VIAGENS (lá fora): On voit la mer'd'içi!

Diário de viagem à Mauritânia (26/02/2002 a 05/03/2002)

Lx – Las Palmas – Nouakchott – Memghar –Tessit – Iwik – Arkeiss – Marzouba – Nouadibou – Las Palmas – Lx, com passagem pelo Parc National du Banc D’Arguin.









INTRODUÇÃO

Viagem “comemorativa” do facto de estar sem emprego, e já bastas vezes adiada; Ou porque tinha muito trabalho, ou porque não tinha dinheiro, ou porque não tinha tempo, ou porque tinha namorada e/ou porque não tinha, ou porque . . . Só justificações, só tangas.
Para trás ficam:
As minhas duas filhas (radiantes por ficarem sem polícia durante uns dias).
A família preocupada (por eu não ter trabalho).
A obcecação múltipla em que tenho vivido estes últimos tempos; fazer esticar o dinheiro, à procura de emprego, a tentar “crescer como ser humano” (parece-me às vezes, que é só “sobreviver como ser humano”), constantemente dividido entre a “fé” e a ausência de.
Uma vida “atribulada” antes/durante/pós separação.
Uma casa linda, com as obras a meio (pelos motivos óbvios $).
Uma carrinha velha e avariada (no mecânico).
Pagamentos ao banco, luz, água, gás e internet.
Vinte e oito respostas por carta a anúncios de emprego publicados nos jornais (ainda sem feed-back).
Quase outros tantos através da net (nada até à data).
A coisa está preta!

Prá frente:
O apoio da família, dos amigos e dos ex-colegas (incrível, sem excepção!).
Férias, descanso lá longe.
Possibilidade de pôr em prática um verdadeiro “só por hoje”, sem ter que pensar mesmo no “amanhã”.
Uns dias, que só podem ser maravilhosos, (assim a minha cabeça o permita) na companhia do meu mano, com quem já não privo à tempo demais, e ir conhecer mais uma das suas “missões”. Pós Guiné-Bissau.
Voltar a África e olhar/sentir o deserto. Sentar o rabo lá no cimo da duna e meditar.
Conduzir por aí a fora, e passar em, estar simplesmente, comer, conhecer sítios, gente diferente.
Não sei quantos dias sem telemóvel (será que sobrevivo?).


Só queria conseguir cá deixar este gajo execrável, que não me larga e que não pára de me chamar “irresponsável”, “inconsciente”, e que a toda a hora me bombardeia com:
“E se alguém telefona por causa de um trabalho?”
“E se vem alguma resposta aos mails?”
“E se as miúdas pegam fogo à casa?”

IRRA!

Onde é que isto se desliga?








26/02

16.00h, Aeroporto da Portela, partida pela porta das tripulações, Guarda Fiscal, passaportes, sacos na carrinha k nos vai levar pista fora até onde está estacionado o “Antonnov 26“, que transporta peixe da mauritania para cá e frutas e legumes para lá. Está a ser reabastecido e esperamos na pista que o Sr. Comandante Jorge Cruz (um dos 3 que fez à uns anos, a viagem Sagres – Macau num teco teco e que faz de “contacto” da empresa cá em Lx) nos faça sinal para entrarmos. A tripulação é toda Russa. Parece que o diálogo vai ser difícil. Entramos. Mais espartano não pode ser. Bancos corridos de lado. Vamos sentados quase espalmados entre a carga e as paredes do dito. Levantamos vôo. Vibra um bocadinho e é barulhento, mas lá em cima é perfeitamente estável e o vôo acaba por ser muito suave.
Aterramos em Las Palmas de Gran Canaria (às 21.00h) onde ficaremos a dormir hoje. Esperamos 40 minutos pelo “transfer” que nos leva ao terminal dos autocarros (Guaguas) e daí apanhamos um táxi para o hotel.
À pergunta: ”onde se pode beber una copa?”, o taxista responde sem mais se calar com uma dissertação pormenorizada e exaustiva (que vos poupo) acerca dos vários tipos de prostituição que se podem encontrar, e das suas (dele) preferencias. Cito- “Sul americanas mais profissionais, versus africanas mais tontas”. Fim de citação. Chegamos! Na realidade é mais um aparthotel, na zona baixa da cidade junto ao porto. A ambiencia é das mais finas. Largamos os sacos e saímos para comer. São 23.00h. Somos abordados imediatamente para sexo, mas escapamos. Jantamos num italiano. Bom café. Saímos para dar uma volta e somos abordados mais duas vezes. Sempre africanas. Não desistem fácil. São 01.30 de dia 27/02 e voltamos ao quarto para dormir.



