Para os que não conhecem Chicago e normalmente respondem «leisure» na alfândega fica desde já o aviso: existe um «leisure» Antes e Depois da visita à capital do Illinois.

 

O próprio nome da cidade conquista e apetece numa primeira audição. Porém, chegados ao étimo da palavra sentimo-nos traídos. Cheekagu é, afinal, um termo ameríndio associado a maravilhas da Mãe Natureza como a cebola ou a doninha, nada agradáveis ao olfacto. Pois não se deixe enganar. Chicago desperta, Chicago estimula. Do mais tímido ao que não conhece o medo. Explora, excita e excede todas as expectativas.

Situada em pleno Midwest, longe das megalópoles costeiras (Nova Iorque, Boston, Filadélfia a Leste / Los Angeles, São Francisco, San Diego a Oeste), possui um microclima tão seu quanto a Música que exala e História que transborda. Em pleno verão as temperaturas chegam de forma assídua aos 90 Fahrenheit (concordando com os nossos 32ºC durante igual período) mas é no Inverno que muda radicalmente de cara, mandando habitantes e visitantes para casa junto do aquecimento: 10 Fahrenheit, ou então uns impraticáveis –12ºC!

 

Chegada – 6ª feira, 4.40PM

Refeição rápida no O’ Hare International Airport + Passeio na Lake Shore Drive + Blue Chicago + Green Mill Club

Orçamento estimado: 150USD / 100EURs


Boletim Meteorológico à parte, é tempo de mergulhar no louco ritmo chicagoan. E podemos começar por aproveitar o Lake Michigan que banha a cidade, afinal equivalente a um quinto de água doce do Mundo. É contagiante a relação que cada um dos 3 milhões de habitantes da cidade tem com o lago. Barcos à vela, motas de água, jetskis, wakeboarders, kite, wind e lake surfers (uma modalidade de culto para os apaixonados pela onda de água doce - Chicago só tem praias a mais de mil quilómetros de distância em qualquer direcção logo… é preciso improvisar!), enfim, por vezes sente-se que a maioria da população da cidade tem hábitos anfíbios. É perturbador!

    Os chigagoans sabem pôr os pés na terra de vez em quando. São, por exemplo, apaixonados por blues. Por aqui despontaram os mestres das blue notes que ainda hoje são referência: BB King, Muddy Waters, Buddy Guy, todos agitaram os centenários bares de Chicago antes de se darem a conhecer ao Mundo. Especialmente famoso é o bar Blue Chicago, localizado na zona de River North, perto dos melhores hotéis e restaurantes da cidade. Uma nesga de espaço, um minúsculo palco onde diariamente se prestam sentidas e vibrantes homenagens ao estilo musical nascido no deep south norte-americano.

Se optar por experimentar uns passos de swing e sentar-se na mesa onde Al Capone planeava as suas golpadas, então o bar Green Mill espera por si. O próprio porteiro, mal-encarado, parece comportar-se como nos anos 20. Faz parte do número! Convidado a entrar, ainda mal percorreu o espaço e o décor já o transportou setenta anos atrás. Os quartetos musicais (particularmente famoso o de Patricia Barber, todas as segundas-feiras) são interrompidos por entusiasmantes locutores de rádio que reproduzem ipsis verbis os relatos do antigamente. Um bar charmoso, uma viagem inesquecível, por simples seis dólares (mais barato do que duas horas de estacionamento)!

Já se passeou pelo Michigan, já se cansou de dançar pelos bares de blues e swing da cidade e por ora é tempo de descansar. Para amanhã cedo, reservou um serão mais turístico. Museus, planetários, bibliotecas. Descanse por umas horas. É Que Chicago, tal como Nova Iorque, nunca dorme…

Primeiro dia – Sábado, 8AM – 1AM

Brunch no Yolk + Visita ao Art Institute e Millenium Park + Chicago Hot Dog no Murphy’s Red Hots + dinner & show no Marcello’s antes do espectáculo The Absolute Best Friggin’ Time of Your Life, no The Second City / jantar no La Scarola

