Era um Domingo à tarde e eu saí do hotel sem nenhum destino particular em mente. Virei à esquerda porque sabia que para esse lado iria dirigir-me vagamente em direcção a Victoria. Se virasse à direita ao sair deste pequeno três estrelas que fica na Belgrave Road - entre muitos outros de fachada e categoria idênticas - ia caminhar para Pimlico e, se continuasse nessa direcção ia chegar ao rio Tamisa e a Vauxhall Bridge.

Mas optei por caminhar na direcção oposta porque toda essa vizinhança para os lados de Pimlico, que incluí também St.Georges Square e logo depois as margens do rio e a ponte, me parecia inóspita e pouco convidativa. Uma daquelas decisões que tomamos por instinto e sem qualquer fundamento muito lógico.

Aqueles quarteirões que separavam a minha rua - e aqui abro um parênteses para observar a rapidez com que ao fim de apenas três dias eu já tinha assimilado aquela vizinhança como sendo a ‘minha’ - com os seu edifícios de baixo perfil e fachadas vitorianas imaculadamente pintadas de bege ou branco e com entradas emolduradas por pequenos pórticos e grades enfeitadas com vasos de flores, partilhavam todos uma característica que eu já tinha experimentado, por exemplo, no bairro Jardins, em São Paulo: o facto de estarem apenas a umas centenas de metros de alguns pontos nevrálgicos da grande metrópole, com toda a sua agitação e tráfego incessante de pessoas e veículos, e serem não obstante, verdadeiros bairros residenciais, quase bucólicos, com as suas pequenas mercearias e vizinhos que se cumprimentam ao cruzarem-se na rua. Autênticos oásis em pleno deserto urbano. Assim como nos Jardins, em São Paulo, onde algumas ruas arborizadas e com lindos palacetes coloniais (dos tempos áureos do café) em toda a sua pacatez e recato nunca deixariam adivinhar, logo ao virar da esquina, a Avenida Paulista com os seus arranha-céus e multidões apressadas, também aqui, ninguém diria que se estava em pleno centro de Londres a apenas a algumas centenas de metros de uma estação central como é Victoria.

Mas esta comparação com outros tempos e outros lugares ocorria-me agora porque também estava associada a um sentimento já distante que eu voltava neste Domingo a experimentar: a solidão que se vive (mais intensamente ao Domingo) nas grandes metrópoles. Aqueles momentos em que parecemos ser os únicos que não têm família e que vivem num quarto alugado, os dias em que, por não haver trabalho não sabemos o que fazer e o único amigo de que nos conseguimos lembrar é o dono do boteco que - azar do caraças - também está fechado.

Foi por isso talvez que, ao enveredar ao acaso por uma transversal chamada Churton St, e ver um bonito pub aberto decidi que essa seria a minha primeira paragem. O watering hole deste pequeno oásis.

Ostentava grandes toldos verdes por cima dos quais se podia ler o nome: The Constitution. Do lado de fora, à sombra destes toldos, e ladeados por grandes floreiras havia mesas e bancos corridos de madeira e, como estávamos em Junho e o tempo era quente e abafado, a esplanada estava cheia de ‘constituintes’.

Optei  por comprar um pint ao balcão e, como também queria fumar, vim cá para fora de copo na mão. Estava à procura de um canto onde pudesse estar sem atrapalhar a passagem a ninguém, quando um indivíduo de aspecto oriental me fez sinal para me juntar a ele no banco que ocupava sozinho e eu, agradecido, aceitei. Depois de um momento de silêncio embaraçoso em que eu hesitava entre retribuir a simpatia do gesto com alguma conversa de ocasião sobre o tempo ou entre ficar calado,  'minding my own business', o estranho tomou a iniciativa e perguntou-me se eu estava a desfrutar a minha folga ao que eu - lisonjeado por não ter sido imediatamente rotulado como turista  - respondi que não, que me encontrava ali só de passagem. Mas achei melhor não revelar que estava hospedado ali perto e comentei apenas que estava a apreciar muito a estadia na cidade.

Pouco depois, o meu companheiro de mesa levantou-se para se reabastecer de cerveja e, ao olhar para o meu copo já praticamente vazio, perguntou-me se aceitava mais um. Mais do que sede propriamente dita, foi por falta de reacção perante a oferta inesperada que aceitei, mas imediatamente começaram a soar na minha cabeça campainhas de alarme e, inclusivamente ocorreu-me o refrão daquela antiga música, ‘The House of the Rising Sun’: - Oh Lord, please don't let me be misunderstood...Não seria já hospitalidade a mais? Não vou sequer descrever todas as conjecturas que me passaram pela cabeça, mas o facto é que enquanto tomava aquela cerveja gentilmente oferecida (e que custava mais de três libras) o meu desconforto com tão súbita confraternização aumentava. Por outro lado, enquanto eu estudava uma complicada formula para sair dali sem parecer rude nem ingrato (talvez deixar uma cerveja paga para o meu parceiro de banco) tive oportunidade de ver o meu novo amigo londrino cumprimentar alguns vizinhos – tanto jovens como idosos - que passavam e paravam para dois dedos de conversa. Pouco depois apareceu um pequeno grupo que se veio sentar à nossa mesa e a quem fui apresentado individual e formalmente: - John this is Burke, Burke this is John e por aí a fora. A conversa coletivizou-se e foram constatadas inclusivamente algumas afinidades profissionais: Eu já estava a utilizar a ultima edição da Creative Suite? E o que é que eu achava? E aquela estória da Cloud? Será que compensava?

Eu era o recém-chegado áquele grupo de regulars e quando me despedi disseram-me para aparecer mais vezes que eles lá estariam.

Bem sei que não será assim em todo o lado mas, mesmo assim, não deixei de me sentir envergonhado pelo meu provincianismo e por todas as barreiras que já estava pronto a erguer. Afinal na grande cidade também pode haver proximidade e amigos da rua.   

Saí dali com o coração aconchegado e a pensar: Long live the Constitution!

 

 

 

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Comentário de Ana Tomasi em 8 Julho 2013 às 17:22

Boa história, Vasco. :)

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