O Sonho de Nia e os "Carceri d'Invenzione" de Piranesi

 

 

 

CARCERI d'INVENZIONE

 

 

Giovanni Battista Piranesi

 

~ INTERPRETAÇÃO LIVRE (Nuno Quaresma) ~

 

O SONHO INICIÁTICO DE NIA…

 

 

 

a) Introdução

 

Carceri d'Invenzione…

 

Prisões de invenção, prisões inventadas, imaginadas…

 

Antes mesmo de iniciar uma pesquisa sobre a história pessoal, da construção da obra ou até do contexto em que ocorreu a sua produção, recordo sobretudo o primeiro impacto, a primeira impressão que me ficou marcada na memória.

 

Apesar de ser uma obra descoberta por sugestão directa da Professora Jacs Aorsa, contextualizada no briefing geral para este trabalho para a disciplina de História e Práticas do Desenho, o que guardo como ânimo e mote para esta reflexão é esta impressão sentida, investida da curiosidade dos primeiros encontros.

 

O que me fica sobre este conjunto extraordinário de 30 placas de gravura, que me deixou uma forte sensação de presença no Imaginário de Piranesi, e que são justamente intituladas “Carceri d'Invenzione”, é a impressão de estar a entrar num espaço de intimidade.

 

Esse espaço rico e único a qual raramente se tem acesso, tornou-se no móbil para todo o processo criativo, técnico e tecnológico e a seguir, e em função do briefing dado, estruturei.

 

Já em pesquisa descobri que efectivamente, este trabalho é contextualizado numa “magnífica junção da fantasia veneziana com a monumentalidade romana ” muito dentro da tradição e maneira de Tiépolo, nomeadamente na luz e nos volumes.

 

Pus-me a somar:

 

Invenção…

 

Imaginação…

 

História pessoal/construção da identidade…

 

Espaço de intimidade…

 

Fantasias…

 

Monumentalidade vs. volume…

 

Juntamente com um projecto pessoal relacionado com a banda desenhada e a ilustração, onde ando à procura de um estilo, de uma maior classicidade e profundidade na construção simbólica e estética das personagens.

 

Foi assim que me surgiu a ideia original para esta ilustração que servirá um episódio que descreve um sonho de Nia, personagem central da história “O Mundo de Shido”, junto de uma narrativa visual que decorre num cenário onde faço uma colagem de três gravuras diferentes (Fig. 02, 03 e 04, ver pdf domiciliado no slideshare) da série “Carceri d´Invenzione”.

 

Por achar pertinente fiz ainda uma homenagem à “Batalha de Anghiari” de Leonardo da Vinci, numa luta encenada, com enfoque na descrição de emoções, através do desenho e com uma referência velada aos exemplos de deformação caricatural no trabalho de Leonardo, mas também de Hogarth, Goya ou Daumier.

 

Por outro lado, como matriz global de planeamento de todo o desenho optei por fazer um investimento de tempo na construção de uma composição definida essencialmente por uma divisão do plano em dois sub-planos verticais, utilizando um pilar mestre e organizando os elementos da parte inferior do enquadramento global na circunscrição de um triângulo e pelo alinhamento dos outros elementos segundo linhas diagonais para dar enfâse à ilusão da acção e do movimento.

 

 

 

O trabalho que aqui descrevo, e que é o “lugar” em que procuro a consolidação da obra final, divide-se em cinco sinopses:

 

b1 – Piranesi e os “Carceri d´invenzione;

 

b2 – A Batalha de Anghiari e a homenagem à obra de Leonardo;

 

b3 – Estudo do enquadramento e composição; técnica de etching e da trama (cross etching).

 

b4 – Conclusão

 

 

 

b) Desenvolvimento

 

 

 

 

1. Piranesi e os «Carceri d’Invenzione»

 

Esta obra é inquestionavelmente uma das obras mais amplamente difundidas e abordadas de Piranesi e talvez uma das mais «sui generis» na evocação à tradição literária da sua época, ao hermetismo, às fontes e à estética do Sublime.

 

Foram publicadas pela primeira vez em 1745, com o título « Invenzione Capric di Carceri), impressas por Giovanni Bouchard e reeditadas em 1760 como «Carceri d’Invenzione, sofrendo ligeiras alterações e acrescidas de mais duas gravuras.

 

Entre a primeira e a segunda tiragem, podem constatar-se algumas das alterações de estilo que espelham o desenvolvimento da obra de Piranesi.

 

Aqui, podemos identificar a influência da tradição veneziana (das «Caprici» e da fantasia) e romana dos autores da época, sobretudo na «maniera» de Tiepolo (como por exemplo, no tratamento das luzes e da volumetria) que na sua obra atinge o seu auge a partir de 1755 (como nota de contexto: ano do Grande Terramoto que devastou Lisboa).

 

Com um trabalho mais complexo , rico e intrincado, nesta fase é possível perceber o horror ao vazio que faz perder a clareza das obras, dentro de uma composição balizada e ordenada pela utilização recursiva da «scena per angolo», frequente nas tipologias cenográficas, teatrais, utilizadas por Bibiena, Valeriani, Marco Ricci ou Juvarra.

