TEATRO: Os Improváveis em entrevista ao MyGuide

Chamam-se Improváveis mas o facto é que as probabilidades de lhe roubarem um sorriso aos sábados à noite, no Teatro A Barraca, são de cem por cento.

Sem guião, sem truques ou qualquer previsão do que vai acontecer. Eles improvisam em cima do palco, para toda a gente ver. Cada espetáculo é um momento único, reservado para o público daquela noite. As sugestões, essas dependem totalmente de quem vai assistir.

O trio improvável é composto por Marta Borges, Pedro Borges e Telmo Ramalho. O MyGuide ficou curioso e foi conversar com estes artistas do improviso, que passam a vida a arriscar e a sair da sua zona de conforto, numa busca por ver sempre as coisas de uma maneira original e criativa.

Porquê o improviso?
Marta Borges: Para mim surgiu primeiro como uma técnica ensinada por um brasileiro que cá estava, e que me pôs durante uma formação a trabalhar uma personagem e a improvisar dentro dela, a levá-la para a rua. Na altura achei graça, mas nunca pensei que isso fosse possível de trabalhar como conceito para espetáculo. Mais tarde fiz um workshop do John Mowat, um encenador inglês que trabalha muito para criar os seus espetáculos através do improviso. Fiquei com o alerta, embora continuasse a fazer trabalhos como actriz “clássica”.
Em 2008 cruzo-me com a Sanne Leijenaar, num workshop de improviso, onde encontrei o Pedro e o Telmo. A Sanne tinha começado por trabalhar com o improviso no Brasil, sabia falar português e utilizava as técnicas de improviso e os jogos para trabalhar com miúdos de favelas, e em prisões, para lidar com diversos problemas. Quando regressou à Holanda sentiu-se deslocada. Olhou para a Europa e pensou, o que é que seria mais parecido com o Brasil. Surgiu assim Portugal.
Cá ela queria partilhar o que fazia, e achava que havia “quase nada” de improviso em Portugal, a não ser os Commedia a la Carte. Nesse workshop de teatro e comédia de improviso que eu, o Pedro e o Telmo fizemos, foram selecionados quase automaticamente actores para comporem um grupo de improviso. Nesta formação nasceu então um grupo, que começou por ser maior, como qualquer grupo, e que tomou a forma que tem, com três actores no núcleo fixo desde setembro de 2011.

Qual é o maior desafio para vocês em cima do palco? Sentem a necessidade de comprovar ao público que o que fazem é mesmo improviso?
Pedro Borges: Felizmente já não o sentimos tanto, porque o nosso público já sabe ao que vêm, já nos viram, ou pelo menos já ouviram falar, e já vem a saber que é mesmo improvisado. Se estivéssemos perante uma plateia que não nos conhecesse de lado nenhum aí teríamos um bocado essa preocupação. Não nos queremos preocupar com isso, mas sabemos que é uma coisa de que o público precisa de ter a certeza.

Telmo Ramalho: Por isso, muitas das vezes, quando erramos em palco, o público apercebe-se e o melhor que temos a fazer é assumir e valorizar o erro, e assim temos o público do nosso lado.

Marta Borges: Ainda assim, mesmo quando a sala está recheada de pessoas que já nos viram ou que foram recomendadas por alguém que já nos viu (o que é frequente), não deixamos de reforçar, na abertura, que é tudo improvisado. Inclusivamente porque isso põe as pessoas mais disponíveis para participar no espetáculo, e protege-nos, porque ao assumirmos o erro, e brincarmos com os nossos próprios enganos, com coisas que surgem acidentalmente, mostramos que temos uma grande ginástica para abarcar o quer que seja.

Telmo Ramalho: É engraçado que, muitas das vezes, quando nos enganamos nalguma palavra ou no nome de alguém, geralmente isso é o motor que nos faz avançar no improviso.

O improviso não se prepara, mas treina-se. Vocês têm técnicas para estimular a criatividade?
Pedro Borges: Temos técnicas, ensaiamos regularmente e costumamos ir ao estrangeiro aprender mais e ver. Vamos aprender com grande improvisadores, a vê-los a actuar e a ter aulas com eles. Existem efectivamente técnicas, senão era só “faz-de-conta” sem pés nem cabeça. Senão estávamos só ali a inventar à maluca, e não é isso que queremos, queremos conseguir criar histórias interessantes.

Telmo Ramalho: E mesmo nós como grupo precisamos de sair do que é rotina, precisamos de descobrir novas técnicas, novos formatos, onde nos possamos segurar, para criarmos algo novo. O espetáculo é sempre diferente, o alinhamento é sempre diferente, o público é sempre diferente. O que nós procuramos fazer em palco tem de ser diferente. E no estrangeiro procuramos inspiração para isso mesmo, para dar algo novo ao público.

