VIAGENS (lá fora): A Garganta funda e divina do Cares

Eu não gostava de caminhadas. Achava que eram uma perda de tempo, e que certamente o poderia gastar em algo mais útil.

Nessa altura achava que trekking teria mais a ver com a malta que gostava do Mister Spock, do que propriamente com calcorrear montes e espaços verdes, longe das cidades.

Eu antes também não gostava de cozido à portuguesa. Agora sempre que posso, como cozido uma vez por semana. Pudesse ser assim com o trekking.

As pessoas mudam. E eu mudei quando fui fazer a minha primeira caminhada. O local escolhido foi a Garganta do rio Cares, nos Picos da Europa, também conhecida como Garganta Divina, pela sua singular beleza.

Situado entre as localidades de Puente Poncebos nas Astúrias, e Caín, na província de Leon, este é um dos trilhos mais conhecidos e movimentados dos Picos. Com cerca de 12 quilómetros, e de dificuldade baixa, tem a duração de cerca de 6 horas.

Foi durante muitos anos, o único caminho existente durante os nevões dos fortes Invernos que por aqui se fazem sentir. Não será difícil imaginar o quão complicado seria atravessar estes trilhos no meio da neve, sendo que em algumas zonas pouco mais de metro e meio nos separam entre a rocha e o nada.

Nos anos 20 a Companhia Eléctrica del Viesgo melhorou o caminho para que os seus trabalhadores pudessem vigiar melhor os níveis de àgua até à central de Poncebos.

Onde não foi possível continuar o trilho, escavou-se na rocha, e isso por si só, é das coisas mais espectaculares que se podem testemunhar ali.

Sempre com o Cares como companhia lá ao fundo, era nas faces escavadas das suas rochas que íamos galgando metros até Caín, o final do destino traçado.

O primeiro sinal de falta de preparação para estas andanças, surgiu aos meus pés. Literalmente. As supostas botas xpto que me haviam custado os olhos da cara, e que nem me tinha dado ao trabalho de testar antes, começaram a fazer mossa.

Os calcanhares começavam a ceder. Nota mental: Nunca fazer caminhadas grandes com botas novas.

Mas a incrível visão que o vale nos oferecia, as escarpas de calcário, o trilho a serpentear até onde a vista alcançava, tudo fazia esquecer o cansaço.

A dada altura começaram a surgir os primeiros sinais de "nativos".

Saltando de pedra em pedra, as cabras de montanha brincavam à nossa volta como o Cristiano Ronaldo num relvado. E assim que nos aproximávamos, as fintas até estavam ao mesmo nível. É incrível como se equilibram onde não parece haver equilíbrio possível.

Como não havia nenhum sinal à Jardim Zoológico para não alimentarmos os animais, demos umas bolachas aos bichos, que não se fizeram rogados. Nem agradeceram, como se fosse a portagem a pagar para passarmos nos seus domínios.

Limitaram-se a virar-nos o rabo, e lá foram à sua vida.

Ainda não tínhamos tido a experiência de nos cruzarmos no meio de nada com famílias inteiras, com gentes de todas as idades que por ali se encantavam a fazer o mesmo que nós. Se ao primeiro "Hola", achamos estranho, ao terceiro a iniciativa do simpático "Hola" já era nossa.

As minhas plantas dos pés já pediam algum descanso. Os calcanhares e tornozelos já me chamavam os piores nomes. Mas havia que continuar a serpentear pelo trilho, e as imponentes montanhas não deixavam de nos surpreender. Lá em baixo, o rio mantinha-se sereno, e os meus pés já só pensavam em ir ao seu encontro.

Os pequenos túneis esculpidos na pedra calcária deixavam-nos de boca aberta, e eram sempre uma oportunidade para breves momentos de frescura, já que o Sol ia alto e estava bastante calor.

Mal queria acreditar quando começamos a ter um vislumbre dos telhados de Caín. Depois de banharmos os pés nas àguas geladas do Cares, veio até nós o aroma de um belo pedaço de queijo Cabrales. Acompanhado com sidra soube divinalmente.

Mas era tempo de regressar. Foi difícil convencer-me, a mim, mas principalmente aos meus pés para fazer o caminho de regresso. Achavam que estava louco. E estava. Regressamos e foi mais demorado do que gostaria. Pensei que nunca mais chegava, tinha os pés inchados, e o simples caminhar era penoso.

Mas consegui.

Acabei a minha primeira caminhada quase em lágrimas e descalço. Não, não tinha feito nenhuma promessa. Assim que apanhei asfalto, fiz o último quilómetro descalço até ao carro, com a promessa de investigar melhor o mundo dos acessórios para trekking.

Nota: Artigo publicado em Junho de 2011.

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Comentário de Rui Mesquita em 13 Agosto 2013 às 10:13

Olá Sónía. :)

Claro que posso dar dicas. É possível que me possa ter esquecido de algumas coisas com o tempo, nas naquilo que puder ajudar, estou á disposição.

Mande-me por msg aqui no myguide porque nem sempre estou com acesso ao email.

Cumprimentos,

Comentário de Sónia Guerreiro em 13 Agosto 2013 às 9:37

Olá Rui. Estou a pensar fazer o trilho da Garganta do Cares e uma vez que o Rui já o fez, será que me podia dar uma ajuda com questões práticas? Obrigada. Deixo-lhe o meu e-mail: info@soniaguerreiro.com

Comentário de Helena Guerreiro em 30 Junho 2011 às 17:31

O que dizer? As fotos falam por si, e o Rui dá sempre uma ajuda com a prosa. 

Este parece que até eu conseguia fazer, mas já sei que com botas novas não :)

Comentário de Ricardo Rodrigues em 30 Junho 2011 às 15:13

O ziguezague do caminho a perder de vista no desfiladeiro é fenomenal. Deve ter sido muito fixe fazer.

Excelente rui!

Comentário de Maria Inês Simões em 30 Junho 2011 às 14:54
As cabras a fintarem deve ter sido giro de ver, bem como tudo o resto :)
Comentário de Gil Ferreira em 30 Junho 2011 às 14:26
O caminho cortado na rocha é fenomenal, nunca tinha visto algo assim!!

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