27/02

Acordo às 10.30h, banho e rua à procura de pequeno almoço. O mano há-de vir atrás. Comemos e vamos dar uma volta a pé. Compramos charutos e cigarrilhas. Almoçamos à pressa, pegamos nos sacos, apanhamos 1 táxi para o terminal de Guaguas (autocarros lá da terra), Bus para o aeroporto. São 14.30h e encontramos logo a tripulação. Hoje estão mais simpáticos. Ajudamos a acartar com os sacos (devem estar cheios de contrabando).
15.30h.Levantamos de Las Palmas, rumamos a norte de Dhakla e flectimos para sul ao longo da costa escarpada. Passamos a baía de Dhakla e vê-se perfeitamente “A” estrada de alcatrão que segue para sul. Aqui e ali vêem-se praias, aldeias e algumas dunas. O mar começa a afastar-se e vamos já terra adentro. Nouadibou aparece-nos à nossa direita, algo longe. A ilha de Arguin, onde estivemos (à uns séculos atrás) uma mão cheia de anos, e o começo do PNBA à nossa esquerda. Aterramos suavemente em Nouakchott. 17.30h.
O calor cá fora contrasta com o fresco do avião. Na borda da pista espera-nos um dos mecânicos do parque, com o Land-Cruiser que nos há-de levar deserto fora. Passamos na alfândega para carimbar o passaporte. 1ª e única “contribuição” extra à polícia (vim a perceber que: única, pelo facto de andarmos sempre com um veículo de matrícula Mauritana e identificado por fora «PNBA») e seguimos direito a casa, onde somos recebidos pelo guarda Francisco (Guineense de gema). Aqui durmo eu, ali dormes tu, aquelas coisas... Abancamos!


O mano vai tomar banho e tocam à porta; Abro! É o Matthieu que vem dar um abraço de boas vindas e dizer que passa mais tarde.
Jantamos em casa e eu, mesmo com os radares todos ligados, apanho praí metade do que eles dizem. Françês... já lá vão 20 anos e não era nada assim. O Matthieu regressou com um copito a mais. Nasceu-lhe um filho hoje. Parece ser um gajo porreiro e ele e o mano dão-se muito bem; Fixe! Falamos, falamos, daquilo que os preocupa (política das pescas) até às 3 da manhã.
Estou rebentado, vou dormir!


28/02

Acordo às 11.00h, o mano saíu cedo para uma reunião. Saio para tomar o pequeno almoço. Sumo de laranja, croissants e café no “Palmeraie” (Salão de chá). Vamos dar uma volta a ver o mercado.


Curioso... a sujidade é mais que muita, mas não cheira a nada. Isto é tão seco, que nada apodrece, tudo desidrata. Sejam bois ou burros, onde morrem é onde ficam, e passados 2 dias, estão como que mumificados, chupados, secos. Não cheiram mal!
Aparecem alguns (poucos) chatos a quererem cambiar. Não percebo nada do que dizem, mas não me sinto “ameaçado” ou desenquadrado de alguma forma. A seguir damos uma volta pela praia, mercado/lota e secagem do peixe, armazem do Sr. Dimas (do avião) Mais uma vez, fico admirado com a falta de “pivete”.
Vamos a casa mudar de roupa e seguimos para jantar no “Marroquino”, onde nos iremos encontrar com o “Naggi” (Monsieur le Directeur du parc). Gajo engraçado, grande cromo.