 

Destas influências, distingue-se a de Juvarra na referência Neo Quinhentista, Utópica e Anti Clássica.

 

Na sua obra são ainda distintivos aspectos como a censura à «Cidade Barroca», mas em simultâneo à tradicional antinomia da Roma antiga e também ao organicismo, distorção da perspectiva (comum na Cenografia Tardo Barroca), composição assente em planimetrias, interligações de supra estruturas, libertação da forma, perda de valor do centro compositivo, a metamorfose das formas (que muito explorei nesta minha interpretação pessoal), desarticulação, distorção e o espaço representado segundo o ideal Humanista.

 

Todo este processo formal conduz o espectador a uma percepção psicológica e estética que muito me interessou e que autores como Edmund Burke, entre outros, categorizam como «Sublime». Um Sublime que pretere a perfeição e a clareza da estética pelo valor dos conteúdos emotivos, colocando o recurso da imaginação também nas mãos do espectador que é obrigado a desconstruir e a voltar a construir a imagem nas suas múltiplas dimensões.

 

Indo beber a toda esta percepção e abordagem na «maniera» própria de Piranesi, intitulei a obra como «Sonho de Nia». Ou seja, sonhar na perspectiva e ideia comum na época do «Homem como actor impotente, num teatro que já não é o seu» combinado com o fascínio pelos cárceres com o seu significado simbólico de prisões da mente (como em Coleridge ou Thomas De Quincer) acessíveis sobretudo através do onírico.

 

2. A Batalha de Anghiari e a homenagem à obra de Leonardo

 

A escolha pela opção de dulpa homenagem neste exercício, surgiu-me na sequência de toda a leitura por uma óptica emotiva, das «Carceri d’Invenzione» de Piranesi.

 

Uma das muitas reflexões que esta série de gravura me convocou foi a abordagem, por assim dizer, sublime das 5 Emoções hoje descritas, para além dos múltiplos Sentimentos, como Emoções Básicas: o Medo, a Raiva, a Tristeza, a Alegria e o Amor.

 

O paralelismo, apesar de numa abordagem bastante diferente, com o trabalho sobre expressões e emoções na obra de Leonardo pareceu-me possível e pertinente e como na minha liberdade interpretativa já tinha introduzido na minha composição inicial alguns elementos figurativos, escolhi então dar ênfase a esta leitura com um tributo à « Batalha de Anghiari» e à sua dinâmica compositiva e expressiva.

 

«A Batalha de Anghiari» não é mais do que um grupo monumental de soldados a cavalo numa imagem condensada e intemporal do furor bélico que achei que poderia ser um excelente contraponto, irreverente e antagónico, à ideia de impotência gerada pelo ambiente global das «Carceri»- Prisões.

 

Um novo conjunto figurativo e evocativo de uma luta interior, no contexto de uma «Carceri» de onde não há salvação, senão na força e liberdade da «vontade da alma humana».

 

Para melhor contextualizar « A Batalha de Anghiari», este estudo inicial em cartão e fresco inacabado, surge na obra de Leonardo por solicitação da cidade de Florença, com a finalidade de decorar, na técnica do «fresco» a Sala de Conselho do Palazzo Vecchio. O seu tema central é a vitória florentina sobre o exército milanês.

 

A pintura nunca foi finalizada, tendo ficado como espólio produzido apenas um cartão em tamanho natural (à escala) que sobreviveu mais de um século após a sua produção, período em que gozou de uma enorme fama.

 

Hoje, apenas o conhecemos através de cópias de Artistas posteriores a Leonardo, em particular na cópia realizada segundo o original, realizada por Peter Paul Rubens em 1605 e actualmente patente no Museu do Louvre, em Paris.

 

4. Estudo do enquadramento e composição; técnica de etching e da trama (cross etching)

 

A primeira abordagem que fiz a este exercício foi efectivamente, e numa tradição talvez mais pictórica, a abordagem segundo uma colagem idealizada num enquadramento que julguei coerente com o conjunto global das gravuras de Piranesi, sobre o qual construi uma composição (e repito) «definida essencialmente por uma divisão do plano em dois sub-planos verticais, utilizando um pilar mestre e organizando os elementos da parte inferior do enquadramento global na circunscrição de um triângulo e pelo alinhamento dos outros elementos segundo linhas diagonais para dar enfâse à ilusão da acção e do movimento».

 

Só então comecei a fazer um trabalho de trama e trama cruzada, enquanto fazia uma leitura prática e simulada da técnica designada por «Etching» em Gravura e que passo a descrever:

 

 

 

Origem

 

Contexto históricos e descrição:

 

A técnica química de gravura foi desenvolvida na idade média por artesãos, fabricantes de armaduras, árabes como uma forma de aplicação na decoração para armas. Floresceu no século XV, no sul da Alemanha, onde as primeiras impressões gravadas em papel foram impressas no final do século.

