VIAGENS (lá fora): Go Canucks! O espírito de Vancouver

O meu primeiro contacto com os canadianos teve lugar na chegada ao aeroporto de Heathrow, onde fiz escala. Um grupo de casais de meia-idade meteu-se comigo. Tinham estado de férias em Portugal e foram apenas os primeiros de muitos canadianos de meia-idade com que falei, que já tinham passado férias em Portugal. Não houve nenhum dentre eles que me dissesse que não conhecia o nosso país.
Uma vez que conheciam bem Portugal, queriam instruir-me sobre o Canadá, para que eu me sentisse em casa assim que lá chegasse, mas na verdade não me disseram nada de verdadeiramente útil que eu já não soubesse. Falaram até à (minha) exaustão sobre hóquei no gelo e desportos de inverno, como se a vida não fizesse sentido sem girar em torno disso.
À chegada a Vancouver fui recebida ainda no aeroporto por totens lindíssimos dos nativos das Primeiras Nações, cuja cultura e arte estariam omnipresentes nos dias seguintes - nas lojas de artesanato, nos totens do Stanley Park, no MOA (Museu de Antropologia).

Já no exterior do aeroporto fiquei impressionada com a paisagem de montes nevados e um céu azul límpido.
Apanhei o SkyTrain para o centro da cidade, um misto de metro e montanha-russa. Não tem condutor, por isso podemos sentar-nos na primeira carruagem frente a uma janela panorâmica. Quando sobe e desce pontes e viadutos, parece uma montanha-russa e quando entra nos túneis, o efeito é hipnótico. Um simples passeio de SkyTrain e fiquei logo com a impressão que Vancouver seria uma cidade muito moderna e futurista.
No centro da cidade, fiquei alojada por alguns dias num hostel perto do Vancouver Lookout (torre panorâmica) e do Waterfront (frente ao porto de Vancouver, onde se situa o Canada Place). O porto tem uma paisagem fabulosa com as montanhas a norte, a ponte Lions Gate a noroeste e a zona de amaragem e descolagem dos hidroaviões que dali partem para paragens mais remotas.
Nos dias seguintes mudei-me para um hostel dentro do campus da UBC (University of British Columbia), que fica no extremo oeste da "península" de Vancouver, num mundo muito próprio e à parte. O caminho de autocarro até lá demora uma boa meia hora, por uma de várias avenidas paralelas alternativas, todas elas pejadas de lojas de 2ª mão, livrarias comunitárias, supermercados biológicos e esse tipo de coisas. Obviamente isso fez-me descer do autocarro umas quantas vezes e demorar-me mais uma quantas horas a chegar ao destino.
A oferta no mais humilde dos supermercados era de se lhe tirar o chapéu: cereais, leguminosas, sementes, especiarias e tudo o mais que se possa pensar - sementes de cânhamo, bagas goji, stévia - avulso e a preços imbatíveis. Queria encher as malas com quilos e quilos de mercearias e produtos naturais, mas tive que fazer escolhas inteligentes. A minha mala já estava carregada de livros em 2ª mão e roupa quente adquirida com urgência no Salvation Army.
O campus da UBC é percorrido por três linhas de autocarro, tem dezenas de restaurantes, supermercados, farmácias, museus, uma sala de espectáculos, parques lindíssimos, um jardim botânico, percurso em pontes suspensas pelo bosque, uma quinta e floresta escarpada em toda a frente para o mar, com raros caminhos de acesso a praias quase secretas. O jardim das rosas fica num terraço lindíssimo com vista sobre o Estreito de Geórgia e as sempre presentes montanhas no horizonte - fiquei lá sentada a olhar o horizonte, até ter os ossos gelados. A praia também me cativou, pura e agreste, águas geladas e límpidas e um areal cinzento salpicado de troncos de árvores caídas. Apesar das temperaturas abaixo dos 15ºC - e eu enrolada num cachecol a tiritar - magotes de canadianos faziam nudismo deitados na areia.

Tinha esperança de dar um pulo à Grouse Mountain e ver uns ursos grizzlies, mas não deu para tudo. Em jeito de compensação vi águias, lontras, veados, guaxinins e avisos de coiotes - infelizmente não os coiotes em si. Não encontrei coiotes nem mesmo na floresta ou na quinta da UBC, aonde parece que são comuns, mas de qualquer forma os encontros com eles são de evitar. Acho que nunca tinha estado num sítio onde a natureza ainda é tão selvagem e tão imponente. No Canadá senti-me mais conectada à Terra e com todos os sentidos mais alerta.
Andei pelos lados do Vanier Park e vi parte da Granville Island, mas só de passagem. De qualquer forma foi onde vi os primeiros avisos de coiotes e algumas das primeiras paisagens mais cativantes, mas estava de chuva e não prolonguei o passeio.
No último dia estive no Stanley Park, um paraíso verde de 400 hectares, com acesso pela baixa de Vancouver. Nesse dia tive sorte com o tempo, não choveu e em certa altura o sol até apareceu e pude usufruir daquele paraíso verde durante horas.
Em Vancouver propriamente dita, fiz incursões quase diárias para conhecer os cantos à casa.