Marta Borges: Para além dos espectáculos semanais, treinamos entre nós, e com os convidados quando os temos. Se alguém encontra uma coisa particularmente curiosa, partilha-a. Primeiro porque pode ser algo sobre o qual se venha a trabalhar, pode ser uma sugestão que parta do público, e nós não temos que ser enciclopédias andantes, mas temos de ser pessoas curiosas e um bocadinho atentas a tudo o que está a acontecer, nem que seja genericamente.

Até que ponto esta maneira de fazer teatro que é o improviso, influencia a visão e maneira de estar na vossa vida pessoal? Até que ponto é que vos ajuda a adaptarem-se melhor a situações imprevisíveis e diferentes?
Pedro Borges: Acaba por entrar em nós um espírito mais criativo, de estarmos prontos para “o que der e vier”. Independentemente da situação que venha, estamos habituados a lidar com o desconhecido. E acho que, de certo modo, faz de nós melhores pessoas, acho que nos torna mais interessados no mundo e nas pessoas. Quando vejo um filme, observo o enredo que foi criado, a ligação que foi construída entre as personagens e entre cenas. Quando vejo as notícias, estou a ver que potencial é que podem ter para uma história improvisada.

Marta Borges: Depois de se improvisar começa-se a dar mais valor a guiões, que destacam as relações e não os artefactos à volta. Estamos sempre um bocadinho na busca da verdade, do humano, de coisas que toquem verdadeiramente as pessoas.

Telmo Ramalho: Nós conseguimos explorar um bocadinho melhor isso num outro espectáculo que temos que são “As Peças do Improviso”, em que a partir de uma simples sugestão do público, de uma palavra, de uma frase ou até um pequeno excerto de um livro, nós conseguimos fazer uma peça de teatro de meia hora, uma hora, acompanhados por um pianista que também improvisa, o Rúben Alves. Aí sim temos mais liberdade para criar, do que no short form, em que de certa forma estamos limitados aos jogos e ao tempo de duração de cada jogo. No long form a criação é mais lenta, as personagens criam-se com tempo, as relações ficam mais vincadas e o próprio público sente-se a acompanhar a criação que está a ser feita ali no momento. No long form eu sinto que pomos o nosso dia-a-dia em palco. É quase certo que vai aparecer qualquer coisa em palco que bebe das nossas vivências.

Marta Borges: De um modo geral os actores que experimentam isto são pessoas que metem a mão em muito mais coisas do que os actores clássicos. Não é por serem melhores nem piores. Depois de se experimentar improviso, já se tem muito mais poder de observação e sugestão, seja em que matéria for. Ganha-se o poder de perceber como é que se pode casar a vontade de quem nos está a dirigir, com a nossa vontade e com aquilo que nós sabemos que pode eventualmente ser uma melhor cena, uma melhor gravação, uma melhor locução.

Vocês dão cursos de Teatro de Improviso para particulares e empresas. Podem explicar-nos um bocadinho do que acontece nestas formações?
Pedro Borges: Neste curso transmitimos grande parte daquilo que aprendemos e sabemos, de tantos anos a fazer de improviso. No caso do improviso para empresas, acabamos por aliar a vertente empresarial à vertente de actores e fazemos workshops para as empresas, os Business Improv. Também fazemos cursos de três meses para actores e não actores, nos quais conseguimos trabalhar com as pessoas de forma a passarem por um formato curto de jogos de improviso e depois conseguir chegar a um formato longo e pôr as pessoas efectivamente a conseguir fazer um improviso seguido de trinta minutos a partir de uma sugestão. Por vezes fazemos um prolongamento para aperfeiçoar. Tudo isto leva muito tempo e é um processo que nunca termina. Nós próprios sentimos que temos ainda um grande caminho pela frente. Quando vemos outros improvisadores que têm 10, 15, 20 anos de improviso e continuam com um espírito criativo e com vontade de fazer melhor e diferente, percebemos que a nossa aprendizagem de improviso nunca mais vai acabar.

E é bom que nunca acabe para nos presentearem com os seus espectáculos imprevisíveis e improváveis. Um espectáculo por sábado, nem sabe o bem que lhe fazia.
Os Improváveis estão em cena no Teatro A Barraca, nos próximos sábados 2, 9 e 16 de Março. Como já é conhecido dos habitués, a cada sábado, o trio tem por norma trazer um convidado a palco e desafia-lo para esta aventura. No próximo dia 2 de Março será a vez de Rui Maria Pêgo e dia 9, o convidado será o Rui Melo.
Não percam a oportunidade de assistir a um espectáculo literal e realmente único!

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Comentário de Pracaschandra Jaiantilal em 11 Março 2013 às 21:17

Entrevista interessante, interessantes os entrevistados!!!...Os "IMPROVAVEIS" são IMPREVISIVEIS...a imprevisibilidade faz parte não só (deste tipo) de Teatro, como da própria Vida: A VIDA é um Teatro e o Teatro é a Vida!!!...Na verdade, o Viver segnifica o estar no Aqui e no Agora...sempre aberto para o "imprevisto" e, portanto,  para o "improviso". Na treali- dade, segnifica Viver da Eternidade...Parabens à entrevistadora e aos entrevistados.

 

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