GASTRONOMIA: 180 Anos da Cervejaria Trindade, um assombro de comemoração

Três fantasmas, vários estórias, um mistério desvendado: a cervejaria mais antiga de Portugal celebra 180 anos de sucesso.

O desafio foi lançado…Comemorar 180 anos da Cervejaria Trindade com a receção dos fantasmas que fazem parte da história desta casa. Em conjunto iriam contar as estórias deste espaço, antigo Convento da Santíssima Trindade, com mais de 800 anos de história. Só não esperávamos que algumas delas fossem, além disso, contadas em vida por alguém especial…

Sem medo de espíritos aceitámos o convite.

Santíssima aparição

Instalados no claustro do antigo convento, local da atual esplanada da cervejaria, somos surpreendidos pela Rainha Santa Isabel. Num tom recatado e calmo, característico de uma senhora do seu tempo, vem apresentar o seu testemunho enquanto rainha portuguesa e fundadora deste convento. Tal como estes frades, a rainha santa, galega de nascimento, sentiu que a sua missão era para com Portugal, difundindo a reconciliação, o perdão e a paz. Uma lenda acerca deles fê-la acreditar nesta semelhança: já dentro dos barcos, prontos a partir para Roterdão, os frades não foram capazes de iniciar a viagem. Os barcos não se moviam. Porém, mal voltaram a terra, estes começaram a navegar sozinhos. Foi o sinal necessário para perceberem que a sua missão seria em terras portuguesas.

Em tom celestial e andar esvoaçante, conduz-nos ao salão principal.

 “Bem-vindos a minha casa”

 Do alto do púlpito, Manuel Moreira Garcia, fundador deste espaço, um espírito bem-apessoado e cheio de boa disposição, desdobrava-se em boas vindas. Convidava todos a entrar em sua casa para falar da sua história e da paixão pela cerveja e por Portugal.

É assim que ficamos a saber que ao longo dos tempos o Convento da Santíssima Trindade sofreu inúmeros acidentes: um incêndio, tremores de terra, e até mesmo o Terramoto de 1755. Em risos, Manuel Moreira Garcia explica a origem da expressão: “Caiu o Carmo e a Trindade”. A extinção das ordens religiosas em 1834, tornando este um local desacreditado, permitiu que se arrendassem aqui, em 1836, dois lotes de terreno. Ergue-se assim a Fábrica de Cerveja Trindade, juntamente com um balcão de venda direta ao público da sua produção. Era o início do sucesso.

A sua popularidade conduziu à necessidade de expandir o espaço, para o que é hoje o salão principal em que nos encontramos, área do antigo refeitório dos frades. Manuel Moreira Garcia, industrial galego com ideais maçónicos, decora este espaço com azulejos condizentes: elementos fundamentais da natureza, estações do ano, indústria e comércio, e os leões, símbolo da cervejaria (sinalizando a força e a vitalidade necessárias a qualquer empreendedor). “Ferreira das Tabuletas” foi o encarregado deste trabalho.

Muito feliz por estar novamente em sua casa a receber convidados, despede-se relembrando que a maior relíquia que daqui levou foi a boa receção dos portugueses.

Amor ao primeiro gole

A última aparição ainda estaria por vir… no lugar mais fundo do restaurante, na sala Maria Keil, surge em silêncio e macambúzio João da Barateira. Reservado, a muito a custo começa a falar.

Foi o cliente mais assíduo da história da cervejaria. Desde os 19 anos, até à sua morte, não houve um dia em que não viesse à Cervejaria Trindade. Ficou conhecido por este nome por trabalhar na livraria Barateira no Chiado. 

Era já uma atração da casa, apesar de nunca querer ter dado entrevistas. A intimidade era tal que se houvesse atrasos a servir a sua “girafa” preta, ou se esta viesse mal tirada, servia-se a si mesmo. Girafa foi o apelido que deu à sua sagrada cerveja, chegando a beber até 25 destas das sete da tarde às duas da manhã. Todas as noites vinha beber, fazendo desta casa a sua esposa.

“Hoje tens falta”, diziam os empregados em tom de brincadeira sempre que chegava atrasado. “Foram tantas as noites a virar cervejas, que tenho um calo na mão”, afirma Barateira estendendo-a aos convidados.

Saudoso recorda os momentos emblemáticos que aqui viveu: as gargalhadas de Amália Rodrigues, de Rui Veloso e dos UHF, bem como as alegrias de outros grandes vultos da cultura e da politica portuguesas.

Morreu aos 81 anos, sem barriga ou cirrose, sendo o seu funeral oferecido pela “Central de Cervejas”. Uma vela foi acesa por três dias na sua mesa habitual.

Hermínio Patrício é atualmente o empregado mais antigo da casa. Com 63 anos, a única pessoa viva que nos falou até agora, diz com orgulho que 39 foram de serviço aqui prestado. É ele que fornece mais detalhes sobre o famoso João da Barateira, ao mesmo tempo que recorda outros episódios caricatos que por ali passaram: o nascimento dos Xutos e Pontapés; a tentativa por parte de um cliente de entrar a cavalo; o cliente que todos os dias comia um bife à trindade e todos esses dias lhe punha defeitos; ou ainda, no tempo em que não era servida comida, os estrangeiros a instalarem-se nas mesas com os seus farnéis. Um conjunto inesgotável de momentos que nunca poderá esquecer.

O mistério…

O segredo destas paredes havia sido revelado por todos os intervenientes: a manutenção das raízes históricas do local, da cultura que representa e apreende e a defesa das tradições são o desvendar do sucesso e longevidade desta cervejaria que é parte da história da cidade.

Há nove anos a cargo do grupo Portugália Restauração, foi em 2014 que se deu a grande aposta num novo conceito da marca. Foi feita uma consolidação da raiz histórica do espaço, privilegiando a identidade santa do espaço: novo logótipo, mesas e bancos corridos em madeira remetendo ao mobiliário do refeitório dos frades, música gregoriana como som ambiente e ainda trajes de monge que são vestidos pela gerência.

As portas estão sempre abertas a quem quiser entrar, até mesmo a grupos turísticos em visitas guiadas para observar o interior. Maria Martins, da direção de operações e Marketing do grupo Portugália, afirma que esta é uma das políticas de conquista de novos públicos, sobretudo de jovens portugueses. "Na década de 80 este era “o” restaurante do Chiado. Mas hoje em dia a oferta é muito diversificada. E aquela aura do período boémio deixou de ser conhecida do público nacional". Com uma grande maioria de clientes estrangeiros, Maria Martins acredita que é possível atrair ainda os jovens nacionais a esta casa com tanta história. Questionada sobre a hipótese de voltar a existir uma produção artesanal de cerveja com o nome da casa, a responsável de Marketing afirma que “tudo é possível”.

Com a ajuda das brilhantes interpretações de Carla Salgueiro, João Carracedo e Marco Pedrosa, os três bons fantasmas, ficámos por dentro da história desta casa e dela saímos com a certeza de que continua pronta a escrever novos episódios.

Maria Carlota Soares da Veiga

Rua Nova da Trindade, 20C Lisboa

Domingo a quinta das 10:00 às 24:00
Sexta, sábado e vésperas de feriado das 10:00 à 01:00

Contactos: (+351) 213 423 506; (+351) 939 900 844

Site:http://www.cervejariatrindade.pt/

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