Além do Waterfront, há o bairro antigo de Gastown com lojinhas pitorescas e vibrante vida nocturna; a Chinatown, onde fui várias vezes e onde gostei particularmente do jardim chinês; e as avenidas centrais da baixa, como a Howie e a Seymour - onde se concentram as grandes lojas e que também merecem umas caminhadas.
Os canadianos têm fama de ser muito bem comportadinhos, civilizados e pacíficos e os americanos são os primeiros a gozar com isso em todas as ocasiões possíveis. É verdade que aparentam ser mais calmos e menos sanguíneos que os americanos, mas durante a minha estadia, alguns deles estiveram para partir a loiça toda.

Estava a decorrer o campeonato de hóquei no gelo e os Canucks de Vancouver perderam a final contra Boston. O termo "Canuck" é um nome depreciativo de origem incerta, para designar os canadianos, mas numa demonstração de bom humor e fair-play, os Vancouverites adoptaram-no para a sua equipa - algo que se esperaria deles. Mas este ano, quando perderam a final do campeonato, talvez por já haver algum descontentamento com outras questões e uma certa tensão social, alguns canadianos menos típicos deram origem a motins na baixa. Partiram montras e deixaram tudo de pantanas numa extensão de vários quarteirões através de várias avenidas.
Eu não estava na baixa quando aconteceu, mas dois dias depois quis ir ver os estragos causados. Tinha ouvido dizer que as pessoas estavam a deslocar-se até lá num movimento espontâneo de solidariedade com os lojistas afectados e para tentarem dizer ao mundo que eles não são assim. Havia bandeirinhas e posters, desenhos inspiradores, ramos de flores e quilómetros de frases de apoio escritas nos painéis de contraplacado que tapavam as montras partidas.
Antes mesmo de ir para o aeroporto, decidi dar um pulo a Richmond. Li algures que havia por lá um mosteiro e templo tibetanos, à imagem e semelhança de um que existe na India. Demorei horas a chegar lá, porque as distâncias no mapa são enganadoras e eu julgava que uma vez em Richmond, conseguiria lá ir ter a pé, quando na verdade tive que apanhar uns três autocarros para lá chegar. Esperei tempos infinitos na beira de estradas em bairros suburbanos, debaixo de um sol abrasador, até que me lembrei que tinha comigo um chapéu de mountie que tinha comprado para o meu namorado. Os autocarros não vieram mais depressa, mas pelo menos suportei melhor o calor e mantive-me animada com as reacções das pessoas que passavam a pé ou de carro. Presumo que não estejam habituadas a ver o chapéu de mountie fora do seu contexto; presumo que fosse o equivalente a nós vermos uma miúda à beira da estrada vestida de civil com um chapéu da GNR na cabeça - de facto pareceria despropositado.
A 4th Street, onde ficava o templo, estava afinal pejada de templos: hindus, muçulmanos, sikhs, budistas e critãos de várias espécies. Achei bonito como todos eles se alinhavam lado a lado, convivendo pacificamente. Aquela rua deveria ser um monumento à tolerância religiosa!

Chegada finalmente ao templo budista que eu procurava, infelizmente já estavam a fechá-lo para almoço, mas perante o meu ar desanimado, um Lama mais novinho veio falar comigo e acabou por me convidar a almoçar com eles. Foi uma experiência bizarra entrar num salão cheio de monges tibetanos. Tentei passar despercebida (como?) e sentei-me num cantinho onde encontrei uma senhora ocidental, que afinal vivia há longos anos no Nepal e sentia-se ali mais estrangeira do que eu. O Lama principal do mosteiro estava para chegar naquela tarde, após longa ausência e havia um ambiente de excitação com o seu regresso e uma grande azáfama no templo com os preparativos para uma cerimónia que iria ter lugar à tarde. Depois do almoço deixaram-me estar no templo a assistir às preparações, mas não fiquei muito tempo ou acabaria por perder o avião. Para eles nada havia de mais importante naquele momento além da chegada do seu Lama. Eu entendia perfeitamente, mas para mim o mais importante naquele momento era voltar a casa, pelo que me despedi e me meti a caminho do aeroporto.

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Comentário de Joana Sá Pinto em 29 Setembro 2011 às 12:56
Pois, o Outono deve ser a estação mais fotogénica, mesmo. Obrigada, Irina.
Comentário de Marina Soares em 29 Setembro 2011 às 10:30
Gostei muito Irina, fiquei cheia de vontade de fazer esta viagem.
Comentário de Irina Maia em 28 Setembro 2011 às 19:46
O Verão é bom,pelas temperaturas mais amenas (média de 15º C), mas no Outono podem-se ver as maravilhosas cores Outonais e no Inverno os parques e as montanhas ficam lindos de branco. Depende dos gostos de cada um.
Comentário de Joana Sá Pinto em 28 Setembro 2011 às 18:29
Adorei! Também não me importava nada de "go canuck". Qual é a melhor época do ano para lá ir?
Comentário de Ana Maria Cano Meira em 28 Setembro 2011 às 12:51
gostei muito.
Comentário de Irina Maia em 28 Setembro 2011 às 12:42
Por acaso tive a sorte de estar por lá cerca de 10 dias, com viagem paga, pelo que no final apenas gastei alojamento em hostel (barato, cerca de 21 EUR / noite) e alimentação (maioritariamente de supermercado, logo também barata).
Comentário de Ana Tomasi em 28 Setembro 2011 às 12:27

Muito bom, este artigo. E esta viagem faz-se em quantos dias? E mais importante, por quanto?

 

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