VIAGENS (lá fora): Aigüestortes, fazer de Heidi no paraíso do Trekking

"Heidi tinha conseguido convencer o seu amigo Pedro a fazer mais uma caminhada. Já tinham ajudado o avô nas tarefas diárias, e nada os impedia de caminharem no vale. O Sol estava já alto e uma merenda repousava no fundo do saco para saciar a constante fome do amigo."

Não, não vou começar agora com contos infantis. Peço-vos antes que me acompanhem numa viagem ao Parque Nacional deAigüestortes - Sant Maurici, uma região montanhosa nos Pirenéus Espanhóis, quase a roçar a fronteira com França.

Aigüestortes podia facilmente ter servido de cenário às aventuras da pequena Heidi, assim era majestoso o cenário montanhoso que nos esperava. E teria servido que nem uma luva como alternativa às montanhas suiças que circundavam Maienfeld, a localidade onde se passavam as aventuras desta personagem.

Neste episódio em particular, e imbuídos do espírito Sherpa que nos caracteriza, juntamo-nos novamente aos suspeitos do costume nestas andanças das caminhadas, o Rogério e a Rute.

O plano era simples, Chegar, Ver, Descansar (bastante), Comer (nota mental para a comida da região: soberba), e só depois Vencer.

 

Espot - a entrada do Parque

O acesso ao coração do parque é feito através das aldeias de Espot (Sant Maurici) ou de Boi (Aiguestortes).

Como chegar: Em Espanha: Seguir a A5 direcção Madrid, mudar para a Autopista M-50 direcção Toledo, e depois A-2/E-90 direcção Saragoça/Barcelona. Já em Lérida, tomar a N230 em direcção a Viella; a seguir a Pont de Suert, cortar para a L500 até Caldes de Boí.

Se pretender ir antes para Espot, tomar a N260 antes de Pont de Suert, em direcção a Pobla de Segur, e daí a C147 - a estrada para Espot é á esquerda.

Acham complicado? Não é. Basta seguir a voz suave com sotaque metalizado a indicar as direcções.

Difícil é isto:

Não é assim tão mau.

Tinhamos optado por Espot porque tinhamos boas referências do parque de campismo "VoraParc". Era de facto um lugar especial, muito bonito e tranquilo, com vista para os cumes rochosos.

Depois de montar a tenda, como eram horas de almoço, decidimos ficar logo pela rua principal, a carrer barranc solau. Em boa hora o fizemos.

Estávamos destinados a provar a Escalivada. Uma mistura deliciosa de pimentos, curgetes e cebolas assadas, servidas com a carne de borrego mais tenra que já provei.

Os Deuses estavam definitivamente connosco.

Depois do almoço era tempo de nos fazermos ao caminho. Naaaaa... umas horas de caminhada pareceram demasiado esforço para fazer a seguir ao almoço. Aquele manjar dos deuses ainda se fazia sentir no estômago quando optámos antes por fazer uma sesta à sombra .

 

Percurso 1: Estany Sant Maurici - Refúgio Amitges

Acordámos com as conversas dos gaios e, depois de deixarmos o carro na aldeia, fomos ao Centro de Interpretação informar que iríamos fazer uma caminhada. É sempre conveniente entrar em contacto com qualquer das duas casas do Parque Nacional para dar a conhecer o nosso percurso, se vamos demorar mais tempo para além do suposto para concluir os trilhos, ou se vamos pernoitar em algum dos refúgios. Não nos podemos esquecer que o parque é muito grande e a Natureza em estado selvagem pode reservar-nos algumas surpresas.

O acesso é condicionado ao trânsito, tal como a maior parte dos Parques Espanhois, e ainda bem. Existe a possibilidade de entrar no parque em táxis 4x4 Land Rovers que nos levam até ao Estany (lago) Maurici e foi o que fizemos.

Planeávamos fazer o trilho à volta do lago, subir até ao refúgio de Amitges, a 2367 metros de altura e a cerca de duas horas de caminho.

Ir de táxi nas montanhas, tem aqui um contexto ligeiramente diferente. Se na Jordânia, por exemplo, o táxi era um burro que nos fazia saltar de cinco em cinco segundos, aqui os saltos eram semelhantes mas havia um tejadilho onde as nossas cabeças teimavam em bater. Foi a risota geral. E ajudou a moer os croissants do pequeno almoço.

Assim que se chega ao Estany Sant Maurici, a boca fica aberta durante um longo minuto, enquanto contemplamos o lago e a montanha de Els Encantats.

Tive uma sensação igual nos Picos da Europa, mas isso vai ficar para outra história, que aqui é de Aiguestortes que se fala.

Não podíamos perder tempo. Em pouco mais de 20 minutos estávamos já a admirar a Cascada de Ratera, onde com alguma paciência me ensinaram a tirar fotos com arrastamento.

Da flora, para além dos pinheiros-negros visíveis a cada curva, surgiam prados húmidos onde cogumelos como este se podiam encontrar com frequência. Eram de tal forma vermelhos e fotogénicos, que estava sempre à espera que aparecesse por ali algum duende aos saltos.

