VIAGENS (lá fora): Japão sem guião - parte II: Nagoya e Takayama

Voei para o Japão a partir de Helsínquia. Depois de já 5 horas de viagem a partir de Lisboa, ainda me aguardavam outras 10 até Nagoya. Assim que me instalei no meu assento reparei na rapidez com que 90% dos japoneses se descalçaram, guardaram os seus sapatos e calçaram flip-flops. Porque não tinha eu pensado no mesmo? Segui-lhes o exemplo e tirei os sapatos, o que ajudou a tornar a viagem muito mais suportável.

Nagoya


Aterrei em Nagoya, a 3ª maior cidade japonesa, aonde iria estar pelo menos 3 dias numa conferência. O aeroporto fica situado numa ilha artificial ao largo da cidade e de lá apanha-se um pequeno comboio até terra firme, que nos leva até ao centro da cidade. Pelo caminho atravessamos uma zona periférica da cidade, que é um autêntico labirinto de pequenas casinhas de madeira e carros pequenos em garagens minúsculas, quase parecendo que estamos a passar por uma aldeia de bonecas em vez de a chegar a uma grande metrópole. De repente a espreitar por entre as árvores, no topo de uma colina, uma enorme estátua de Buda. Mais um pouco e chegamos à grande estação de Nagoya, com as suas duas torres imponentes.
Tinha reservado estadia num riokan (estalagem tradicional japonesa) a cerca de 1 km da estação de comboio no centro da cidade e estava ansiosa por lá chegar e descansar o corpo de uma viagem esgotante. Era meio do dia, mas para o meu relógio biológico eram perto das 2 da manhã e o jet lag estava a apoderar-se de mim.
Na estação de comboio estranhei ver placas bilingues em japonês e português. Seria do sono? Continuei a ver sinais traduzidos em português um pouco por todo o lado, até que mais tarde descobri dever-se à existência de uma grande comunidade de brasileiros em Nagoya. Curiosamente não conheci nenhum brasileiro, nem sequer ouvi alguém falar português, mas eles andam por lá.
Á chegada ao riokan, comecei logo a ter problemas de entendimento, primeiro porque o senhor que estava na recepção não falava inglês e segundo porque pousei o dinheiro no balcão em vez de o entregar respeitosamente com ambas as mãos ao senhor, como ditam as boas maneiras japonesas e isso parece ter perturbado um pouco o meu anfitrião.
Comecei a pensar que esta coisa de vir ao Japão ia ser mais difícil do que inicialmente previsto. Mas ele lá me levou ao meu quarto e apeteceu-me bater palmas de excitação, quando vi o chão coberto de tatami (tapetes de bambu), quatro futons no chão (porque iria ter que partilhar o quarto com quem mais viesse, à boa maneira japonesa), um armário cheio de quimonos para os hóspedes se porem à vontade e um enorme LCD onde percorri dezenas de canais japoneses cheios dos programas absurdos que só eles conseguem fazer. Foi então que senti verdadeiramente que tinha chegado ao Japão!

Mais tarde foi-me explicado que o riokan também dispunha de onsen (banhos termais japoneses) de acesso livre e que até podia tirar uma fotografia souvenir à entrada do onsen em quimono. Infelizmente durante a minha estadia no riokan e devido aos meus muitos compromissos, não cheguei sequer a ir espreitar o espaço quanto mais a usufruir dele.
Na primeira tarde só saí para ir comprar algo que comer e depois adormeci por longas horas.
No dia seguinte, dei as boas-vindas a um colega de quarto, um rapaz francês com uma história de partir o coração. Tinha-se apaixonado por uma japonesa que conhecera na faculdade e nunca lhe dissera o que sentia por ela. Ele tinha ido de propósito ao Japão para a surpreender com uma declaração de amor, mas quando lhe ligou a dizer que estava no Japão e a perguntar se podia encontrá-la, ela dissera-lhe que não podia, porque o seu cão estava a morrer e não estava com cabeça para lidar com mais nada. Ele estava completamente desolado - tinha atravessado meio mundo para a ver e não entendia como é que o cão podia ser mais importante. Eu até compreendia, mas tentei confortá-lo, dizendo-lhe que não ficasse ofendido, mas que se mostrasse solidário com o sofrimento dela. Nunca soube como terminou a história dele, porque ele seguiu para outras paragens.
Nagoya não é das cidades mais turísticas, no entanto tem suficientes atracções para nos manter ocupados por dois ou três dias. Tem um castelo muito bonito rodeado por um fosso gigante, no meio de um parque lindíssimo.

