geração familiar de profissão que acompanhou o nosso grupo e antigo operário da fábrica é o português com mais "bagagem" sobre explosivos. Tem a 4ª classe, 47 anos e em química é o equivalente a um licenciado... recuperou e faz a manutenção da máquina a vapor de 1900 ali presente e serve de guia aos grupos que visitam a fábrica.
Para quem não saiba os componentes da pólvora são o Enxofre, Nitrato de Sódio e Carvão, este último produzido dentro da fábrica.
Ainda nos conhecimentos transmitidos pelo Sr. Francisco, dizia-nos que o destino final da pólvora, seleccionava a qualidade do carvão e que este dependia do tipo de árvore e o mais fino provém do salgueiro.
Contactos
Ana Isabel Apolinário
Divisão de Património Histórico e Museus / Ecomuseu Municipal
Serviço Educativo
Núcleo da Mundet – Serviços Centrais
Exibições: 1634
Tags: "Passeios(cá, corroios, cultura, passeios (cá dentro), seixal
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