Da fauna que habita o parque, vieram algumas histórias boas para contar. Como aquela em que persegui uma borboleta, porque sismei que queria uma macro decente e o bicho não cooperava, ou aquela outra em que estivemos uma boa meia hora, deliciados, ao lado dos cavalos que pastam nos extensos prados, junto a alguns dos lagos.

Apesar de a temperatura estar amena, quando se entra em modo sherpa o calor aumenta e não ajuda na subida, apenas a água fresca dos constantes regatos e pequenos lagos ajudava a aplacar a vontade em largar tudo e dar um mergulho. Infelizmente, não são permitidos banhos nos estanys do parque. Pura tortura. São uns mauzões, estes catalães.

Ao fim de cerca de uma hora e meia chegamos ao refugio de Amitges. Cansados. Bastante cansados.

Esfomeados, estávamos prontos a provar qualquer coisa que não as nossas sandochas, mas o aroma de esparguete à bolonhesa do prato do dia, não incentivou por ai além, por isso lá comemos as sandes, e jurámos vingança novamente na Escalivada ao jantar.

No regresso, a contornar o Estany Sant Maurici, desta vez pelo lado esquerdo, deslumbrámo-nos mais uma vez com a beleza daquela extensão de água e dos bosques circundantes. Um dia muito bem passado: zero bolhas nos pés, 8 quilómetros percorridos. Coisa de meninos.

Percurso 1: Espot - Estany Negre

O que torna excepcional Aiguestortes como área a conhecer para qualquer trekker, para além da beleza natural, capaz de nos tirar o fôlego a cada curva, é o facto de os trilhos se cruzarem entre si.

Seria possível, por exemplo, começar de pontos opostos, cruzar-mo-nos com alguém num qualquer trilho, e voltar a encontrar essa mesma pessoa em zonas diferentes.

Tendo novamente por base Espot, decidimos fazer o trilho até ao Estany Negre a 2332 metros de altura, passando peloRefugio Josep Maria Blanc, um percurso mais exigente de cerca de 4 horas.

O trilho é provavelmente ainda mais interessante que o do dia anterior, como se isso fosse possível. Os lagos maravilhosos e o Pic Peguera lá no alto, apresentam-se como cenários de um filme do Senhor dos Anéis.

Com uma dificuldade média/alta, onde o terreno, apesar de rochoso se ultrapassa com alguma dificuldade, avistamos o Estany Trescuro. Depois subimos, e subimos, e subimos, até um cenário de sonho.

O refúgio situa-se numa pequena península, como que plantado no meio dos estany Trullo e estany Tort, que se juntam através de uma represa em redor do refúgio. É um dos refúgios mais fantásticos onde já estive. Dava mesmo vontade de ficar e pernoitar, mas infelizmente não estava planeado. Recomendo vivamente. Até a Heidi teria inveja deste local.

Chegámos por fim ao Estany Negre, um local verdadeiramente selvagem e agreste, não fosse a presença humana da represa, onde aproveitámos para nos sentar um pouco, a retemperar forças para voltar a Espot por um atalho que se revelou um destruidor de rótulas!

À nossa espera

O Parque está acessível todo o ano, mas a neve pode esconder os trilhos entre Outubro e Março. Deve ser uma experiência do outro mundo fazer os trilhos no Inverno, com os lagos congelados.

Estamos a pensar voltar no próximo Inverno. Alguém quer vir?

 

(Créditos foto Neve: Josep Xavier Sànchez, www.panoramio.com) 

(Créditos foto comida:http://www.flickr.com/photos/23804856@N04)


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Comentário de Joana Schmidt Costa em 1 Julho 2011 às 17:52
Este também é top 3 :)
Comentário de João Neves em 1 Julho 2011 às 10:48

Este artigo deu-me vontade de fazer caminhadas, quando o li da primeira vez. 

Agora ainda mais. :)

Comentário de Helena Guerreiro em 30 Junho 2011 às 17:29

As caminhadas ás vezes levam-nos a locais maravilhosos e este é mesmo um deles. Mesmo lindo!

Obrigado por partilhares Rui.

Comentário de Ricardo Rodrigues em 30 Junho 2011 às 15:10

aquele refúgio quase a tocas na água é fenomenal. E a quantidade de lagos em volta..Mais um sitio de que nunca tinha ouvido falar. 

Excelente sugestão!

Comentário de Maria Inês Simões em 30 Junho 2011 às 14:52

Aquelas fotos dos cavalos são muuuito giras, e as paisagens deslumbrantes.

Grande artigo rui!

Comentário de Carlos Fernandes em 30 Junho 2011 às 12:27
A heidi ia ficar com ciumes. Grande artigo!
Comentário de Simone Matos em 30 Junho 2011 às 11:44

Idem aspas :)

Quando a natureza nos dá imagens destas...muito lindo!

Comentário de Sandra Passos em 30 Junho 2011 às 11:35

Fogo. Dá mesmo vontade de ir passear para lá. :)

Desculpa não ter participado mais amigo. :(

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