Decorriam obras de reconstrução de um palácio grandioso em madeira dourada, que outrora rodeara o castelo. Como homens da engenharia que são os japoneses, o estaleiro também estava aberto a visitas,para observação do andamento das obras. O que vi abriu-me o apetite para lá voltar um dia que o palácio esteja reconstruído. No parque fui brindada com uma exibição de dezenas de bonsais vencedores de um concurso. Eram belos e grandiosos e pareceram-me bem mais impressionantes que todos os que eu já vira noutras paragens, ou não fossem os japoneses os mestres desta arte.

Numa pequena casa de chá escondida numa zona menos visitada do parque, fui descobrir uma exposição deliciosa de bonecos de papel, em longos metros de vitrinas, representando um qualquer desfile histórico marcante (lamento, mas não recordo os detalhes). Havia samurais de diversos clãs, cavaleiros, monges, senhoras da burguesia, cortesãs e todas as figuras tinham um tal detalhe e perfeição, que era difícil acreditar serem feitas de papel.

Não longe do parque há um teatro Noh, onde se pode visitar livremente um pequeno museu sobre esta arte, as suas origens, variantes, técnicas. Lá assisti a um filme de uma peça representada naquele teatro. Não entendi uma palavra, mas consegui captar as emoções da peça e ri-me bastante, pois a comédia é uma linguagem universal. No final tirei fotos usando diversas máscaras noh, que estavam à disposição para serem experimentadas pelos visitantes.

Em Nagoya há um famoso museu de indústria e tecnologia da Toyota, que curiosamente não é apenas sobre carros, porque a Toyota antes de fabricar carros, era uma indústria têxtil! Achei piada quando soube disso, mas não o fui visitar. Planeava sim ir ao museu Tokugawa e passear no jardim Tokugawaen em redor, que dizem ser um deleite, especialmente quando as cerejeiras estão em flor ou quando está com as cores outonais. Mas por um engano nos transportes e alguma falta de tempo, acabei por ter de mudar de planos e ficar-me pela zona de Sakae. Embora extremamente moderna, vale a pena ser visitada. O ponto central desta área é o Oasis 21, uma estrutura suspensa em forma de disco, que por baixo alberga um terminal de autocarros, no subsolo uma vasta rede subterrânea de galerias comerciais (com um comprimento total de cerca de 2 kms) e no topo, um jardim suspenso com um lago. Verdadeiramente surreal estar lá em cima a ver os topos dos prédios e a torre de TV de Nagoya e as pessoas a caminhar nos vários níveis abaixo de nós, visíveis através do chão de vidro do lago.

Uma outra área que merece uma visita é Osu, um autêntico bazar oriental que ocupa diversos quarteirões. No centro encontra-se o templo Osu Kannon e a partir dele irradia uma rede labiríntica de lojas e restaurantes, onde se pode literalmente encontrar de tudo. Muitas das ruas são cobertas por telhados de vidro, enquanto outras estão a céu aberto. Vendedores gritam pregões à porta dos seus estabelecimentos e logo ao lado um monge acende incenso e medita à entrada dum pequeno santuário enfiado entre as lojas.
Em Nagoya decorre anualmente o encontro mundial de Cosplay (em que os fanáticos dos jogos vídeo e animação japonesa se mascaram dos seus personagens favoritos e competem pela máscara mais original) e a cidade tem por isso um grande número de aficionados deste passatempo. Disseram-me que aos fins-de-semana por vezes é possível ver grupos de cosplay a deambular por Osu, onde vão comprar os seus fatos e acessórios, figurinos de colecção, livros de manga, ou simplesmente mostrar-se uns aos outros. Infelizmente não tive a sorte de ver nenhum, pois no fim-de-semana fui até Takayama.

Takayama

Takayama é uma pequena cidade na zona montanhosa de Hida, lindíssima, rodeada por montanhas, cruzada por rios e pontes, com o seu centro histórico de casas antigas medievais, um percurso de templos e santuários budistas e xintoístas de tirar o fôlego e um festival colorido e tipicamente japonês que me disseram ser imperdível (um dos três mais belos de todo o Japão). Cheguei até lá de comboio a partir de Nagoya, já era noite. Só no dia seguinte consegui perceber onde estava realmente e a quantidade de pessoas que ali se tinha deslocado para o festival.
Nem sei como descrever aquilo que senti. Não sabia bem do que constava o festival, nem aonde me devia dirigir primeiro, portanto segui o grosso da multidão. 99% dos turistas eram japoneses e muitos envergavam os seus fatos tradicionais. Sentia-me estranha no meio deles. Segui-os por ruelas de casas medievais em madeira, iguaizinhas às das histórias de samurais que tanto me apaixonam e belisquei-me constantemente para ter a certeza de que não estava simplesmente a sonhar.

