GASTRONOMIA: Tascas ao Sul - Viagens pelo meu país, o Alentejo II

O meu destino de hoje é a bela vila de Cuba, terra de pão, do vinho da talha, de tascas e de touradas. A Taberna Museu do Joaquim Fitas é um dos meus apeadeiros - espero que nesta minha quarta visita a terras que dizem serem de Colombo se encontre aberta -, à Casa Canavial e à Adega Monte Predal, do amigo Soudo, onde degustara, no dia do seu aniversário, um leitão à moda do Alentejo dífícil de esquecer. Para não variar a taberna do Joaquim Fitas está encerrada. Sob o sol alentejano, 41 graus informam-me, desço à Rua da República, rua que abriga a Casa Canavial.

José Sousa, diz-me o seu filho a fazer de taberneiro, está a matar a sede na adega do Soudo. O calor, a sede particularmente, assim como as pernas recusam-se a sair do local. Enquanto viro de uma assentada um branco engarrafado, fresco e suave de seu nome Água de Luso - que escandaliza a dezena de "residentes" do Canavial -, sirvo-me do telélé para me fazer anunciar a Sousa: «Amigo Sousa voltei a bater com as ventas no Joaquim Fitas, e assim sendo já estou no seu tasco». Sousa sugere-me que desça os 50 metros que separam a Casa Canavial do Monte Predal, pois está de copo cheio e de garganta afinada numa sessão de cante com a irmandade copofonia cubana. Responde-lhe que de água e calor não me faço movimentar. Acertamos o encontro para dali a quinze minutos, o que no meu Alentejo, significa uma horita.

Aproveito para tirar alguns "bonecos" aos "residentes" e à bela Igreja de Cuba. Completa a tarefa junto-me aos "residentes" instalados nos dois bancos de madeira corridos que ladeiam a porta principal de entrada. A muito custo, e apenas depois de ter trocado a água por um cagão (o penalti cubano) de tinto da talha - refira-se que estou no "País das Uvas"  de Fialho de Almeida (Vidigueira, Vila de Frades, Cuba, etc) -,  tomo conhecimento com Ti António "Tiro Certo". Ao ver-me enrolar um cigarro dá-me a conhecer a sua voz: « O amigo é fumador de de onças de tabaco?». Aceno-lhe que sim.

- É da crise ou dá-lhe gosto? Ambas, anui. «Pois, são os tempos», diz-me com o olhar, e o copo vazio.

Pergunto-lhe se bebe outro. Diz que sim, assim como os outros convivas sentados no banco, até ali em silêncio. Regresso com três mini's e dois cagões. Língua solta enche-me de narrativas dos "bons velhos tempos": «Quando os sacos de estopa e de sisal já estavam ratados e impróprios para o trigo, não os mandávamos fora, como agora se faz. Eram aproveitados, sobretudo pelos carvoiros, para transportar o artigo da sua produção». Interrogo-o a razão de tal história. «Homem deixe-me acabar a história dos sacos». Continua. «Tinha uma compadre meu, carvoeiro de afazer, que lhe deu umas valentes dores no assento depois de engolir um dente. Ao dar ao corpo (evacuar) ao "alimpar-se" numa saca, naquele tempo era o que estava à mão, sentiu preso lá dentro e magoando-o. Teve que ir ao médico, pois cada vez que tentava soltar o malandro, ao "alimpar-se" ficava danado de dores. Afinal não era do dente que lhe vinham as tormentas, mas sim dos residuos de carvão das sacas», conclui com um sorriso maroto.

Sousa é um alentejano jovial, de Odivelas, Ferreira do Alentejo, que tinha um sonho: ser proprietário de tasca. «Todos os dias desloco-me de Ferreira para Cuba pois não tenho empregados, mas quando surgiu a oportunidade de comprar a casa não hesitei. As tabernas, o povo que as frequenta, a beleza de um cante que sai de improviso das gargantas dos homens, sempre me fascinou. É esta tradição. que lentamente tem vindo a desaparecer, que me faz deslocar todos os dias pois não a quero ver morrer».

A Casa Canavial é uma casa modesta, exemplo perfeito das antigas tabernas alentejanas. A sala de entrada tem quatro mesas de madeira, completadas por bancos baixos no mesmo material. No momento duas encontram-se ocupadas. Numa quatro homens jogam à sueca, na outra, um idoso mantém um monólogo com o cagão. Passo a outra sala, um estreito corredor com mesas ao corrido, decorada com utensílios agrícolas, e canas de canavial. Ao fundo a cozinha.

A carta resume-se a dois pratos: feijoada de porco preto e uma excecional "granada", bem fornecida de carnes (frango, borrego, enchidos). Na vertente dos petiscos, servidos na taberna , os tradicionais carapaus de escabeche, feijão com ovo e bacalhau, moelas, enchidos e queijos regionais.

Os preços assemelham-se às reformas dos trabalhadores rurais. Para os habitantes de Cuba a fabulosa "granada" vale um euro e meio.... Sim, é verdade. Uma pratada de "granada" 1.50€. Para os visitantes (não se choquem) 3€. Por três euros comece-se excelente e bem elaborada e condimentada cozinha no Alentejo...E não é longe de uma auto-estrada perto de si.

Para aqueles que julgam há muito ter desaparecido o cariz social das tabernas em Portugal, basta deslocarem-se à R. da República, nº8, em Cuba, marcando mesa pelo 968 319 708.

Quando me despeço, José Sousa brinda-me com traçadinho de ginja, uma explosiva mistura de de aguardente caseira com ginja. Aconselhado a quem pernoitar por perto...a GNR é mesmo ao virar da esquina.

 

 

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