O jantar correu lindamente mas parece-me que sou olhado com estranheza, quiçá admiração/incredulidade, pelo facto de não beber álcool. “Infiel” que se preze, tem que beber e bem!
A seguir vamos os 3 tomar café a casa do Dimas. Sigo no carro do Naggi. Começa a falar da relação super especial que tem com o mano. Trabalho, respeito e amizade. Parece-me sincero, e é sempre cuidadoso na forma como fala das pessoas. Político, inteligente e alcoólico (mistura explosiva). Insiste para que não me vá embora sem passar uma noite numa festarola das dele. Chegamos!
A esposa do Dimas é uma simpatia e serve-nos bolo, bica e whiskey. O facto de não beber, continua a fazer sensação em todo o lado. Alta conversa! O Dimas (que já está na Mauritania há 20 anos) e o Naggi não se conheciam e ao princípio foi um bocado a medo, mas passado um bocado a conversa desenrola e já se fala de política, pescas e ambiente.
Voltamos para casa às 2 e tal, com o Naggi a insistir para irmos para uma farra. Declinamos educadamente com a justificação de que temos que nos levantar muito cedo para arrancarmos para o parque. Estou podre e quero-me deitar!


01/03

Acordo às 10h e o mano já saíu. Deixou-me dinheiro, as chaves e um guia para se me apetecer saír. Aproveito olhar para as cartas militares para me ambientar. Tiro algumas coordenadas. Vejo nomes de sítios. Visto assim, é canja.
Chega por volta das 15h, vamos ao super fazer compras, passamos no escritório para levantar dinheiro à “Oumo Kalssum” (secretária). Tchh! A mulher é linda!
Faire le plein. Carregar 3 Guardas que irão connosco até algures no parque e bazar.
Conduzo eu!
Pneus vazios a 1.8, Land-Cruiser bem carregadão de compras, bidons, computadores para largar em Nouadibou, garrafas e depósito de água de 200 l no tejadilho.
São 17.10h.Ainda dentro de Nouakchott, saímos do alcatrão. O carro vareja bem. Se bem que ele diga que é mesmo assim e que não há problema. Não confiar! Vai ter que ser feito com muito cuidado, porque para além do trabalho que dá voltar a pôr um bicho destes em pé, o pior de tudo é, que se por um azar meu, enterro o carro ou o deito, o Sr. “Conservador do PNBA”, irá com toda a certeza relembrar-me o “feito” pró resto da vida; Além de (imediatamente e com todos os pormenores) espalhar a “vergonha” por todos os amigos e conhecidos por esse mundo fora. Olhos bem abertos portanto!
Meia dúzia de quilómetros andados e entramos na Nacional 1. Coisa estranha, porque tenho que andar a ziguezaguear pelo meio do pessoal que está deitado nas toalhas e pelos que vão e vêm do banho. Estamos em plena praia da capital, e é por aqui que vamos circular durante os próximos 200 ou 300 quilómetros. Tem sinalização e tudo!