A multidão adensou-se ao chegar a uma rua onde estavam alinhados carros alegóricos fabulosos que eram afinal a razão de ser

daquele festival. Como estava um tempo fantástico, céu azul e sol, os carros estavam todos em exibição na rua e pouco depois iniciaram uma procissão pela cidade. Acompanhá-los no seu desfile foi uma oportunidade única de conhecer um pouco mais sobre os costumes tradicionais japoneses, os seus trajes, as suas músicas, as suas danças.


Parece que as origens deste festival não são bem conhecidas, mas consta que as famílias mais ricas deram origem à tradição de criar estes carros alegóricos, competindo pelo mais belo e requintado e que mais tarde essa trdição foi abraçada pela comunidade, sendo que cada "bairro" tem o seu carro e uma casa especial onde o mesmo é guardado durante o ano e preservado..
Quando dei por isso, já era hora de almoço e toda a gente se encaminhava para as ruas perto do rio, onde bancas de toda a espécie se alinhavam numa venda de comida bizarra. Comi um pauzinho de Yakidando, umas bolinhas fritas, creio que de massa de arroz e uma espécie de panqueca enrolada também num pauzinho, com recheio de vegetais e coberta de ovo e molhos indescritíveis. Provei outras coisas que nem sei descrever. Nem sabia dizer se a maior parte das coisas que via era animal, vegetal ou de outro planeta. Sei que no final fiquei agoniada com aquela mistura de sabores e texturas exóticas.
Depois de almoço todos se dirigiram ao pátio do templo principal, onde me disseram que teria lugar um show de karakuri, ou marionetas no topo de um carro alegórico. Era o ponto alto do dia e todos queriam garantir o melhor lugar. Consegui ficar relativamente bem colocada e estava preparada para ver o espectáculo, quando uma australiana que estava ali por perto - a primeira ocidental que eu vira em horas - me disse que só começaria dali a hora e meia! Tive que aguentar de pé todo esse tempo, rodeada de japoneses estóicos que dali também não arredaram pé. Em termos artísticos não posso dizer que me tenha enchido as medidas. Basicamente assisti a meia hora de uma marioneta a mexer os braços ao som de uma música monocórdica e interrompida por interjeições coordenadas do público japonês, que pareciam ser parte crucial do espectáculo, mas a magia de todos aqueles elementos estranhos e envolventes foi aquilo que ficou para sempre gravado na memória.
Em Takayama encontra-se o museu Takayama Jinya, um complexo de edifícios que serviram de sede do governo local e que é um dos únicos do seu estilo em todo o Japão, preservado de acordo com a arquitectura original. Podemos ver as casas de banho, cozinha, escritórios, armazéns e até uma prisão e sentir como era a vida nos tempos do shogunato de Tokugawa.

A cereja no topo do bolo é o percurso de 3.5 kms desde os templos de Higashiyama, uma área pululada de templos shintoístas e budistas, até ao Parque Shiroyama, situado num monte e no qual podemos explorar diversos percursos florestais com destinos misteriosos. Infelizmente por falta de tempo, apenas espreitei alguns dos templos na base do parque e subi um pouco a colina. Vi umas ruínas em pedra de onde partia uma enorme escadaria em madeira, mas não conseguir perceber aonde levava, pois estendia-se longamente por uma íngreme colina e as árvores não deixavam ver o que havia no topo. Já estava a ficar noite e foi com pena no coração que tive que virar as costas e voltar para trás, desejando sentidamente um dia poder voltar, para descobrir as maravilhas que não cheguei a ver. Terminei a minha visita a Takayama num jardim dum templo zen a ver o pôr-do-sol sob a cidade.

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Comentário de Irina Maia em 20 Outubro 2011 às 17:24
Ainda falta uma 3ª e quem sabe uma 4ª parte.
Comentário de Ana Tomasi em 20 Outubro 2011 às 11:10
Ei-la! A segunda parte desta viagem! Boa, Irina!
Comentário de Marina Soares em 19 Outubro 2011 às 12:18

O Japão é mesmo outro mundo... Ainda gostei mais desta parte II, Irina!

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