VIAGENS (lá fora): Japão sem guião - parte I

O meu sonho de ir ao Japão realizou-se em Outubro do ano passado. A propósito da participação numa conferência em Nagoya, foi-me dada a oportunidade de conhecer um pouco do país do Sol Nascente.

Apesar de há muito alimentar o sonho de ir ao Japão, sentia imenso receio perante a possibilidade de ser apanhada num grande terramoto, tufão ou tsunami. Felizmente, enquanto lá andei, apenas houve pequenos sismos que eu nem mesmo senti e o tempo estava maravilhoso, pelo que com o passar dos dias, os meus receios de catástrofes naturais esfumaram-se. Mal sabia eu, que poucos meses depois, o Japão seria abalado por uma sucessão de desastres, pior do que os meus piores pesadelos. O facto de eu ter deixado amigos no Japão, tornou toda a tragédia muito mais pessoal para mim. Felizmente nenhum deles foi vitimado e continuamos a trocar impressões sobre a evolução da situação. Digo-lhes que espero que recuperem rapidamente, pois gostaria imenso de lá voltar um dia que tenha nova oportunidade.
A maior parte dos jovens japoneses com quem falei não entende o meu fascínio pelo seu país. Primeiro julguei que estivessem a gozar comigo! Como podem não entender? O país das gueishas e das maikos? Dos ninjas e samurais? Do anime e manga? Do saké e sushi? Do karaoke e pachinko? Do shinto e zen? Do bonsai e ikebana? ... Podia continuar a enumerar pares de coisas japonesas que me fascinam, mas a verdade é que eles pareceram genuinamente surpreendidos por eu gostar de qualquer uma delas. Simplesmente, porque para eles nada disso é exótico, mas apenas a cultura na qual sempre viveram imersos e da qual estão inclusivamente um bocado saturados.

A boa fortuna sorriu-me e não tive que pagar o meu vôo, pelo que consegui a proeza de passar duas semanas em tour pelo Japão pela módica quantia de 900 EUR - incluindo comida, alojamento, transportes e as mais diversas atracções turísticas.
Eu sou especialista em fazer viagens baratas: compro comida no supermercado, vou a lojas em 2ª mão e não me importo de dormir em pensões baratuchas com alcatifas manchadas se for caso disso. Mas ao contrário do comummente aceite, o Japão também não é assim tão caro. Depende!
A comida nos restaurantes pode ser cara - o que mais abunda são os sítios com pratos a 20 EUR - mas também há muitos lugares onde se come bem por 5 EUR. É uma questão de não nos contentarmos com a primeira coisa que aparece e sermos perseverantes na procura de bons negócios. Quando comi fora, fiz sempre questão de não passar esse limite dos 5-7 EUR por prato e não houve nenhum que me tivesse desiludido. Pelo contrário, ainda hoje anseio pelas sopas de miso, pelos pratos de soba, pelo tofu com algas... e dou por mim ainda a ir às lojas asiáticas em Lisboa, comprar ingredientes para tentar imitar as delícias que comi no Japão.

Apesar disso, muitas vezes recorri ao supermercado para as minhas refeições. Infelizmente, fruta e legumes, tal como estamos habituados a ver à venda nos nossos supermercados e mercearias, são coisa rara no Japão!  Quando finalmente encontrei um supermercado com esses itens, uma caixa de meio quilo de uvas pretas custava o equivalente a 17 EUR e uma só maçã ou cenoura (eram vendidas em embalagem individual!) custavam cerca de 1 EUR cada.

Pão, também não é fácil de encontrar - eles comem uma massa branca gelatinosa indescritível em vez de pão - e o pão que vendem vem em pacotes de apenas 3 fatias de forma pelo preço absurdo de 1 EUR! Em compensação, o tofu, os cogumelos, as massas e todo o tipo de peixe são super-baratos. Ou seja, o que é caro é aquilo a que nós estamos habituados, mas quem se adaptar à comida local, não terá dificuldades em comer barato. No meu primeiro dia, acabei por comprar um pacote de cogumelos amarelos que soltavam uma espécie de baba ao serem cozinhados, mas que resultaram num excelente jantar bastante gourmet por apenas 2 EUR.
O alojamento pode ser caro, mas para quem não precise de luxos e se adapte bem a hóteis de cabine ou hostel com beliches, consegue dormir em sítios simpáticos por 20 EUR ou menos, inclusivamente no centro de Tóquio. 
Os japoneses também não são avessos a coisas em 2ª mão. Parece que têm umas feiras da ladra muitos boas. Não tive oportunidade de ver nenhuma, mas encontrei várias lojas aonde pude comprar lindos kimonos por apenas 5 EUR.