Maré baixa e a pista, mais lisa não podia ser. Papamos kms, cruzamo-nos com outros carros e convêm fazer pisca à distância, de forma a que eles percebam de que lado vamos passar. Aqui passa-se pela direita, pela esquerda, seja no alcatrão ou na praia, seja nas ruas da capital ou seja onde fôr. Total anarquia viária à qual me enquadro na perfeição. Vale tudo, mesmo!
Consegue-se 90/100 na “boa” sem tracção e tenho instruções de que vai ser assim o caminho todo (desconfio).
Avisto as primeiras águias pesqueiras, gaivotas muitas e chacais.
Começa o sol a pôr-se, paramos para os guardas rezarem (é a última do dia). Voltamos a andar e passado pouco, chegamos a “Memghar” (lê-se memrrar). Vamos dormir por aqui, numa casa do parque. Ainda fazemos mais uns kms, para ir á ponta (cabo) ver o radar, mas . . . está tudo alagado e um dos guardas diz que é por causa das marés.
Avanço com extrema precaução, mas o chão está suficientemente duro (acho eu) e pode-se avançar (lá atrás, reza-se em surdina, como que antecipando a desgraça). Lá à frente as luzes de um carro. São guardas que vêm (a medo) do radar; Paramos a conversar. Trazem 3 Senegaleses (São miúdos que não podem ter mais de 15 anos e que saem para o mar nas pirogas, durante dias. É até encher. Transportam consigo um fogareiro, carvão e como única protecção, uma capa de plástico. Sem comentários!) e peixe que apresaram (a piroga ficou ao pé do radar). Parece que já temos jantar.
Voltamos para trás directos ao posto. Descarregamos tudo. Dividimos comida que trouxemos. Eles amanham o peixe. Escrevo. Trazem chá por três vezes; É óptimo! Um deles trás água para lavarmos as mãos, uma toalha que estendem no chão, um “prato” enorme cheio de arroz com couves, cenouras e pedaços de peixe grelhado. Somos 4. Eles comem com as mãos e custa-me olhar. Faz-me mais impressão do que eu imaginava. Acabo por comer na boa.


Começamos a falar, e pasmo (eu e os meus preconceitos!) com o discurso claro, rebuscado até, perfeitamente inteligível que se gera (crise mundial?!, repercussão “in loco?!”, recessão?!, bolsa?!, etc).
Mauritânia, 150 km pela praia a norte de Nouakchott, aldeia de Memghar, 10 casas, todos negros. Deus me perdoe, mas para mim eram todos analfabetos, básicos; E não são! Apetece-me aplaudir! Contenho-me!
Que vergonha!
Mais uma lição!
Sempre a aprender!
São 1 da manhã, estão perto de 20º e está abafado. Porta escancarada. Lua enorme. Fico sempre nostálgico. Recordo a lua do Sinai. Já se dorme.





02/03

08.30h, acordo, está tudo silencioso, no entanto as pessoas movimentam-se, mexem-se, trabalham. Mas não há barulho. Trazem-nos o pequeno almoço (não contava com esta). Recomeça o chá. Que bom. Fico com a impressão que poderia substituir (na perfeição) o café pelo chá. Esqueçer o café... será possível?
Carregamos o carro e vamos ao radar. De seguida passamos por uma das várias famosas “Concheiras”; Esta, é património da humanidade e é enorme. Quantas pessoas terão trabalhado/vivido aqui? Muitas e há muito tempo, quando isto era o Delta do “Rio Senegal” (será??).


Seguimos para norte. Afastamo-nos do mar e começamos a atravessar o 1º cordão dunar, (glup!) o “Azefall”, em direcção a “Tessit”. 1º susto na areia mole. Foi muito rápido, ligar a tracção, um diz-me: vai por ali;
Outro diz: vai por aqui;
Fui pelo meio. Passou à conta!
Depois é um suceder de areias moles e lamas húmidas. Gaita! Tornamos a apontar ao mar e paramos numa aldeia “Imraguen”. Vamos a casa, não do, mas sim da “Mulla” (espante-se). Uma mulher chefe de aldeia num país muçulmano. Duas horas, 3 chás e muita conversa depois, partimos.
Muitas águias, falcões e algumas aldeias depois, paramos em “Iwik”, o parque tem aqui outra estação onde além do pessoal, estão biólogos holandeses a estagiar. Conversa puxa conversa e deixo-lhes o meu guia de aves, emprestado, com a condição de me ser enviado qualquer dia. Oremos!
É tarde e partimos em direcção a “Arkeiss”, “Cap Timiris”. 1ª colheita de areia (as lembranças que vou levar). No GPS leio:
N 20º 07. 569’, W 016º 15. 377’.
São 20h, já é de noite e vamos à pesca para o jantar. Descarregamos os sacos para dentro de tendas que já estavam montadas (camping grátis, é só chegar e usar). Pegamos na cana, isco e lanternas e lá vamos nós pelas rochas, lá para a ponta do cabo. Não se vê nada. 15 minutos de caminhada. Ao fim de uns minutos temos peixe. Dou-lhe com a lanterna e grito: É um tubarão . . . não, é uma tainha . . . não, gaita, é um peixe gato, com quase meio metro. Não serve os nossos propósitos e é devolvido, incólume, à procedência. O mar está agitado e a maré a subir; Daqui a nada já não passamos. 21.30h. Desistimos por hoje.


