PASSEIOS (CÁ DENTRO): Páscoa em Portugal, belas romarias para todos os gostos

País de inúmeras tradições e romarias católicas, a Semana Santa em Portugal é um evento que atrai para diversos pontos do país, cada vez mais turistas nacionais e também estrangeiros à descoberta da faceta tão própria e tão nacional destas celebrações. Com várias vertentes e iniciativas para todos os gostos, a celebração da Páscoa em Portugal inclui muitos ritos que misturam o catolicismo com a mística e antigas festas pagãs, atraindo todos em belas romarias de cores, sons, fogo e muita fé.

Se deseja descobrir algumas das mais belas tradições pascais portuguesas, o MyGuide apresenta-lhe um guia completo e com celebrações para os vários dias da Semana Santa.

 

QUARTA-FEIRA

Nossa Senhora da Burrinha (Braga)

Esta procissão marca o início das celebrações da Semana Santa no local onde elas têm maior tradição em Portugal, Braga. O objetivo desta demonstração religiosa é recriar a fuga de Maria de Jerusalém para o Egipto, tal como ela ocorreu, em cima de uma burra. O andor com a imagem de Nossa Senhora é transportado pela rua em cima da burra,  recreando com toda fidelidade este episódio bíblico, numa procissão que também integra quadros bíblicos feitos por muitos voluntários que assim cumprem o seu desejo de participar nesta celebração religiosa. Composto por mais de 1200 pessoas, das quais 800 são figurantes, esta adoração à Nossa Senhora da Burra é quase como um teatro bíblico em procissão, num evento que atrai por ano cerca de 60,000 peregrinos a Braga.

Em 2011, com a burra Letícia ocorreu um (divertido?) episódio, quando a burra resolveu parar a meio da procissão por um bom período de tempo. Em 2012 a Letícia foi substituída pela Madonna, uma verdadeira burra mirandesa.

Serração da Velha (Tourém)

Uma das mais antigas tradições pascais existentes em Portugal, simboliza também o fim do Inverno (a velha) e o início da  Primavera. Esta celebração começa por volta da meia-noite quando os grupos de rapazes reunidos começam a animação e rebuliço, acompanhados pelo barulho dos chocalhos que agitam. Os jovens vão parando nas portas onde estão as velhas (feitas de palha), pedindo que estas lhes sejam entregues. Quando a vontade deles é cumprida as figuras são enfiadas em paus e queimadas em ambiente de grande folia enquanto os homens vão percorrendo as ruas. Existe outra variação desta festa (também cumprida noutros locais) em que os rapazes andam com uma tábua  e uma serra, berrando um deles, a imitar a velha, súplicas para não ser serrada. A resposta é então dada por todos os homens em coro: ¨Serra a velha, serra a velha!¨

Queima do Judas (Montalegre)

Uma das tradições que cada vez mais turistas religiosos atrai, já  que consiste numa bonita e singela celebração de cor e chamas. Esta cerimónia representa a vontade da humanidade lutar contra o mal, aqui personalizado nos bonecos de palha do Judas que merece ser castigado. O evento começa às 17 horas, quando os Judas são agrupados na Rua Direita, em Montalegre, seguindo depois em cortejo até ao Terreiro do Açouge, onde decorre a queima. Normalmente são cerca de duas dezenas de figuras de palha a serem queimadas, numa festa que tem também um carácter satírico, como em 2011 quando dois dos Judas queimados eram “A Crise” e o “FMI”.

 (foto cedida por Olegário Maldonado à Câmara Municipal de Montalegre)

QUINTA-FEIRA

Endoenças (Torrão e Entre-os-Rios)

Esta procissão carrega já 300 anos de história consigo, estando associada à celebração do Senhor dos Passos. Esta imagem é ¨roubada¨ na noite de quarta-feira da paróquia de Entre-os Rios por responsabilidade das gentes do Torrão, de onde parte no dia seguinte de regresso ao local de origem. Embora parte da tradição se tenha perdido, pois até 1941 a viagem era feita de barco, continua a ser uma bonita celebração, com as duas margens dos rios Douro e Tâmega enfeitadas de luz para a ocasião. Ao todo são mais de 50000 velas que são colocadas nas pontes, margens dos rios, janelas, fachadas e encostas do Torrão e de Entre-os-Rios, com barcos, também enfeitados de luz, a fazerem o antigo trajecto percorrido pelo Senhor dos Paços. Sendo uma procissão noturna e que conta com o apoio da EDP local, que corta o fornecimento de luz durante a festividade, o facto de apenas as velas iluminarem a procissão torna esta travessia ainda mais mágica e bela.