O que eu achei mais caro foram os transportes, especialmente as viagens entre cidades, que consumiram grande parte do meu orçamento. Mas também se podem fazer opções de poupança: ir de autocarro expresso pode ser cansativo e consumir meio dia em viagem, mas pode-se sempre escolher um que viaje de noite e na verdade durante o dia a paisagem acaba por ser um bónus. Já o comboio-bala (o shinkansen) põe-nos em qualquer lado em 2 ou 3 horas em vez das 8 ou 9 do autocarro, mas por 3 ou 4 vezes o preço do expresso e a viagem torna-se aborrecida porque não é possível apreciar a paisagem - tentar fazê-lo pode causar dor de cabeça. Só prestei atenção ao que passava lá fora, quando vi o Monte Fuji no horizonte.

O meu roteiro de viagem levou-me de Nagoya a Takayama, passando por Shirakawa-Go, depois Tokyo, Kyoto e regresso a Nagoya. Por diversos factores, vi-me obrigada a ir improvisando o meu roteiro, o que engrossou a conta. Fazendo planos antecipados, com aquisição de bilhetes uma a duas semanas antes das viagens, conseguem-se preços muito mais baratos pela internet. O problema maior reside no facto de que são poucas as empresas de transporte com sites traduzidos em inglês, pelo que quem queira fazer esse tipo de planos, deve pedir a alguém com conhecimentos da língua para o ajudar na reserva.

 

Continua...

 

Nota: artigo publicado em Outubro de 2011 e de novo colocado em destaque, em Agosto de 2014.

 

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Comentário de Ana Tomasi em 12 Outubro 2011 às 11:28
Boa! ;)
Comentário de Irina Maia em 12 Outubro 2011 às 11:21
Não tenho tido tempo, mas prometo começar ainda hoje a preparar o post!
Comentário de Ana Tomasi em 12 Outubro 2011 às 11:17
Então e esse Japão - Parte II? ;)
Comentário de Marina Soares em 12 Outubro 2011 às 10:40

Gosto do teu estilo de viajar. E o Japão é daqueles países em que, mais que ser necessário fazer refeições de supermercado, deve ser mesmo uma maravilha para os sentidos! As embalagens, os produtos diferentes, as etiquetas... Que sortuda, Irina!

Eu, quando for a Tóquio, tenciono pegar num Murakami qualquer (ou dois, ou três) e andar atrás dos personagens dele um dia inteiro - comer o que eles comem e nos mesmos sítios, apanhar os mesmos comboios, perder-me nos mesmos percursos pedestres. Parece-me tudo sempre óptimo e maravilhoso. E tem de ser mesmo!

 

Comentário de Milene Cabral em 11 Outubro 2011 às 22:10
adorava ir ...
Comentário de Ricardo Candeias em 7 Outubro 2011 às 15:55

Tambem tenho o sonho de viajar para o Japao, penso que seria uma experiencia fantastica para mim. E muito importante visitarmos outros Paises com culturas bem diferentes da nossa, para podermos desfrutar de todas as suas qualidades e para alargarmos os nossos horizontes.

Provavelmente o que me iria assustar mais no Japao iria ser o idioma, visto que eu claramente nao domino o Japones, mas, de resto para mim pareceu me a viagem perfeita (embora tenho ficado um pouco surpreendido com o preço dos bens alimentares que fazem parte da nossa alimentaçao diaria, aha)

Parabens Irina!

 

Comentário de Ana Tomasi em 7 Outubro 2011 às 10:54
O meu sonho de ir ao Japão ainda não se realizou. Mas um dia vai acontecer. E levo estas notas comigo. Obrigada, Irina. E a cenoura, esse legume exótico, ficou bem na fotografia! ;)

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