Orçamento estimado: 200USD / 135EURs


Não podia ter escolhido melhor. Mais chicagoan que este programa de Sábado… impossível! É capaz de aguentar um bife de vaca com batatas aos cubos e molho guacamole às 8.30 da manhã? Então apresse-se na chegada ao Yolk pois a corrida costuma ser louca! Há vários espalhados pela cidade, o franchise é um sucesso, o serviço impecável e as bombas calóricas… mais que muitas. Do salgado ao agri-doce, passando pelo incrivelmente picante, se ainda estiver a esfregar os olhos ou a sentir em demasia o jet lag. Pode ‘fazer sala’ em pleno Yolk porque o Art Institute nunca abre antes das 10 e meia da manhã.

    Este museu (que tem um auditório desenhado por Frank Lloyd Wright já agora) reserva até ao final do mês uma exposição chamada Kings, Queens and Courtiers: Art In Early Renaissance France e você já percebeu que os gauleses beberam do embrionário Renascentismo da vizinha Itália a harmonia e energia dos vitrais, retábulos, retratos, tapeçaria. Não lhe foi indiferente a presença quase palpável da Corte Francesa lá para inícios do século XVI através de monumentais esculturas e manuscritos. Fusão feliz do gótico flamejante com os primeiros esquissos do Renascentismo. Enfim, por míseros doze euros não encontra igual nem melhor!

    O brunch foi superiormente digerido com esta dose de simbolismo real (misturada com cavalaria) e, ao início da tarde, convém adicionar mais calorias, não fosse este o país dos cachorros e dos hambúrgueres. Como por cá temos a nossa dose de McDonald’s, você decidiu arriscar nos cachorros e está confiante: esse tal de Murphy’s Red Hots vem muito bem referenciado. Porquê? Bem, digamos que numa conversa alheia você escutou algo como ‘’os red hots do Murphy são como viajar pelo jardim’’. E confirma-se! Por três euros apenas pode atirar-se (à confiança) para uma combinação de mostarda, cebola, pickles, alface, tomate, pepino, aipo e pimento verde em formato foot long. Quando estiver dentro do minúsculo espaço, só deve pronunciar estas palavras: ‘’no ketchup’’ e ‘’to go’’. Simplifique.

Está de visita à capital mundial da Gastronomia e nesta altura nada melhor do que mastigar a especialidade regional mais famosa e apreciada. Seja finalmente bem-vindo a Chicago, onde estão os melhores Restaurantes e onde o prato típico… é a porcaria de um cachorro-quente. Foot long! Isto porque não se recomenda (apenas se receita) a também célebre deep dish pizza. Quem não tem Cozinha própria… faz cachorros e pizzas. Na terra do Tio Sam é assim!

    Estamos na fase final do seu primeiro dia em Chicago, da verdadeira experiência chicagoan que não poderia ficar completa sem um espectáculo de comédia na Second City, o Santo Gral da comédia norte-americana. O site oficial resume a sua essência, ’50 years of funny’. Robin Williams, Stephen Colbert, Bill Murray ou Tina Fey, que redefeniram a sátira e o improviso da pop culture norte-americana, são apenas alguns dos seus ex-alunos. A coisa promete.

    O The Absolute Best Friggin’ Time of your Life é um espectáculo (‘extended by popular demand’) que fala sobre a América dos anos 90, quando o excedente orçamental ditava leis e a taxa de desemprego batia mínimos históricos. É um autêntico baile de finalistas americano levado à loucura. As personagens andam de shorts de ganga e passam o tempo a comer nachos. É tão surreal como mandatório. Sobretudo depois de um jantar no Marcello’s, um dos três melhores restaurantes italianos da cidade, logo ali ao lado. O dinner & show só é possível devido ao requinte da Oldtown, zona antiga e tradicional de Chicago, regra geral mais cara.

    Se por acaso à última da hora mudar de ideias e quiser investir a sério no jantar e no proveito da fama gastronómica da Windy City, não hesite: marque para o La Scarola e experimente o fabuloso Risotto Primavera. Até parece que a sua Avó saiu da cozinha e veio mexer-lhe nas bochechas! Se estiver num dia de sorte pode ficar sentado ao lado de Oprah Winfrey, por exemplo!