Voltamos para a tenda, fazemos uma salada de atum (frustração), chá e café e ficamos à conversa a ouvir o mar a bater ali ao lado. Sexo oposto é o tema.





03/03

Levanto-me, ainda não há sol. E lá vamos nós para a pesca outra vez. Ao fim de 1 hora já temos 4 pargos e uma truta do mar (tamanho individual).
Aparece um casal francês (Anne e Franck). Estão de férias á boleia, vão para norte e embarcam connosco até Nouadibou. Carregamos e partimos. Ontem foram cento e tal quilómetros fáceis.



Hoje são pistas de pedra, alternadas com areia mole. Vou sendo instruído, pela esq, pela dir mas não vejo um único ponto de referência. Nesta zona, nem os “locais” se aventuram sózinhos, se houver o mais pequeno indício de tempestade de areia ou se fôr de noite ou se por qualquer outra razão a visibilidade fôr pouca. Na realidade, prestei TODA a atenção possível, à procura de qualquer indicador, mas fiquei sem perceber como é que fazem. Aqui, sózinho e sem GPS, não me safava!
Paramos à sombra, debaixo da acácia grande, junto da pista, (N 20º 53. 791’ - W 016º 23. 912’). Os guardas que vêm connosco, acendem o lume para grelharmos os peixes, preparamos tudo e almoçamos dentro do carro, para fugir á areia que vem tocada a vento.


Depois de comer e lavar tudo, arrancamos até “Marzouba”, para um chá. Lá fora andam vários Corvus Rufficollis e Passer Simplex à procura de migalhas. Partimos para ver se conseguimos chegar a Nouadibou antes de anoitecer.






Acelero um bocado, uma cacetada aqui e outra ali, nada de grave. Cruzamo-nos várias vezes com carros “normais”, vêm em grupos para se ajudarem nas enterradelas. Chegamos ao lusco-fusco (desde Nouakchott foram seiscentos e tal kms) e os franceses agradecem o “suave” da viagem. No dia seguinte, vão apanhar o comboio do minério para “Zouerat”, (famoso por ser o comboio mais longo do mundo. Tem duas classes?!? - 3ª classe, tudo á molhada, ou então à borla em cima da carga), e daí, de táxi novamente para Nouakchott.
Venho a saber à posteriori, que a viagem foi alucinante.
1º- Nouadibou – Zouerat. Em cima do (vagão do) minério mesmo, são 15 horas de inferno, com:
Pó de minério no ar, mais o pó do deserto para ajudar, mais o sol escaldante para alegrar. Há quem faça esta viagem, de máscara de mergulho, mais uns quantos filtros na boca. Um mimo! Além do mais, acabaram por adormecer e em vez de saírem em Zouerat, acordaram no fim da linha, e lá tiveram que regressar à cidade, à boleia.
2º- Zouerat – Nouakchott de táxi. Devo 1º explicar o que é um táxi. Táxi = Pick-up de caixa aberta, onde neste caso específico, viajaram 18 pessoas, que subiram para cima da dita depois de a mesma ter sido carregada até à altura de três metros e tal, com sacas de cenouras. Logo, nunca se sentaram, mas antes foram o caminho todo agarrados à carga. Tudo isto (viagem paga) durou 22 horas, e ainda tiveram uma saída de pista porque o condutor adormeceu.
Sem comentários!
Em Nouadibou ficamos em casa de espanhóis (biólogos que estão a monitorizar a colónia de Foca-Monge existente numas grutas em território Saaraui, ali perto), e jantamos todos no “Chinês” (1880 oughias). Portugueses, Espanhóis e Franceses. Fico do lado dos franceses e falamos de música, “alteradores de humor”, beber ou não beber, da intolerância que grassa por todo o lado, etc. Trocamos moradas e deixamo-los num “auberge”. Bonne chance!



