Neste dia lembro-me dela e da forma como manteve a criança sempre viva até partir neste dia, há 9 anos atrás. Um beijo repenicado para ela onde quer que ela esteja...lembrem-se sempre delas...porque nos fazem sentir ainda mais crianças.

 

O baú de madeira está marcado por sinais do tempo. A côr gasta da pintura, as farpas que teimosamente tentam soltar-se. Os autocolantes que decoram a tampa com múltiplas imagens de senhores simpáticos e de barba branca. A viagem ao sótão nas vésperas de Natal é envolvida por uma mistura de excitação e mistério. Parece sempre a primeira vez que abrimos este “cofre mágico” com o que chamamos “as coisas do Natal”…bonecos de madeiras pintados à mão com cores natalícias ganham vida no pinheiro manso que o avô colocou na sala, as bolas, de vários tamanhos e cores, reflectem os nossos sorrisos, cordões festivos e brilhantes abraçam os ramos verdes e frescos que se espreguiçam junto à lareira. Existem muitos papeis de embrulho, diferentes padrões, várias texturas, fitas largas, cartões e um conjunto de pequenos utensílios que fazem as delícias a qualquer aprendiz de bricolage.

Enquanto exploro minuciosamente cada objecto….Sinto o cheiro da abóbora…e chamo por ela bem alto “Ó Vóóóóóóóó!!!!! Já estás a fazer filhooooooses?”. Ela responde; “Diz, filha…sim, estou a prepará-las…queres vir ajudar a avó?” As suas mãos são percorridas por linhas fundas que não mentem sobre a sua idade nem sobre tempos mais duros do passado. Eu nunca as vi. A minha avó adora a vida. “Velhos são os trapos”, repetia. Só sentia a alegria do seu sorriso, o aconchego dos seus olhos meigos, a energia com que sobe e desce degraus , vezes sem conta, com a mesma preserverança que hoje, o faz a minha mãe. Não há uma queixa, uma lamúria ou algo que seja capaz de toldar esta luz tão forte que chega a todos qual relâmpago de felicidade. A mesa da casa de jantar está a ficar cheia de todas as iguarias que enchem os olhos e não só. O bacalhau está a cozer…as couves tenras " lá da terra" estão a postos para a sua função. Os intervalos na cozinha são recheados de mais amor. Há tempo para uma festa no cão, regar uma planta, levar-nos à sala um pratinho com sonhos ou a partilha cúmplice com a minha mãe sobre a próxima tarefa a desempenhar.

Passo os canais que são apenas 4…RTP1 e mais um “Natal dos Hospitais”. Subo o som quando chega a altura de mais um Fado… e, pára tudo. Ela entra airosa e contorna os sofás decidida. Uma colher de pau numa mão, um pano da louça noutra. “Põe mais alto filha, a avó adora isto!”…”Não há como um bom fado”. E dança, como só ela sabia .. convidando os restantes a juntarem-se ao festim improvisado. Como ela adorava um pézinho de dança. Acabavam as dores nos ossos, as pernas cansadas.

Por fim, o serão vai longo e depois do jantar ( onde não chegou a sentar-se por mais de 10minutos) chega a hora de esperar pelas prendas, ou seja, a hora do crochet. Aos seus pés, um cesto com novelos vários. Mais uma manta colorida a caminho. Uma das muitas que nos aquece até hoje. É meia-noite. Os seus olhos pequenos brilham mesmo cansados e recebe o primeiro presente com emoção. “Não se pode estragar os embrulhos”, afirma. E fica horas… para abrir cada um… e aproveitar sacos, papeis , fitas e caixas que volta a colocar no baú… A minha avó adora o Natal. E tal como ela, o Natal não tem idade.

 

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Comentário de Sonia Cabral em 17 Junho 2011 às 23:49
Certíssimo, mae! mas a Lu tambem está certa! Ela tambem so é assim pois teve pessoas com ela quando era criança que lhe proporcionaram essa oportunidade. Este texto é uma homenagem brilhante! Absolutamente brilhante! E ela sabe que eu sinto isso!
Comentário de Arminda Cabral em 17 Junho 2011 às 22:06

Todos nós temos recordações das nossas Avós!  mas nem todos temos a capacidade de descrevê-las tál como a Milene.....mas as nossas Avós merecem todo o AMOR

Comentário de Guadalupe Cabral em 17 Junho 2011 às 21:36

Ser crianças é muito bom! Por isso, os adultos devem contribuir para o aproveitamento dessa fase.

 

Comentário de Arminda Cabral em 17 Junho 2011 às 21:30

Lendo este texto leva-nos á célebre frase "O NATAL É QUANDO O HOMEM QUISER".

Comentário de carla susana meneses cabral em 17 Junho 2011 às 20:33
lindo este texto!!e viva todas as Avós.
Comentário de Joana Sousa em 17 Junho 2011 às 20:10
Este texto retrata bem um Natal tipicamente português. Pelo menos os meus eram muito parecidos. Comoveu-me este teu texto pois fez-me recordar a minha avó. Obrigada por isso
Comentário de Joana Gouveia em 17 Junho 2011 às 19:37

É verdade..... sempre ...sempre criança!! Está lindo

Comentário de Carla Pires em 17 Junho 2011 às 16:20
Até fiquei emocionada! Lembrou-me tanto a minha avo. Obrigada por este texto tao bonito.
Comentário de Sonia Cabral em 17 Junho 2011 às 15:15
É verdade, Joana, adoro esta foto!
Comentário de Joana Sousa em 17 Junho 2011 às 15:12
E pela cumplicidade e alegria patentes nesta foto!

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