Último dia – Domingo, 9AM - 4.40PM

Encontro com Sérgio Rebelo no Ghirardelli’s Ice Cream and Chocolate Shop + Concerto de Arnaldo Cohen no Symphony Center

Orçamento estimado: 80USD / 55EURs


    No seu último dia, recorda algumas das gargalhadas que deu com o espectáculo servido pelo elenco da Second City ou, caso se tenha aventurado na zona oeste da cidade, o supremo risotto do La Scarola.

    Enquanto se prepara para desafiar a cidade novamente, não deixa de sorrir porque hoje a ordem é para falar português. O professor Sérgio Rebelo, da Kellog School of Management, espera-o na Ghirardelli’s da Michigan Avenue. Porquê? Porque como lhe falta tempo e é criminoso visitar Chicago durante o fim-de-semana, vai tentar perceber como é isso de ‘viver’ nesta turbulenta metrópole. E na Michigan Avenue por que motivo? Porque se trata da avenida referência da cidade, a sua ‘artéria aorta’. É a Fifth Avenue de Chicago, bem entendido. Também conhecida por Magnificent Mile, é um dos postais ex-libris da cidade: os primórdios do skyscraper (arranha-céus), datado do princípio do século XX, essa construção vertical metalizada, de parede espessa, vidro e betão armado que adveio da introdução do elevador e do crescente preço do imobiliário urbano, funde-se, nos pisos inferiores, com lojas trend setters tais como a Zara, a GAP (aberta ao público em 1969), Nike (megastore de três pisos) ou a Apple (constantemente lotada).

Sérgio Rebelo já conhece tudo isto com a palma da mão e muito mais. Não fica espantado com a sua experiência: «[Chicago] é uma cidade virada para o lago, que inventou os arranha-céus, que teve os dois génios da arquitectura do séc. XX, o Mies van der Rohe e o Frank Lloyd Wright». Quando lhe fala do Green Mill, o professor concorda com «a música de excelente qualidade» embora prefira pessoalmente «os clubes de jazz como a Lyric Opera ou a Chicago Symphony Orchestra». Quando lhe conta que não foi ver nenhuma peça de teatro, Sérgio Rebelo lamenta a sua falta de testemunho da «excepcional qualidade dos palcos, desde as grandes salas como o Shakespeare Theater, o Goodman, às mais pequenas, como o Writers Theater». Lá arranja coragem para lhe falar sobre o dinner & show da Second City: «sim, há de facto uma grande tradição de teatro de improvisação que se mantém viva em clubes de comédia como esse». E orgulha-se de ter passado pelo Art Institute, sem saber que «a ala nova foi desenhada pelo Renzo Piano».

    O professor está falador e com tanta conversa perdemos noção do espaço. O Ghirardelli’s é mais uma instituição norte-americana. São 150 anos a confeccionar chocolate directamente a partir da semente do cacau. São 19 mícrones (outras marcas como a Häggen-Dazs ficam-se pelos 40) de total e completa refinação dos flocos de chocolate, evitando o sabor granulado do mesmo. É um sabor único, leve e distinto. Ou será um terrível assomo de gula no dia da sua despedida? Ao sabor de dois batidos já não interessa.

    Sérgio Rebelo parece contente em ver portugueses por Chicago. Curiosamente, a Windy City é rica em comunidades, estilos, sonhos mas não existe nada de genuinamente português. Um café, restaurante, até um bairro como existe, por exemplo, em Newark ou Toronto, no Canadá. O professor é da opinião que a cultura nacional pode «ser promovida, em ambos os sentidos, ou seja, também seria muito fácil levar habitantes de Chicago para Portugal». Como? «Promovendo o nosso vinho, produtos agrícolas de qualidade juntos dos grandes restaurantes de Chicago, este tipo de actividade contribuiria para melhorar a imagem de marca do produto nacional junto do consumidor americano». Conclui, com uma sugestão de esperança no olhar, tão lusitana como a sua saudade, sugerindo a «organização de um evento que seja o ponto focal desta promoção».