04/03

Conforme combinado com o Pablo, acorda-me às 07.30h. Finalmente tomo banho. Café e bolachas maria, saímos para “ir tomar conta” da foca monge que soltaram à uma semana e que foi criada de bébé, depois de terem encontrado a mãe e mais dois terços da colónia, mortos, aparentemente por uma maré de algas vermelhas.
Avançamos para a praia (já no Saara-Ocidental) onde ela ficou a dormir ontem, e procuramos em vão. Está um pescador lá mais para baixo...não viu. Continuamos para sul, e de repente, ei-la! A brincar na rebentação. É linda! Toda cinza, com brilhos quase azuis e tem um transmissor montado na cabeça; Coitada! Aproxima-se, afasta-se e desaparece. Vamos atrás dela, sempre de longe e passamos a manhã nisto.
Esta, foi apanhada com 3 dias de vida e nunca conheceu qualquer outra foca (ainda), inclusivé as da colónia de onde ela veio que habitam a norte de onde estamos neste momento. Cresceu num centro de recuperação no Cabo Branco, onde trabalham outros biólogos holandeses. Tem quase seis meses e está gorda e linda.
Pela hora do almoço aponta a uma enseada, junto a umas rochas, sobe pela areia e põe-se a dormir uma sesta. E nós idem!



Às 15.00h chegam os outros espanhóis. Uns vêm-nos revezar, os outros vão montar umas câmaras de filmar dentro das grutas onde mora a colónia. Ainda sobrevivem cento e tal focas-monge nesta zona.
De volta a Nouadibou e partimos para o sul da península, Cap Blanc, onde deparamos com um macho velho de foca-monge, entretido à pesca no meio de redes ilegais (5 km de redes com peixe e lagostas qb) e que viriam a ser apresadas dois dias depois. É enorme e a uma dada altura, aparece á superfície com um polvão na boca. As pernas do polvo ultrapassam e envolvem a cabeça do bicho, mas á terceira tentativa, é engolido, vivo, claro está.
No ponto onde presenciamos esta cena, existe um marco de pedra com um “E” de um lado e um “F” do outro. Outrora Espanha e França, hoje Saara Ocidental e Mauritãnia.
Voltamos a Nouadibou e vou a um Ciber-Café, tentar abrir o mail. Tentar, é o termo correcto, porque desisto, sem ter conseguido abrir uma única msg. Em 2 horas (130 minutos para ser mais exacto), consegui chegar à página do hotmail. Traumatizante! E falamos nós de lentidão na net!
Meio a tremer ainda com a experiencia, vou ter com o mano ao escritório e saímos para ir ter com o Philippe (françês das pescas), à casa dele em “Cansado”. Casa fixe! Jazz, pinturas, pontas de flexas, pedras. Saímos para jantar no Restaurante Espanhol em Nouadibou e a namorada dele vai lá ter. Ligamos ao Dimas para saber do avião e...gaita, vou ter avião amanhã às 08.00h. Ora pôrra, já tinha metido na cabeça que a viagem não acabava aqui...ajudar o mano a apresar as redes de pesca que vimos no cabo, voltar a conduzir até Nouakchott, passeatas de barco, tanta gente simpatica para conhecer, tanto para fazer. Merda! Não sou obrigado a ir...mas...fico ou não fico?!. Tenho trabalho à minha espera ou não tenho?! Maldita consciência! Volto para casa que remédio!
Deixamos o Philippe e a namorada em casa dele, vamos ao super (aberto até à meia noite) comprar coisas para comer no avião e vamos para casa dormir.


