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 De repente foi como se os astros, em jeito de ensaio para 2012, se tivessem alinhado.

Tudo começa durante o primeiro café da manhã. Um ritual obsessivamente cumprido e sempre acompanhado pela leitura do diário de maior distribuição do país, que ao Domingo nos “compra” com aquela revista onde as imagens são bem mais do que as letras. Um implícito convite, como que dando o mote, à mais que esperada ociosa inactividade durante aquele que é o Dia do Senhor. Depois … bem depois é aquele indiscreto e “abusivo” tomar de atenção ao diálogo que acontecia na mesa do lado. Inocente e perigosa conversa que se inicia sempre com um “que fazemos hoje?”. Interrogação que em regra encontra sempre resposta pronta no próprio inquiridor. E aqui o alinhamento celestial encontra o seu ponto de não-retorno. A pergunta fica-nos no espírito e já nada se pode fazer. E acabei por me encontrar tomado de assalto por uma efervescente recusa à domingueira entrega ao dedilhar do velho comando de TV. Ociosamente aguardando pela indesejável, maldita e inevitável segunda-feira.

 

Consciente deste privilégio que é sermos, como dizia o poeta, “um jardim à beira mar plantado” e com a imaginação, já não muita, a funcionar em modo económico até porque se cumpre o ocioso Domingo, dia em que grandes e laboriosos esforços acabam por ser, e que me perdoem os mais convictos crentes, “atentatórios” à nossa fé cristã, a decisão acaba por ser … rumar ao Mar. Ir à praia. Matar saudades do aroma da água salgada e da areia nos pés.

 

Foi como se astros de tivessem alinhado.Rumar ao Mar e tentar “matar” o Domingo. Uma firme e convicta decisão. Argumentada ainda com um irónico “desmentiremos todos aqueles que nos acusam de nunca levarmos nada até ao fim! Vamos à praia!”.

 

 

Sim é fora de época mas a ideia agrada.

Confesso gostar das solarengas tardes de Inverno. Estas curtas tardes em que, apesar da enganosa ausência de nuvens, um tímido Sol ainda não traz consigo aquela mui nobre, sempre valorosa mas pouco sensata coragem que nos leva a pensar, de em casa, se deixar aquele chato casaco que a razão nos obriga a trazer fechado até ao último botão mas que o mais puro idealismo, por alguns segundos, nos faz ponderar, mesmo antes de enfrentar o ainda persistente frio, a abandonar, só por esta tarde e ainda teimosamente lutando contra o bom senso, o mesmo escondido numa velha cruzeta dentro de um monótono armário que hoje, mais uma vez, tal como em tantos outros dias, revela uma insuficiência atrozmente avassaladora.

 

Teimosamente lá ficou e eu parti rumo à costa portuguesa. Para onde pouco interessava. Importante sim era matar saudades. E "matar" o tempo livre.

 

Estava escrito nos astros. Não haveria de terminar o Inverno sem um último teimoso pingo no nariz. Mas que se dane … valeu pela tarde e pelo aroma a água salgada ( enquanto o ainda pude desfrutar ). Quanto à areia … bem quanto à areia, decidir conduzir de regresso a casa descalço, deixando os quilos que comigo trouxe nos tapetes do carro. Recordação de uma tarde de Inverno.

 

Lição a reter deste dia: troco de bom grado o meu mais recente pingo no nariz por uma qualquer tarde invernosamente solarenga junto ao Mar. E você?

 

 

1 foto deAnabela Luís, pertença do Arquivo da Câmara Municipal de Almada, Janeiro de 2005.

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Comentário de Luis Marques Cotonete em 31 Março 2011 às 16:32
Tardes de sol em dias de inverno proporcionam passeios que lavam a alma e nos enchem de energia. É o que temos de melhor.
Comentário de Vânia Meira Castanheira em 31 Março 2011 às 15:08
saudades do meu Portugal!
Comentário de Isa Batista em 9 Fevereiro 2011 às 20:47
De facto não existe nada melhor que um passeio à beira-mar em tardes solarengas e, quem como eu vive perto do mar, seja Domingo ou não, apetece sempre sentir o cheiro do mar....
Comentário de Pedro Castanheira em 7 Fevereiro 2011 às 12:39
Não podia estar mais de acordo, não há como desfrutar melhor o ócio de um domingo de inverno solarengo. É a cor, é a temperatura amena que se faz sentir, puchando por toda a nossa preguiça e terminando numa espreguiçadela merecida. Não existe melhor de estar.

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