    O seu dia e despedida completam-se com um concerto de Arnaldo Cohen – provavelmente o melhor e mais arrojado pianista da actualidade, natural do Rio de Janeiro - antes de arrancar, atrasadíssimo, à boa maneira portuguesa, para o Aeroporto de O’Hare.

    Ufa, que fim-de-semana!

 

 

 

 

 

AQUELAS CAIXAS QUE ÀS VEZES FICAM BEM...

 

CHICAGO visto à lupa…


do DESPORTO ==> os Chicago Bulls, dream team onde jogaram Michael Jordan, Ron Harper, Scottie Pippen, entre outros, foi a equipa de basquetebol mais laureada dos anos 90, com quatro títulos da NBA. Ficou para a história o seu treinador, o Zen Master Phil Jackson, hoje técnico dos LA Lakers. A equipa actual está em fase de explosão e tem no seu base Derrick Rose, de 22 anos, o mais jovem MVP da História da NBA. Rose é apenas o segundo jogador de Chicago a merecer esta distinção, sucedendo a Michael Jordan (1998).

No Hóquei no Gelo, desporto igualmente popular nos Estados Unidos, os Chicago Blackhawks são actualmente os vencedores da Stanley Cup. No Futebol, o antigo jogador do Arsenal Freddie Ljungberg milita nos Chicago Fire.

 

do CINEMA ==> várias cenas de «Batman: The Dark Knight», de Christopher Nolan, foram rodadas nas avenidas da cidade. «Public Enemies», de Michael Mann, que conta as aventuras e desventuras de John Dillinger e Charles Makley, entre outros, pelas ruas de Chicago, estreou oficialmente na capital dos gangsters. A terceira parte de «Transformers» terá na Windy City um dos palcos principais (ao contrário do que se possa pensar, o musical «Chicago», de Rob Marshall, foi rodado inteiramente no Canadá)

 

da TELEVISÃO ==> Tintin En Amérique leva o jornalista belga a confrontar-se directamente com Al Capone. O local onde tudo acontece? Chicago, pois claro…

 

da POLÍTICA ==> Abraham Lincoln teve vários debates e publicou várias leis ao serviço do Illinois. Barack Obama, antigo senador do mesmo Estado, anunciou oficialmente a sua candidatura num exclusivo à revista Playboy norte-americana (com sede na cidade). O seu ex braço-direito e conselheiro, David Axelrod, considerou candidatar-se a Mayor local nas eleições do passado mês de Fevereiro de 2011. Avançou Rahm Emanuel em seu lugar, antigo chefe de gabinete de Obama. Tornou-se, com 55% dos votos, o primeiro Mayor judeu da História da cidade.

 

das ARTES E LETRAS ==> Jane Addams (prémio Nobel da Paz), Edgar Rice Burroughs (criador de Tarzan), Walt Disney, Gwendolyn Brooks (a primeira afro-americana a vencer um Pullitzer), Hillary Rodham Clinton, Ernest Hemingway, Bernie Mac, Robin Williams, Gillian Anderson, George Kirby, Harrison Ford, Hugh Hefner, Herbie Hancock, Kanye West, todos eles são naturais de Chicago.

 

do bilhete de Avião


preços variam entre os 837 e os 1700EURS por adulto, ida e volta, em classe turística. Voo sem escala a partir de Madrid. Companhia: British Airways

preços variam entre os 687 e os 829EURs por adulto, ida volta, em classe turística. Voos com escala em Londres/Zurique/Nova Iorque/Atlanta. Companhias: Delta Airlines, Continental Airlines, Air France, Alitalia, Lufthansa

 

*simulação para uma viagem de fim-de-semana entre os dias 6 e 9 de Maio de 2011, feita no site www.rumbo.es

 

BABE-SE com um delicioso...

CHICAGO CITY TOUR

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Comentário de Administrador Transglobal em 9 Maio 2011 às 12:12
Melhorou! :) Obrigado
Comentário de Administrador Transglobal em 9 Maio 2011 às 11:09

Olá Manuel,

Que belo artigo de viagens! Ficava ainda melhor ilustrado. Não tem fotografias da viagem?

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