05/03

Acordo às 07.00h. Banho frio à pressa, com café e bolachas Maria. No aeroporto, paramos na polícia e peço para me carimbarem a saída. Está a tocar uma cassete com música da que eles houvem de manhã à noite. È gira! Pergunto se há no aeroporto alguma loja onde possa comprar música deste tipo e o polícia diz que não, mas que não se importa de me vender a cassete. Ok! Quanto é, pergunto. Dê aquilo que quiser, responde. Entre mim e o mano (em trocos) temos 450 ouguyas. Aceita!
08.0h, esqueci-me dos presentes que comprei e juntei. O mano volta a correr ao escritório para os apanhar. Entretanto carregam o peixe no avião. Ainda chega a tempo de fumarmos um cigarro.
Despedimo-nos um bocado sem jeito como de costume e lá vou eu. Neste vôo, para variar, são todos russos. Um deles, diz-me para meter as beatas numa lata de cerveja que está agarrada à roda suplente. Ok!
Lembro-me agora que não tirei fotos à bandeira nacional. A máquina (oferecida à última da hora por um amigo. Obrigado Jorge!) é óptima. Está um dia lindo. O vôo vai indo muito bem e o tipo de à bocado, aproxima-se e oferece-me um café que aceito, claro. Adormeço um bocado e acordo com os pés gelados, no momento em que o russo simpático me vem trazer mais um café. Trocamos cigarros. O dele é “Optimal”. Fuma-se bem. Já ressaco Mauritania. Apetece-me voltar quanto antes. O café está quentinho e eu venho a espreitar pela vigia. Mais uma hora e chegamos à realidade.

Je ne voie que de la merd ici!

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Comentário de Jorge Saraiva em 13 Setembro 2010 às 15:20
Muchas gracias
Comentário de Sandra Nascimento em 13 Setembro 2010 às 15:17
Gostei muito do seu diário de viagem.
Comentário de Marina Soares em 26 Julho 2010 às 19:05
Estão óptimas! O sinal de curva ali no meio do nada está lindo... Aquele jipe está a fazer-me lembrar de outro deserto. Também vou visitar o meu baú e depois dou notícias.
Comentário de alvaro reis em 26 Julho 2010 às 13:37
Excelente, afinal não era assim tão dificil.
...E com fotos o artigo fica ainda mais interessante:)
Abraço
Comentário de Jorge Saraiva em 26 Julho 2010 às 12:10
Obrigado Álvaro. Não estavam pesadas mas mesmo assim ainda as baixei para 60 a 80 kb e entraram na boa. Abraço
Comentário de Jorge Saraiva em 26 Julho 2010 às 11:53
ok Alvaro obrigado vou tentar essa hipotese
Comentário de alvaro reis em 26 Julho 2010 às 0:50
Jorge
Pode adicionar fotos na sua galeria de fotos ou no proprio Blog. Funciona com qualquer blog, pelo que pode voltar a editar o artigo e incluir as fotos no proprio artigo - basta clicar no icon da maquina fotografica - Veja a imagem em baixo.
Nota: as fotos não devem ser muito pesadas.

Comentário de Jorge Saraiva em 24 Julho 2010 às 14:14
Expedito?! Expedicto?! Expedícto?! xiça, rais parta o ti alzeimer!!!!!!!!!!!
Comentário de jose querido vicente em 24 Julho 2010 às 13:47
Acredita . tu consegues. :)
Comentário de Jorge Saraiva em 24 Julho 2010 às 11:42
Peço desculpa de não responder atempadamente mas tenho andado por outras bandas. Voltei a tentar inserir fotos através do link amavelmente enviado pelo "MyGuide" e nada. Consegui chegar a meter as fotos dentro da caixa mas entretanto a opção de "gravar" desaparece. Não percebo se é borreguiçe minha, tua ou de quem a apanhar hehehe. Só mais uma coisa, as fotos deste texto são de má qualidade, contráriamente aquilo que o JQV diz, valem sim por serem de sítios especiais, só isso. Quem dá mais uma ajuda? Ou mando as para algum e-mail de alguem mais espedito do que eu?

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