 

SEXTA-FEIRA

Nossa Senhora da Enxara (Campo Maior)

Em Campo Maior a Páscoa está associada a outra festividade local, celebrada no mesmo fim de semana, que o milagre da Nossa Senhora da Enxara é recordado. A história reza que uma criança brincava pelos campos enquanto a sua mãe lavava no rio e foi ter com ela com um brinco de ouro que disse ter sido ofertado uma bela senhora. Ao deslocarem-se ao local indicado pela menina encontraram, no lugar onde a senhora oferecera o brinco, uma pedra com a imagem de Nossa Senhora gravada. Os populares erigiram uma capela a meio caminho entre a povoação de Ouguela e o local do aparecimento da mãe de Cristo, mas todas as manhãs a pedra que fora para ai transportada regressava miraculosamente ao seu local de origem. Foi então erigida no local onde a criança avistou a Senhora uma capela que recebe entre a Sexta-Feira Santa e a segunda-feira após a Páscoa uma romaria onde participam gentes de Campo Maior mas que também atrai cada vez peregrinos de fora do concelho. A festa esteve abandonada muito tempo até que nos anos 60 fez manchete dos jornais, quando foi retomada por alguns homens da terra que Salazar e a Ditadura tentaram silenciar e cognominar de comunistas. As gentes da terra tiveram uma visão diferente, e desde então é neste local perto da aldeia de Ouguela que são feitas as celebrações pascais de Campo Maior, numa festa que tem também tem uma missa e procissão campal, espectáculos, touradas, concertos e diversos carrosséis.

 

SÁBADO

Aleluia (Idanha-a-Nova)

Nesta terra raiana a celebração da ressurreição de Cristo é feita de forma ruidosa, com toda a povoação a sair para a rua com apitos, chocalhos, instrumentos musicais e um pouco de tudo o que faça barulho. É o anunciar da boa nova do milagre do regresso à vida de Jesus Cristo que começa às 21.00h locais, quando na Igreja Matriz o Padre local diz a palavra “Aleluia”. Então os sinos começam a tocar sem cessar e as gentes saem e dão a volta à vila fazendo uma bonita e ruidosa festa, que dura aproximadamente uma hora. Os foliões da ressurreição são acompanhados pela Banda Filarmónica, já que o Padre fica a celebrar a missa do renascimento de Jesus para aqueles que não desejem juntar-se ao cortejo. Após o animado anuncio da boa-nova o cortejo regressa até ao ponto de origem, frente à Igreja Matriz, onde o padre local, após terminar a liturgia, regressa à sua casa paroquial. Aqui, enquanto o barulho dos apitos e dos sinos da igreja se continuam a ouvir, o Padre oferece aos populares pacotes de amêndoas, enviando-os das janelas da sua casa para a multidão, que alegremente e em paz procura apanhar esta oferta. Terra de muitas e belas celebrações pascais, o concelho de Idanha-a-Nova tem quinze dias depois da Páscoa a sua romaria anual e a festa no Santuário da Senhora do Almortão.

 

DOMINGO

Festa das Tochas Floridas (São Brás de Alportel)

Numa das mais belas celebrações pascais no sul do país, todos os domingos de Páscoa São Brás de Alportel enche-se de flores para celebrar o regresso à vida do filho de Deus. O trajeto da romaria, com cerca de um quilometro de extensão, é todo ele enfeitado com um longo, colorido e extremamente bonito tapete de flores, através do qual a procissão vai avançando. Além do chão, a procissão também se faz de muitas tochas enfeitadas e embelezadas com flores numa festa de cor, cheiro, beleza e ressurreição. Os relatos antigos contam que esta festa começou quando muitas confrarias, por falta de fundos para adquirirem as grandes velas que os acompanhavam nas romarias, começaram a usar paus pintados e ornamentados com  flores que tinham apenas uma pequena vela acesa no topo. Algumas confrarias foram-se extinguindo e as outras até podem ter hoje em dia o dinheiro para as velas, mas a verdade é que esta tradição veio para ficar. As cores das tochas são uma multiplicidade que reflecte as antigas opas e estandartes dos confrades. Hoje em dia esta é, provavelmente, a festividade pascal que mais pessoas atrai no Algarve, com muitos milhares a deslocarem-se até São Brás de Alportel para ver as tochas floridas e o belo tapete de um quilometro criado com mais de 3000 toneladas de flores.

 

SEGUNDA-FEIRA

 Lanço da Cruz

As celebrações pascais nesta fronteira junto a Caminha têm um final diferente que une os povos das duas margens minhota e galega do rio que separa Portugal e Espanha. Às 18,00h, após a visita pascal em Cristelo-Covo o padre da freguesia desloca-se para o porto de embarque de Segadães onde entra num barco e leva a cruz enfeitada, o compasso, a dar a beijar aos habitantes galegos da outra margem do rio Minho, em Sobredo-Torron. Durante este período de tempo os pescadores lançam ao rio as suas redes abençoadas pelo padre, a quem é entregue o fruto desta pescaria. No regresso o padre português é acompanhado pelo seu homólogo espanhol, que traz também o seu compasso aos crentes portugueses para beijar. Esta demonstração da amizade entre minhotos e galego é intensamente celebrada, ouvindo-se foguetes, fanfarras, bombos, tambores, gaitas de foles e muita festa durante toda a travessia. Esta é celebração em que as embarcações dos padres são acompanhadas por vários barcos de pescadores, que assim se associam a esta bonita e icónica festa.

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