 

Durante as primeiras décadas do século XVII, artistas holandeses como Van de Velde, Jan van de Velde II e Willem Buytewech experimentaram esta técnica. Eles estavam à procura de criar um efeito atmosférico na suas paisagens impressas, e na tentativa conseguiram desenvolver um método que rompia com as linhas de contorno longas transformando-as em curtos traços e pontos.

 

Hercules Segers por sua vez, experimentou esta transformação e adaptação por um motivo diferente: a necessidade de criar um efeito pictórico na impressão em papel colorido ou tela, trabalhando-as posteriormente com um pincel de cor, tornando assim cada impressão numa peça única.

 

Rembrandt levou a técnica ao extremo, superando todos os seus antecessores. Nas suas mãos, a gravura tornou-se um meio pleno e maduro de que se ocupou em períodos longos para o resto da sua vida.

 

A técnica que utilizei neste desenho referente a Piranesi filia-se muito no exemplo de Rembrandt que, por conhecer melhor, reconheço ter tido grande influência na abordagem pessoal e estilística que escolhi.

 

As Gravuras são impressões, normalmente em papel, de desenhos ou modelos construídos pelos artistas, em suportes diversos, com recurso às técnicas do desenho, pintura ou corte. Estes suportes podem se um bloco de madeira, uma placa de metal ou uma tela de seda.

 

Em Piranesi (assim como em Rembrandt) o suporte é uma chapa fina de cobre. Esta é então coberta com uma mistura resistente aos ácidos conhecida como base de gravura, composta de betume judaico, resina e cera.

 

Nesse revestimento fino é então produzido o desenho directamente com uma agulha de gravura, que penetra esta fina película deixando exposta, nestas ranhuras, a placa de cobre.

 

A placa é colocada, em seguida, num banho de ácido diluído. As partes expostas, que deixaram de estar protegidas contra o ácido pela base de gravura, ficam gravadas, em sulcos criados na superfície do metal.

 

Quanto mais tempo a placa é deixada no banho, mais profundos esses sulcos se tornam. Posteriormente esta base de gravura é removida e a placa limpa e finalizada com uma almofada de tinta ou com um rolo.

 

Ela é então limpa manualmente para que a placa fique inteiramente despojada de tinta, à excepção dos sulcos.

 

O passo seguinte é a fixação de uma folha de papel húmida na chapa seguindo-se a compressão de ambos através de rolos de imprensa. O papel absorve assim a tinta dos sulcos, produzindo-se uma impressão invertida do design realizado na chapa.

 

O desenho que aqui realizei com esta abordagem técnica e tecnológica sempre em perspectiva, manteve a fidelidade ao princípio de execução que norteia esta modalidade de criação artística e deixou-me efectivamente curioso e interessado na prossecução de uma experiência em placa que penso que me poderia esclarecer alguns outros efeitos que pude observar nas reproduções mas que de alguma forma não soube reproduzir através do uso da trama

 

 

 

5. Conclusão

 

«Cerca Trova»

 

Detalhe no topo do fresco da «Batalha de Marciano» de Giorgio Vasari, 1563 (pintado sobre o fresco original de Leonardo, «a Batalha de Anghiari)

 

«Só quem procura, encontrará», Evangelho

 

Depois de algumas semanas de trabalho, pesquisa e justificação, sem me alargar noutras conclusões senão a mais humilde e verdadeira a que consegui chegar:

 

« Só quem procura, poderá encontrar»

 

A asserção é, de longe, pouco pacífica. Pablo Picasso afirmava por exemplo «Eu não procuro, encontro» e quntos não são os que em todas as áreas do Saber se encontraram fortuitamente, por obra da sorte ou destino, com as soluções que nem sabiam procurar.

 

Contudo, e seguindo o raciocínio de Vasari, «Cerca Trova», no desenho efectivamente as coisas funcionam assim.

 

O Desenho é uma das grandes formas e instrumentos do pensar.É um pensar com o corpo, com a mão, com o olhar.

 

Nesta obra que decidi intitular como «o Sonho de Nia» confesso que pela primeira vez, circunstancialmente, procurei conhecer Giovanni Batista Piranesi. Não sei se o encontrei completamente, mas confesso que senti como nunca a inquietação que as raras preciosidades despertam... um não conseguir ou saber ficar indiferente ao apelo daquele mundo vagamente mimético.

 

... Mas em simultâneo hermético, magnético, misterioso e ao mesmo tempo, familiar... Humano...

 

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Nuno Quaresma

 

Janeiro de 2012

 

Mestrado em Design e Cultura Visual, 1ºA2

 

 

 

BIBLIOGRAFIA

 

Marani, Pietro C. (1996), Leonardo, Sociedade Editorial Electa Espana S.A., Madrid.

 

Janson, H. W. (1998), História da Arte, Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa.

 

Galeria de Pintura do Rei D. Luís – Instituto Português do Património Arquitectónico e Arqueológico, (1993), Giovani Battista Piranesi – Invenções, Caprichos, Arquitecturas 1720/1778, Secretaria de Estado da Cultura, Lisboa.

 

Pereirinha, T. (2011), A vida misteriosa de da Vinci, in Revista Sábado, n.º 392 (p. 44-54), Grupo Cofina Media SGPS, S.A., Lisboa.

 

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